sexta-feira, 27 de agosto de 2021

 

O retorno dos talibãs

 

Cesar Vanucci

 

“O talibanismo é fonte matricial do terrorismo.”

(Domingos Justino Pinto, educador)


Olha eles aí de volta, com seu arsenal de horrores! As imagens de pânico e desespero, mostradas pela televisão no aeroporto de Cabul, notadamente as do avião cargueiro transportando quase setecentas pessoas, homens, mulheres e crianças amontoadas, apenas com a roupa do corpo, para locais que lhes assegure refúgio contra iminentes atrocidades, são de um simbolismo terrificante.

Pelo que se pode deduzir do noticiário nosso de cada dia, os talibãs retornam ao palco político internacional tão ou até mais fortalecidos do que no período correspondente ao final dos anos 90, em que comandaram, com extrema ferocidade, os destinos do Afeganistão. Reintroduzirão, com certeira certeza, no cotidiano do maltratado território, seus tenebrosos esquemas de conspiração contra a vida.

Num relâmpago de tempo, tão logo ocorreu a retirada do grosso das tropas de ocupação estadunidenses, os terroristas, que se dizem islâmicos, reinterpretando a seu bel prazer, com cruel fanatismo, as leis do Alcorão, livro sagrado de multidões religiosas que vivem em sintonia com os valores da convivência pacífica e fraternal, se reapoderaram das posições de comando do país. Conseguiram, espantosamente, num abrir e fechar d’olhos neutralizar a resistência das forças militares, compostas de 300 mil soldados, que se presumia leais ao governo central, apoiado pelos Estados Unidos. A Casa Branca laborou num estrondoso equívoco ao imaginar que as tropas afegãs, treinadas por especialistas do Pentágono, estivessem suficientemente aptas a enfrentar alguma eventual insurreição dos remanescentes dos grupos tribais subordinados, no passado, ao sinistro Osama Bin Laden. As estratégias montadas no sentido de que o exército afegão mantivesse a paz e a ordem na conturbada região fracassaram inteiramente.

A ocupação americana do Afeganistão durou duas décadas. Foi determinada pouco depois do atentado às “torres gêmeas”, em Nova Iorque. O atentado, como se recorda, foi praticado por fanáticos da Al-Qaeda, terroristas pertencentes às milícias talibanistas, lideradas por Bin Laden, um príncipe saudita que, num primeiro instante de seu ativismo político, se aliou aos Estados Unidos na luta para expulsar os russos dos domínios afegãos. Noutra etapa da história Laden se transformou num rancoroso inimigo dos antigos aliados. O “11 de setembro” levou os Estados Unidos a deflagrarem uma operação gigantesca de combate aos talibãs. A ocupação do Afeganistão pelas forças armadas dos Estados Unidos teve por objetivo a eliminação e captura dos principais dirigentes talibãs. Paralelamente a isso adotaram-se medidas com o intento de refrear a impetuosidade talibanista no desrespeito contumaz aos direitos fundamentais, sobretudo no que concerne às virulentas restrições à liberdade das mulheres, impedidas de acesso a prerrogativas mínimas da convivência comunitária.

Tudo isto posto ajuda a explicar a razão dos receios, mais do que isso, do pavor que se apoderou de parcelas ponderáveis da sociedade afegã diante do retorno dos talibãs ao poder, a palavra de moderação dos porta-vozes do grupo em seu primeiro contato com representantes da mídia, para falar de seus planos de ação, é recebida com forte suspeição pela comunidade internacional, com carradas de razão. O fundamentalismo talibã rejeita contundentemente todos os preceitos e conceitos de vida de quaisquer filosofias religiosas, inclusive a muçulmana, que exaltem a dignidade das pessoas e que bebam inspiração nas lições humanísticas e nas orientações espirituais. O tratamento que dispensam aos valores éticos, morais, jurídicos, que compõem o processo da evolução civilizatória, são por eles negados sistematicamente, para dar lugar a violências inauditas, a atos terroristas que enchem o mundo de sobressalto.

Esse mundo do bom Deus, onde o tinhoso costuma implantar alguns enclaves, adiciona às suas perturbações e aflições um ingrediente explosivo a mais, com os acontecimentos narrados.

 

Nenhum comentário:

A SAGA LANDELL MOURA

  Lenda viva do Leonismo                                                                                                                 C...