sexta-feira, 29 de abril de 2011

O ingresso de JA na política

Cesar Vanucci *
                                                                                              

“O partido boicotou a candidatura dele.”
(João Melo Freire, ex-presidente do PMDB)


Semeador infatigável de obras, tanto no plano pessoal como empresário, quanto no plano classista como dirigente do Sistema Fiemg, José Alencar Gomes da Silva atraiu, a partir de certo momento de forma intensa as atenções do mundo político. Próceres partidários de diferentes legendas animaram-se a contatá-lo na expectativa de vê-lo assinando ficha de inscrição como militante em suas fileiras.

Os convites para cargos públicos executivos, alguns formulados mesmo antes de sua opção pela legenda do PMDB, foram insistentes e numerosos. Sabe-se com absoluta certeza, que ele recusou apelo insistente para ocupar cargo de Secretário de Estado e, por duas vezes, para desempenhar funções ministeriais no governo federal. Mais adiante, recusou também a oferta de um posto no secretariado municipal de Belo Horizonte, chegando a apontar o nome de um dileto amigo e colaborador para o cargo.

Algumas pessoas, movidas por um sentimento – digamos assim - nebuloso, resvalando entre a admiração e o despeito, diziam a propósito de sua fecunda ação em prol do desenvolvimento econômico e social à frente do Sistema Fiemg, que ele fazia tudo aquilo com o objetivo de ingressar estrondosamente na política. Erro crasso na interpretação dos fatos. O poder empreendedor de JA era um dom natural. Afloraria, exuberantemente, em qualquer circunstância, em qualquer atividade pela qual optasse. O mundo político, como de resto aconteceu com tantos outros segmentos da comunidade, encantou-se com o seu singular estilo de liderança. Com seu perfil de “fazedor do progresso”, de “contemporâneo do futuro”. Próceres partidários passaram a procurá-lo com insistência, na tentativa de persuadi-lo a participar de suas hostes. O deputado Joaquim Melo Freire, então presidente da seção mineira do PMDB, saiu-se bem na empreitada. Suas as palavras que se seguem, anotadas em depoimento à jornalista Eliane Cantanhêde: “Comecei a ter contato com ele nessa fase (gestão de JA na Fiemg). Percebi que, além de empresário vitorioso no setor têxtil, um dos maiores do Brasil, e líder empresarial arrojado, que estava revolucionando a Fiemg, ele tinha também muita sensibilidade política.”

Outro dirigente político, amigo de Alencar de longa data, confiante também na sensibilidade política de Alencar, que a essa mesma época, intensificou os contatos com o presidente do Sistema Fiemg – dou aqui meu testemunho – foi o saudoso Pio Canedo, valoroso integrante da mesma corrente política de Melo Freire. O Presidente do PMDB registra no mesmo depoimento que Alencar demorou a decidir. Arranjava sempre um jeito de “enrolar”, deixando a filiação para mais tarde.

Água mole em pedra dura..., finalmente, chegou a hora da decisão. Alencar topou o convite do PMDB. Assumiu, de cara, a vice-presidência do diretório estadual. Nessa condição, percorreu muito chão, Minas afora, fazendo contatos com correligionários. Por onde transitou deixou fortemente impressa sua marca. Seu nome para candidato a governador brotou de forma espontânea e irresistível. Levado à convenção foi aclamado pelas bases, mas enfrentou a clara hostilidade dos chamados “caciques”. Essa manifesta indisposição se manteve inalterada no curso da campanha. Os candidatos a deputado federal e estadual do PMDB, de um modo geral, revelando-se mais “peemedebistas” do que nunca naquele momento, largaram-no à própria sorte. O trabalho na captação de votos foi conduzido por ele próprio, familiares e amigos. “O partido boicotou a candidatura dele”, sustenta enfaticamente Melo Freire.

JA ficou em terceiro lugar na disputa. O segundo turno teve como concorrentes Helio Costa, primeiro colocado, e Eduardo Azeredo. Ambos disputaram o apoio de Alencar, que resolveu recomendar para o prélio decisivo o nome de Azeredo. Interessante ressaltar que o resultado final, favorecendo Eduardo Azeredo, deixou evidente o peso político pessoal de JA já naquele instante, uma vez que a votação do governador eleito traduziu praticamente o somatório dos sufrágios obtidos por ele e por Alencar na primeira etapa eleitoral.



Caminhada política triunfal


Cesar Vanucci *

“Vou entregar minha terceira idade à política.
Deixar como está não é comigo.”
(José Alencar)

Em 1998, José Alencar foi conclamado a lançar-se candidato ao Senado. As bases voltaram a atropelar a vontade dos próceres partidários, inclinados a garantir apoio a outros nomes. Desta feita, não houve como deter-lhe a caminhada triunfal. Os políticos indicados inicialmente pela cúpula do partido, apontados como favoritos pela mídia, foram se dando conta, pouco a pouco, que uma avassaladora onda de simpatia popular à volta do nome de JA, sobrepujando resistências tenazes dos caciques, acenava estridentemente com a conveniência de se baterem em retirada sob pena de amargar contundente derrota. Alencar saiu candidato na convenção. Teve enorme influência na eleição para governador de seu então correligionário Itamar Franco. Tornou-se o Senador eleito por Minas com o maior número de sufrágios até aquele momento.

Presente à festa comemorativa dos 50 anos de atuação empresarial do senador José Alencar, realizada no Palácio das Artes em Belo Horizonte, Luiz Inácio Lula da Silva empolgou-se com o que viu e ouviu. Saiu dali com a idéia de uma conjugação de forças que viria sacudir as estruturas políticas. Uma conjugação de vontades que iria favorecer a entrada em cena de uma dupla de governantes de idéias progressistas, arrojadas, impregnadas de sentimento nacional e sensibilidade social. Não foi isso mesmo que se viu ao cabo de oito anos de gestão? O “cara” e o “vice-cara” de origens humildes uniram-se em torno de um projeto nacional. Alencar respaldou Lula, ajudando a quebrar resistências e preconceitos ao nome do carismático líder operário. O que adveio de benefícios sociais dessa aliança todo brasileiro, aliás, já está calvo de saber. Repetir é chover no molhado.

Agora, o que a grande maioria não sabe é que JA foi sondado a compor, como Vice e até como candidato à Presidência, chapas pertencentes a outras legendas. Sua lealdade e solidariedade para com o companheiro de lutas e intransigente respeito aos ideais que ambos comungavam, que tão compensadores frutos proporcionaram nas ações administrativas levadas avante, desencorajaram o aprofundamento dos entendimentos propostos pelos paredros das outras agremiações partidárias.

Há uma passagem bastante sugestiva, pouco conhecida na trajetória política de JÁ, que ilustra esplendidamente a irradiante simpatia que o mesmo despertava na militância política, militância essa consciente de sua condição de liderança e capacidade como gestor.

Em 5 de abril de 2008, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), seção de Minas, promoveu em Belo Horizonte, na Assembléia Legislativa, um grande encontro. Muita vibração cívica, público considerável. Centenas de municípios representados. Deputados federais, Deputados estaduais, Prefeitos, Vereadores praticamente de todas as siglas partidárias. O Vice, presidente de honra do Partido, como é plausível imaginar, foi a figura central.

A programação seguiu o rito costumeiro dos eventos no gênero. Mas, de repente, algo inesperado, de forte impacto político, de indiscutível sabor jornalístico, acolhido delirantemente pela assembléia, pipocou no pedaço. Numa sequência de pronunciamentos vibrantes, entrecortados de ovações, doze parlamentares de diferentes partidos, governo e oposição, apontaram, com todas as letras, sem meias palavras, o nome de José Alencar como o do mineiro melhor provido de credenciais para ocupar, em futuro pleito, a Presidência da República.

Testemunha ocular desses fatos, repórter de caminhada extensa, supus que aquele pré-lançamento de candidatura ocuparia, infalivelmente, nas horas subsequentes, considerável espaço nos registros da mídia. Ledo engano de minha parte. O testemunho formidável de milhares, no meio dezenas de profissionais da comunicação, com suas canetas, microfones e câmeras, de nada adiantou. Um silêncio de tumba etrusca baixou sobre a manifestação. Fiquei, a princípio, sem entender bulhufas. Senti-me na pele daquele protagonista de antigo programa na televisão (dirigido pelo saudoso mano Augusto Cesar) que, traduzindo perplexidade face aos incompreensíveis lances do cotidiano, costumava dizer: “Não precisa explicar. Eu só queria entender.”

Um conceito danado de intrigante de Beaumarchais, extraído de “O casamento do fígaro”, voltado para os enigmáticos bastidores da política, introduziu, na ocasião, uma frestazinha de luz no meu apoucado entendimento das coisas. Eis o que diz o renomado dramaturgo francês: “... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora; entender o que não se compreende e não escutar o que se ouve (...) eis toda a política!”

Moral da história: nalguns redutos políticos houve quem se sentisse um tanto quanto perturbado com o que andou rolando naquela convenção e este estado de espírito, pelo visto, contaminou (in)explicavelmente a mídia.



A luta contra os juros altos



“Estamos encabrestados.
Caímos numa armadilha, numa arapuca.”
(Manifestação de JA em 2003)

No exercício da vida pública, José Alencar repetiu centenas de vezes, para platéias receptivas de todas as categorias sociais, com o intuito de ser escutado, naquele estilo didático e vibrante todo seu, sensatas considerações sobre os caminhos brasileiros a serem trilhados na rota do desenvolvimento econômico e social. Sabia exprimir com certeira precisão o que a sociedade aspira. Interpretava magistralmente o sentimento das ruas com idéias como estas, transmitidas numa comemoração do “Dia da Indústria”: “Sempre condenamos os elevados preços de obras públicas e de compras do Estado. Os negociadores são, historicamente, generosos, ainda que probos e bem-intencionados. O mesmo acontece nas negociações brasileiras com a banca credora nacional e internacional e com essa coisa chamada mercado.”

Em 2003, já ocupando a Vice-Presidência da República, voltou a chamar a atenção de todos quanto à capacidade nacional de honrar suas contas. As observações estavam calcadas, na verdade, em dados preocupantes. “Temo que possamos chegar a um momento em que tais contas fujam de nosso controle, infladas pelas taxas de juros, em dimensão crescente, como vem acontecendo.” Pediu que as atenções ficassem focadas no que classificou como o verdadeiro “risco Brasil”, traduzido em números emblemáticos. Os juros – ressaltou – alcançaram a cifra de 44.9 bilhões de reais no primeiro semestre deste ano, contra 23.5 bilhões em igual período de 2002 e 17.8 bilhões no primeiro trimestre de 2001. Com base no acontecido nos doze meses de 2001 e 2002, JA projetou, então, por analogia, o que poderia vir a suceder em 2003. Em 2001, os juros somaram 86.4 bilhões, valor equivalente a 4.8 vezes os gastos verificados no primeiro trimestre do mesmo exercício. O valor foi outra vez multiplicado por 4.8 em 2002, chegando-se aos 114 bilhões de reais nos dispêndios efetivados. Conclusão da análise, emitida por um conhecedor experimentado da realidade econômica: “Gastamos de juros, em janeiro e fevereiro de 2003, 44.8 bilhões de reais que, multiplicados por 4.8, a seguir os exemplos de 2001 e 2002, nos levarão a alcançar, no final do ano, somente em despesas com juros sobre a dívida pública brasileira, a fabulosa soma de nada menos que 215 bilhões de reais, quase o dobro dos gastos verificados em 2002, um terço da carga tributaria nacional.”

José Alencar chegou a admitir, à época deste pronunciamento: estamos encabrestados. Caímos numa armadilha, numa arapuca. Mas apontou saídas. Não saídas heterodoxas, inadequadas para o caso. Apostou, uma vez mais, apoderado da contagiante esperança que sempre norteou em tudo sua postura diante da vida, na saída clássica, na solução óbvia para a correção de rumos: trabalho, muito trabalho, com ênfase para o aumento da produção e crescimento do comércio externo. “Precisamos colocar as atividades meio a serviço da produção, da geração de empregos, objetivando uma melhor distribuição da renda nacional.” Resumiu a proposta num receituário de fácil compreensão: “Superávit de contas externas pelo incremento das exportações, substituição competitiva das importações para propiciar a queda ou até mesmo a eliminação do chamado “risco Brasil”, com a consequente redução da taxa de juros, abrindo espaço para os investimentos em atividades produtivas, gerando emprego e distribuição da renda nacional, para fazer justiça aos que trabalham e constroem a grandeza do País.”

Alertas desse gênero, ele os formulou, centenas de vezes, numa pregação dir-se-á apostólica, ininterrupta, carregada de brasilidade, timbrada pelo bom senso, conhecimento de causa e lucidez nas idéias.

JA inspirava-nos, a todos nós, a manter acesa a esperança no Brasil. Num Brasil melhor, que ele, de alguma maneira, tanto dentro quanto fora do governo, ajudou afinal de contas a construir.

Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Um comentário:

LR disse...

Você é realmente um ser humano incrível. Sem palavras para seus textos, para seu blog.. um milhão de palavras que não sei dizer.
parabéns!
LR

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