sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mexeram com os 
brios dos mineiros

Cesar Vanucci

“Estamos unidos no propósito de defender o patrimônio de Minas Gerais.”
(Trecho da Carta aberta em defesa das usinas da Cemig, subscrita pelas lideranças mineiras)

Minas Gerais dá nesta hora uma soberba demonstração de unidade de pensamento em torno de uma magna questão ligada a respeitáveis interesses econômicos e sociais comunitários. O pacto celebrado por suas lideranças políticas e representativas dos segmentos produtivos, com o propósito de defender o patrimônio de conquistas construído pela Cemig ao longo de sua trajetória de 65 anos de fecundas realizações, exalta nossos foros de cidadania. Exprime espírito de civilidade e sensibilidade política, ao enunciar que desavenças partidárias estão sendo momentaneamente deixadas de lado em prol de uma conjugação de vontades poderosa. Uma junção de esforços que fornece condições propícias para enfrentamento, com altivez e vigor, dos graves problemas gerados pela intransigência e incompetência do Governo central, outra vez mais flagrado em notórias dificuldades de entendimento quanto à forma correta de conduzir os negócios nacionais no rumo do progresso e do desenvolvimento.

A “Carta aberta em defesa das usinas da Cemig”, traduzindo clamor geral da sociedade mineira, representada pelo Governo do Estado, Prefeituras de 500 municípios, bancadas parlamentares da Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado da República, associações, sindicatos, entidades de classe e movimentos sociais, denuncia que a Cemig corre o risco de perder algumas de suas maiores usinas. Recusando-se a pagar essa conta, é sublinhado, os mineiros opõem-se com veemência a que isso venha a acontecer.

No documento citado clama-se do Governo Federal que respeite os contratos assinados e busque um acordo para renovação das concessões. De forma didática são alinhados os itens que embasam a justa pretensão da sociedade mineira. Vale a pena insistir na propagação desses argumentos. Minas não pode aceitar que sua vitoriosa estatal energética seja desfalcada das usinas de Jaguara, São Simão e Miranda por um bocado de razões. Ei-las: 1) Quem pagará a conta, afinal, seremos nós, consumidores: 2) O valor da conta de energia sofrerá reajustes, pesando em nosso bolso e afetando a vida de milhares de famílias; 3) A Cemig, hoje a maior geradora de energia do país, perderá aproximadamente 50% de sua capacidade de geração; 4) Isso resultará em drástica redução de investimentos, tanto em relação à empresa quanto ao Estado; 5) Tudo isso poderá prejudicar a qualidade no fornecimento de energia e também afetará a geração de emprego e renda em Minas Gerais; 6) O patrimônio da Cemig foi construído com o nosso trabalho, com o nosso suor, o trabalho e o suor dos mineiros; 7) Não é justo que um patrimônio de todos os mineiros seja usado para pagar uma conta que não é nossa.

A conta de que se fala é a dos desequilíbrios de caixa da União, provocados, como sabido até nos reinos mineral e vegetal, por incapacidade gerencial e por outros fatores revoltantes. Fatores esses indicativos de ações produzidas por administrações impopulares, desacreditadas e consideravelmente distanciadas do dia a dia do brasileiro comum. E, pela mesma forma, desvinculadas das aspirações sociais generosas que brotam do sentimento das ruas.

Na expectativa de que o bom senso e a justiça acabem prevalecendo, nalgum instante, nas tratativas em andamento, o País das Gerais deixa claramente estampada a disposição de levar às derradeiras consequências, nas instâncias próprias, seu inconformismo com o tratamento que se lhe está sendo dispensado.

Como já foi dito, mexer com a Cemig é mexer com os brios dos mineiros.

Debaixo do Amazonas 
tem outro rio

Cesar Vanucci

“Você sabe que há um rio que corre debaixo do Amazonas? Não é um aquífero.”
(Alice Spindola, escritora, poeta, acadêmica)

Quem me chamou a atenção para o intrigante assunto foi a respeitada escritora Alice Spindola. Comentando, com lisonjeiras referências, a série de artigos que vem sendo estampada neste acolhedor espaço sobre a momentosa questão da cobiça estrangeira pelas riquezas armazenadas no dadivoso solo e subsolo da brasileiríssima Amazônia, ela colocou a seguinte indagação: “Você sabe que há um rio que corre debaixo do Amazonas?” Aditou sugestiva informação: “Não é um aquífero. Este rio desagua no Atlântico”.

Nos papos que travamos posteriormente a respeito, a acadêmica Alice Spindola, que se confessa amante dos rios, estudiosa das águas do mundo, sendo ainda autora de uma sequência de livros sobre rios do mundo, retratados em prosa sugestiva e versos inspirados, ofereceu-me abundante material informativo acerca de um grande rio que corre debaixo do rio Amazonas a uma profundidade de 4 mil metros. Sobre minha culta interlocutora faço questão de também registrar tratar-se de alguém celebrado como figura de realçante presença no círculo dos poetas ibero-americanos.

Antes de brindar meu atento leitorado com as informações colhidas no enriquecedor diálogo, anoto para conhecimento do mesmo os títulos de alguns dos livros da alentada obra de Spindola: “Araguaia – Rio&Alma de Goiás”; “Loire - poema fluvial da França”; “Vou pelo rio Tornes”; “Bajo el Zumo del Tempio”, que também fala sobre o rio Tornes. Seja acrescida a informação de que a escritora conserva inéditos, para lançamento adiante, livros sobre os rios Amazonas, Araguari e Napo. Este último, rio formador do Amazonas. Cabe anotar também que em seu trabalho intelectual, viajando muito e promovendo acuradas pesquisas, a escritora estabeleceu substanciosos contatos com ribeirinhos, mode que coletar dados específicos sobre os fluxos fluviais focalizados.

Falemos agora do rio desconhecido de quase todo mundo. Não se trata de um rio subterrâneo, que corra por enorme túnel nas profundezas da terra. Em sua caminhada na direção do Atlântico, conforme afiançam os geólogos responsáveis pela fascinante descoberta, ele se infiltra nas rochas sedimentares. Foi localizado a partir de análises de dados geológicos referentes a poços de grande profundidade abertos pela Petrobras nas décadas de 1970 e 1980. Em vez do petróleo procurado, os geofísicos acabaram topando com um descomunal rio subterrâneo. O maior do mundo. Vejam só, o maior do mundo em suas características, circulando justamente debaixo do maior rio visível do mundo, o nosso portentoso Amazonas.

A equipe do Observatório Nacional engajada na pesquisa resolveu batizar de rio Hamza a caudal subterrânea localizada. A denominação homenageou o geofísico e hidrogeólogo indiano Valiya Mannathal Hamza, que assessorado pela geóloga brasileira Elizabeth Pimentel coordenou o grupo.

O trabalho identificou um volumoso movimento de águas subterrâneas em profundidades de até 4 quilômetros sob as bacias sedimentares dos rios Acre, Solimões, Amazonas, Marajó e Barreirinhas. Mas o rio subterrâneo poderá se estender ainda por outras áreas, de vez que os poços profundos perfurados pela Petrobras cobrem apenas parte da descomunal região amazônica. O rio subterrâneo corre do oeste para o leste a partir da região do Acre. Passa pelas bacias dos demais rios citados despejando-se no oceano nas adjacências da foz do Amazonas.

Os dados geofísicos levantados apontam um diferencial grande no sistema de vazão dos rios superpostos. A vazão média do Amazonas é estimada em cerca de 133 mil metros cúbicos por segundo. Já a vazão do Hamza é estimada em 3.090 metros por segundo. Embora pareça pouco em relação ao Amazonas, esse volume de água revela-se superior – cabe consignar, à guisa de comparação – à vazão média do nosso rio São Francisco.

As conclusões da pesquisa produziram forte impacto nos meios científicos, dando margem a alguns questionamentos por parte de outros geólogos. A controvérsia aberta sugere a retomada do assunto em artigo vindouro.


De volta ao rio 
embaixo do Amazonas

Cesar Vanucci

“A vazão do Hamza é superior às vazões do São Francisco e Tietê.”
(Afirmação dos geólogos responsáveis pela descoberta do rio subterrâneo)

O anúncio acerca da existência do rio subterrâneo embaixo do rio Amazonas, descoberto numa pesquisa promovida por equipe de geólogos do Observatório Nacional em 2011, assunto focado no comentário anterior, desencadeou naquela  ocasião acesa controvérsia. Pouco depois da comunicação oficial a respeito, transmitida no 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, alguns técnicos da Federação Brasileira de Geólogos trouxeram a público observações críticas ao trabalho apresentado. Sustentando a impropriedade do emprego da expressão “rio” para classificar o fluxo de água descrito, o referido grupo acentuou que a pesquisa como um todo não é absurda, mas que as conclusões oferecidas seriam de algum modo precipitadas.

Na contraposição às alegações contidas no trabalho dos geólogos Valiya Hamza, Elizabeth Pimentel e demais componentes da equipe do Observatório Nacional, os críticos afirmaram que chamar de rio o fluxo de água indicado é o mesmo que dizer “que uma caneta em forma de lápis é um lápis e não uma caneta”, o que lesionaria “conceitos arraigados nas geociências”. O fluxo de água subterrâneo detectado, segundo ainda os contestadores, é lento. Sua velocidade mostra-se  infinitamente menor que a do rio Amazonas.

Mas, isso - redarguiram enfaticamente os autores da descoberta – não constituiria motivo para não chamar de “rio” a caudal apontada na pesquisa. “Não existe definição na ciência para a velocidade máxima ou mínima de um rio”, na maneira de ver do geólogo Valiya Hamza. Acrescenta ele: “Inclusive no Brasil, existem rios com velocidade inferior àquela detectada, como o rio do Sono, no Tocantins. Além disso, o nosso rio tem um fluxo de 3.900 metros cúbicos por segundo, muito grande se comparado ao do rio São Francisco, por exemplo”.

Na avaliação dos cientistas do Observatório Nacional, o emprego do termo “rio” é, por conseguinte, mais do que adequado, uma vez que, além do rio a que estamos acostumados, que corre na superfície, dois outros tipos de rio são reconhecidos pela Geologia: o subterrâneo e o atmosférico. Eles embasam sua tese em argumentos que descrevem características especiais oferecidas pelo rio subterrâneo embaixo do Amazonas, rio esse, como já explicado, batizado de Hamza em homenagem ao coordenador da equipe responsável pela descoberta. Mesmo contendo apenas 2% do volume da vazão média do rio Amazonas (estimada em 133 mil metros cúbicos de água por segundo), a força do Hamza, com vazão de mais de 3 mil metros cúbicos por segundo – assinala-se também - é superior à de dois outros rios relevantes no sistema fluvial brasileiro. O São Francisco, que atravessa Minas e o Nordeste, beneficiando calculadamente 13 milhões de pessoas, cuja vazão é de 2,7 mil metros cúbicos por segundo. O Tietê, em São Paulo, que acusa vazão de pouco mais de 1 mil metros cúbicos por segundo, quando de calha cheia. Para os pesquisadores existe ainda outra explicação simples para a suposta lentidão do fluxo subterrâneo. Em terra, a água movimenta-se sobre a calha do rio como um líquido que escorre sobre a superfície. Nas profundezas, não há túnel por onde a água possa escorrer. A caudal vai pouco a pouco vencendo a resistência de sedimentos que atuam como gigantesca esponja. O líquido vai se ajeitando nos poros da rocha até ser despejado no mar.


Controvérsia científica à parte, esse rio embaixo do rio Amazonas, o de maior extensão do mundo nessa peculiaridade, é uma em meio à enormidade das exuberantes amostras das oferendas com que a Natureza dadivosamente cumulou o Brasil nessa parte de seu território chamada Amazônia, onde estão concentradas as maiores riquezas minerais, vegetais e hidrográficas deste nosso conturbado planeta azul. Um portentoso pedaço de chão, como sabido não é de hoje, vorazmente cobiçado por gringos com inclinações coloniais de diferentes sotaques.

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