quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Deu a louca no mundo

Cesar Vanucci

“Basta um maluco para apertar o botão. Temos dois.”
(Nick Cohem, no “The Observer”)

O Iémen está localizado nos confins do mundo, num lugar em que Judas perdeu as botas. Açoitado por guerra civil que já dura três anos, alvo de uma intervenção militar estrangeira capitaneada pela Arábia Saudita, vê-se agora as voltas com apavorante crise humanitária provocada pela disseminação do cólera. Segundo denúncia da organização “Médicos Sem Fronteiras”, ganhadora recentemente de um “Nobel da Paz”, 9 mil pessoas estão sendo alvejadas a cada dia pelo insidioso mal. Os recursos canalizados pela comunidade internacional para socorro da população, calculada em 10 milhões, ou são considerados insuficientes para prover as necessidades, ou deixam de chegar aos postos de atendimento por causa dos conflitos em andamento. As consequências funestas de tudo isso estão traduzidas nas milhares de covas abertas, todos os dias, para acolher as inocentes vítimas do flagelo. Não se sabe até aqui de nenhum comunicado emitido por qualquer organização terrorista, conhecida ou por conhecer, assumindo responsabilidade por esse atentado hediondo contra a dignidade humana.

Em “The Observer”, o jornalista Nick Cohem assinala: “Basta um maluco para apertar o botão. Nós temos dois.” Não pode ser descartada assim, sem mais nem menos, confundida como mero ato paranoico, a partir dessa constatação, eventual previsão apocalíptica que venha a brotar das cumulativas aprontações procedidas pelos dois cidadãos supra apontados, os mais “graduados” de um apreciável contingente de malucos. O coreano Kim Jong-un e o americano Donald Trump, com suas reiteradas e arriscadas bravatices e (só de pensar, dá um calafrio gélido na espinha de qualquer mortal) seu acesso desembaraçado aos botões dos códigos nucleares, especializaram-se em espalhar sobressalto e apreensão à mancheia. A cada fala raivosa trazida a publico, vou te contar... Ambos andam flertando perigosamente a possibilidade de uma escaramuça bélica pra valer. Um conflito capaz de conduzir este maltratado planeta a uma inimaginável tragédia. Talvez definitiva.

Explique aí quem puder. O sinistro “Califado do terror”, baseado em áreas sírias, iraquianas e líbias com ramificações noutros países do Levante e da África, está sitiado por terra, mar e ar por forças militares poderosas, que têm ao dispor equipamentos bélicos sofisticadíssimos. Mas não dá provas de esmorecimento no propósito de espalhar o pavor e a selvageria. Essas circunstâncias todas somadas atordoam experimentados observadores. Difícil pacas entender essa tremenda confusão das arábias. Como interpretar o fato de não surgirem sinais de enfraquecimento na capacidade guerreira dessas coléricas falanges que deturpam a mensagem filosófica islâmica para “justificar” tenebrosas investidas contra a dignidade da vida? Afinal de contas, quem financia esses doidos ensandecidos? Como fazem eles para renovar seus arsenais? Por que meios chegam ás suas mãos os equipamentos utilizados nas batalhas?  Fica claro que se trata de material bélico produzido por uma indústria armamentista de alta tecnologia, a qual, evidentemente, não mantém complexos produtivos nas regiões sob o controle do Califado. Partindo da alucinada suposição de que os terroristas adquiram o material essencial a sua tresloucada aventura militar longe de seus domínios, como é que as encomendas chegam até eles? De onde sai a “nota preta” para a quitação das compras? Mais: de qual sistema bancário se valem os dirigentes do EI para fazer as operações financeiras que lhes permitam honrar os compromissos contraídos com os vendedores? Tem mais: de onde chega o combustível para acionar os tanques, carros de combate e outros veículos? Escuta aqui, não vale responder que o combustível estaria sendo obtido em refinarias que possam, eventualmente, continuar operando nas regiões ocupadas. Na hipótese de que a presumível fonte de suprimento de óleo esteja em tais refinarias, ainda restaria, à espera de resposta, implacável pergunta: o que impediria aviões, porta-aviões, drones dos exércitos sitiantes de paralisarem para valer as atividades dessas unidades processadoras de combustível? Hein? Não tem como fugir. Há coisas por demais obscuras e inextricáveis sobrepairando no ar nessa história da guerra promovida pelo e contra o terrorismo.

     
Farinha do mesmo saco

Cesar Vanucci

“As tribos fanáticas, em todas as áreas de atividade humana,
abominam as diversidades, a democracia e o ecumenismo.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Jogo rápido. Anote aí, pra responder em segundos: qual é mesmo a diferença entre um radical de direita, um radical de esquerda, um radical que ostente qualquer outro tipo de rótulo? Se você cravou “x” na alternativa que admite a inexistência de qualquer diferença, congratulações. Você acertou em cheio. Se, na sequência lhe indagarem qual a essência da doutrina de cada um e você responder que a do primeiro é “pregar o ódio pelo ódio” e a dos demais é o “inverso”, ou seja, “pregar o ódio pelo ódio”, parabéns outra vez. Você estará novamente, absolutamente certo.

Acontece que, no fundo, os radicalismos de quaisquer matizes são na origem, crença, filosofia, sentimento e objetivos perfeitamente idênticos. Não importa a diversidade de cultura, cor, raça, credo, ideologia, latitude, posicionamento na cena política. As diferenças são mera aparência. Tudo farinha do mesmo saco. Os invólucros recobrem conteúdo rigorosamente o mesmo.

Acessemos na memória a lembrança dos semblantes mostrados em fotos e filmes de alguns extremistas comprometidos com ações incendiárias. Os líderes da Al Qaeda e do Califado do Terror; os dirigentes do Boko Haran e da Ku Klux Klan; o supremacista branco que explodiu o edifício público em Oklahoma; os pilotos sauditas que lançaram os aviões contra as Torres Gêmeas; o autor do atentado contra o Papa João Paulo II; os caras que espalharam gás no metrô de Tóquio e os que metralharam jornalistas da revista satírica francesa; os indivíduos que decapitam, lançam bombas, esfaqueiam, arremetem veículos em alta velocidade nas ruas congestionadas, ceifando vidas inocentes; os genocidas dos Balcãs e de outras paragens onde o ódio campeia como porta-voz de interpretações doentias das regras da vida. Todos os envolvidos nesses atentados se parecem extraordinariamente. Independentemente da estatura, peso, idade, grau de instrução. São “poligêmeos” no jeito insano de encarar a vida e de confrontar belicosamente os semelhantes. Na ira ensandecida com que se referem aos seus feitos. No esgar sinistro que se lhes percorre o rosto, uma espécie de tatuagem sem fixação da marca, a exprimir o desejo de serem identificados como mocinhos justiceiros a serviço de uma vontade transcendente, sobreposta às regras humanas. Não poucos, entre os radicais, costumam dizer que cumprem missão divina. Procedem tal qual os pistoleiros de aluguel que jogam pra cima de Deus a culpa pelas mortes provocadas, atribuindo-se responsabilidade apenas pelos furos das balas. Os exemplos de violências contra os valores humanísticos que conferem dignidade à vida se acumulam também no capítulo execrável da reação colérica, volta e meia registrada, aqui, ali e acolá, às salutares práticas do ecumenismo e ideal democrático.

Em nome de Alá, com fúria capaz de fazer bramir de júbilo no túmulo os despojos de Torquemada, fanáticos ordenaram a perseguição a um poeta, acusando-o de blasfemar sobre temas sagrados. De nada valeu a retratação. Os extremistas continuam até hoje a persegui-lo pelos esconderijos da vida em que a Scotland Yard o enfurnou. No Alabama, radical religioso considera razoável linchamento de negro insubmisso. Organizações racistas procedem como se lhes tivesse sido passada procuração em cartório assinada embaixo Deus, com firma devidamente reconhecida, para executar estripulias em seu santo nome. E por aí vai...

O radicalismo é um vírus. Acompanha o homem há um bocado de tempo. Causa devastações nos organismos sociais. É responsável por diásporas, guetos, xenofobismos mórbidos, campos de concentração, extermínios em massa. Agasalha ressentidos, portadores de cargas de angustias pessoais em ponto de implosão, coagindo-os a falsos dilemas entre propostas extremadas, falsamente distanciadas em seus nefandos objetivos. Produz fanáticos e terroristas pra todo gosto. Estimula o surgimento de carreiristas políticos e religiosos empenhados em dar eco a idiossincrasias e manifestações hidrófobas que insultam a consciência humana.

É saudável perceber a existência de um vigoroso sentimento de repulsa coletiva mundial aos radicalismos, por mais poderosos que eles demonstrem ser. Na verdade, a maioria das pessoas abriga no coração a certeza de que é no exercício democrático e ecumênico que residem as fórmulas verdadeiras de promoção humana. Não nas lateralidades ideológicas incendiárias.



 Em defesa da soberania nacional

Nair Costa Muls*

Nada mais significativo do que a coincidência entre a inauguração do Auditório José Alencar Gomes da Silva, na Assembleia Legislativa do Estado, e o lançamento da Frente Parlamentar pela Soberania Nacional. José Alencar foi um grande empresário mineiro, que sabia defender com ardor os interesses de Minas Gerais e do Brasil. Presidente da Fiemg, vice-presidente da CNI, senador, fez da carreira política um espaço maior para o exercício de um de seus principais traços: a capacidade de articulação e a busca do consenso através do diálogo. Vice-presidente do governo Lula, desempenhou um papel importante na articulação entre o segmento empresarial e os trabalhadores. Assim, essa coincidência traz bons fluidos para o sucesso da defesa da soberania do País.

Pois, diante do desalento que se sente face à gravidade da crise política vivida pelo País, não deixa de ser uma esperança a criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional. É importante frisar que o documento foi assinado por mais de 201 deputados e 18 senadores de vários partidos, o que supõe um grau bastante significativo de unanimidade face ao desastroso governo Temer. E não custa lembrar que “a soberania é o direito inalienável e a capacidade da sociedade brasileira de se organizar de acordo com sua história e características sociais para promover o desenvolvimento de todo o seu povo, de forma justa, próspera, democrática e fraterna “(item 3 do Manifesto pela Soberania Nacional).

Segundo o deputado Patrus Ananias, secretário-geral da Frente, o caráter pedagógico do movimento é um de seus principais pilares e, por isso mesmo, a proposta da Frente será discutida em todas as regiões do País com os diferentes segmentos do povo brasileiro, juventude, movimentos sociais, Igrejas, Câmaras Municipais, universidades, movimentos sindicais entre outros, com o objetivo de responder a uma pergunta básica: que Brasil queremos? Assim, quem sabe teremos algo a comemorar em 2022, aos 200 anos de nossa Independência?…

De qualquer forma, não se pode calar diante do desmonte do País: direitos e conquistas sociais, educação, ciência e pesquisa, saúde, recursos naturais, hidrelétricas, Petrobras, Eletrobras, Base de Alcântara e outras estatais, pré-sal, satélites de baixa altitude para o controle da comunicação interna, a maior reserva ecológica do mundo, a Amazônia, tudo está sendo vendido na bacia das almas para o capital estrangeiro, sob pressão do capital financeiro internacional, dominado pelos princípios do neoliberalismo, como ressaltaram os deputados Patrus Ananias e Celso Pansera, secretário-executivo e membro do colegiado executivo, respectivamente.

O senador Requião (PMDB-PR) foi claro na apresentação dos objetivos da Frente: compromisso com a defesa da soberania nacional, com o nacionalismo e com o desenvolvimento socioeconômico do País. Presidente da Frente, Requião apontou com clareza os interesses do capital financeiro internacional (“... a maior ameaça à soberania brasileira”), que tem conseguido dominar, através do financiamento privado, as forças políticas também na Europa? destruindo o Estado do bem-estar social,  transferindo o poder econômico para os bancos centrais, enfraquecendo os partidos e lá também promovendo a precarização do trabalho e a desqualificação do papel dos sindicatos.

No caso brasileiro, lembra o senador, Temer é apenas uma figura considerada como capaz de levar à frente o projeto de interesse do capital financeiro. Segundo Requião, o documento “A Ponte para o Futuro”, documento defendido pelo PMDB, nada mais é do que uma repetição do programa Thatcher, que, é bom lembrar, acabou com a tranquilidade europeia. De autoria do economista Marcos Lisboa, segue a linha do Consenso de Washington (desregulação, privatização, terceirização, competição e ou entrada do capital privado nos serviços públicos (saúde, educação, planos de saúde, por exemplo), ou seja, como querem os grandes, o Brasil deve ser o celeiro do mundo, o grande fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais a baixos preços; deve abrir ao capital internacional as terras brasileiras e os recursos naturais brasileiros, as estatais (Eletrobras, Petrobras, Casa da Moeda). Ademais, busca uma tecnologia avançada, que faz parte do modelo, mas leva ao desemprego. E não se pode aplicar no Brasil o modelo chinês de trabalho semiescravo, lembra Requião, pois aqui as conquistas sociais já vividas não permitirão tamanho retrocesso.

Lembra ainda que os Estados Unidos se recuperaram da crise de 1929, através do New Deal, de Roosevelt, que reconhecia o papel do Estado ? que gradualmente tomou as feições do estado do bem-estar social?  na recuperação da economia norte-americana, preservando a liberdade e as conquistas sociais e possibilitando a qualificação do trabalhador/especialização, a rentabilidade das empresas, a redução da carga horária do trabalhador e o aumento do salário; e, consequentemente, maior produção, preços melhores, maior demanda e melhores resultados também para o capital. Ao mesmo tempo, ao lado do aumento dos impostos pagos pelos mais ricos, o desenvolvimento dos serviços públicos, o pleno emprego e combate à fome foram conquistas importantes. O governo Temer faz justamente o contrário, ressalta Requião: a política de juros altos encarece o crédito e afeta a demanda; a precarização do trabalho impede o consumo; a mercantilização ou privatização dos serviços públicos (energia, água, ferrovias, saúde, educação, estradas e prisões.. e até mesmo bancos) destrói as bases da soberania do País. E mais: o sistema financeiro não só tem lucros exorbitantes, como tem amplo controle das políticas do Estado.

Segundo a Frente, há que se frear essa loucura entreguista, que só alcançará como resultado a derrocada da saúde e da educação públicas, o aumento da pobreza, a devastação do meio ambiente, além da privatização generalizada e perda da soberania nacional. E tudo isso, como consequência da ação de um governo que tem apenas 6% de aprovação junto à população, e, portanto, cuja autoridade e legitimidade são questionadas pelos outros 94% dos brasileiros. O liberalismo falhou na Europa e o Brasil caminha para o mesmo fracasso, afirma Requião.

O senador se apoia ainda no Papa Francisco quando este diz que não se pode servir a dois senhores: Deus e Manon  (E é bom lembrar que Manon não significa diabo; significa, pura e simplesmente, dinheiro). O capital pode ser positivo, ajunta, quando gera empregos, se submete? e é controlado? aos interesses e objetivos nacionais, possibilita a inovação da tecnologia, sem, no entanto, causar desemprego; quando investe no crescimento da indústria para o bem-estar e maior conforto das pessoas e quando paga um salário justo.

A renúncia a certos direitos invioláveis, tais como o direito de organizar seu Estado e sua sociedade de forma a promover o desenvolvimento, é inadmissível, diz Requião, lembrando a missão do Congresso Nacional e o seu dever de garantir a soberania, o desenvolvimento e a independência nacional.

Os eixos principais da ação proposta da Frente Parlamentar, segundo o seu manifesto são a defesa da exploração eficiente dos recursos naturais, entre eles o petróleo, para a promoção do desenvolvimento; da construção de uma infraestrutura capaz de promover o desenvolvimento; da contribuição da agricultura para a alimentação do povo e as exportações;  do capital produtivo nacional e de um sistema de crédito que tenha como objetivo seu fortalecimento; do emprego e do salário do trabalhador brasileiro; de um sistema tributário mais justo; de Forças Armadas capazes de defender nossa soberania; de uma política externa independente.

Confiando na força e na importância dessa Frente Parlamentar Mista pela Defesa da Soberania Nacional, auguramos o maior sucesso possível na sua discussão com a população brasileira e com os diferentes setores da sociedade organizada, de modo a se chegar a um referendum, que possa, inclusive, sustar as privatizações em curso e retomar o projeto do Brasil que queremos.

* Doutora em Sociologia, professora aposentada da UFMG/Fafich

2 comentários:

Cláudio Cassimiro Dias disse...

Excelente BLOG! Com muito conteúdo!

ACSS-2011 disse...

Excelente!

Mais uma vez parabéns pela profundidade e propriedade do tema!

Votos de sucesso continuado!!

A SAGA LANDELL MOURA

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