sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

 

Uma encrenca chamada Ucrânia

 

Cesar Vanucci

 

“A geopolítica é desprovida de escrúpulos”.

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

O jogo das grandes potências, sempre soturno, por hegemonias no palco político internacional, acionado por astuciosa diplomacia com intuitos geopolíticos despidos de escrúpulo, abriu recentemente um novo flanco de forte tensão no costumeiramente belicista continente europeu. Americanos, aliados e russos estranharam-se mais outra vez, botando pra fora retórica façanhuda acompanhada de movimentação de tropas militares. 

A Ucrânia é o cerne da questão. País limítrofe da Rússia, ex-integrante do bloco da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), desmoronada com a “glasnost” e a “perestroika” de Mikhail Gorbachev (ganhador de um Nobel da paz pela proeza), enfrenta uma encruzilhada em seus rumos políticos. No plano interno mostram-se visíveis os sinais de desavenças entre grupos desejosos de que se desapegue da órbita de influência russa e grupos que pensam justamente o contrário. 

As acesas divergências já levaram, em passado recente, à anexação pela Rússia da região da Crimeia, o que provocou situação de enorme desconforto e inquietante preocupação no seio da comunidade internacional. 

Neste momento Kiev demonstra indisfarçável simpatia pela perspectiva de a Ucrânia passar a compor o chamado Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O aludido grupamento de países europeus, vários deles antigos aliados da Rússia, contam com sólido apoio logístico militar e econômico da Casa Branca. É apontado, nas estratégias políticas e militares, como sistema defensivo instituído com o intuito de confrontar eventual ameaça expansionista da Rússia. Chegou-se aí a impasse que tem gerado manchetes estrondosas e ruídos incômodos de cunho beligerante. A Rússia, ao mesmo tempo que promove exercícios militares de envergadura ao longo de sua fronteira com a Ucrânia e da fronteira da Bielorrússia, sua aliada, com esse mesmo país (Ucrânia) brada grosso não concordar, definitivamente, com essa provável adesão ucraniana à OTAN. Na contrapartida, utilizando igualmente palavras fortes, os Estados Unidos acusam a Rússia de provocações, que serão rebatidas com veemência, se necessário, e de tentar imiscuir-se em assunto de política interna de um país soberano. 

As chancelarias de países envolvidos direta e indiretamente na incandescente encrenca trabalham ininterruptamente com alegada disposição de reduzir a troca de desaforos e de ampliar o diálogo propositivo. As negociações em curso introduzem toda hora propostas de intermediação de países de certo modo distanciados do foco das perturbações, mas que, de qualquer forma estarão sujeitos no caso de chuvas e trovoadas mais impactantes a verem afetados seus interesses. 

A China, que vem realizando, de algum tempo para cá, constantes e significativos exercícios militares conjugados com a Rússia, entrou outro dia, de modo diplomático polido, na azeda discussão do caso. Pediu moderação das partes, manifestando seu apoio ao posicionamento do Kremlin quando rechaça a hipótese da inclusão da Ucrânia no bloco da OTAN. 

Um outro aspecto a considerar nessa enrascada global é uma arma temível, invisível pertencente aos “arsenais” russos. Analistas qualificados lembram, a todo instante, que o gás natural utilizado em alta escala em boa parte da Europa, nos lares e nos complexos industriais, é fornecido pela Rússia, possuidora das maiores reservas mundiais do produto. No caso de agravamento da situação os russos poderão interromper o fornecimento pegando traumaticamente os europeus em pleno inverno. 

Eta mundo velho de guerra! Parece haver perdido inteiramente a consciência das coisas. A conexão com sua humanidade. Não se emenda, hora alguma, numa arrogância descomedida nem quando confronta acumulação de extrema dramaticidade, como as vividas no instante presente de extremada angústia, ligadas inapelavelmente à própria sobrevivência.

 [CF1] go

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