sexta-feira, 21 de setembro de 2018


Eleição sinaliza esperança


Cesar Vanucci

“Tirar luz da fumaça”.
(Horácio (65-8, a.C.)

Parodiando personagem marcante de uma novela de grande sucesso, exibida anos atrás em horário nobre, o tempo “ruge” e a Sapucaí eleitoral está logo ali... Mesmo sabedores (recorrendo a outra fala televisiva famosa) que a situação “está abracadabrante”, é preciso saber conservar inabalável a fé na democracia, até em momentos em que a descrença esteja grassando solta. Eleição é o instrumento que o regime democrático – um regime reconhecidamente imperfeito, mas ainda assim, dentre as invenções do ser humano, o único em condições de salvaguardar a dignidade na convivência comunitária – coloca nas mãos dos cidadãos probos para que consigam fazer prosperar bem intencionadas tentativas de se libertarem de enrascadas com potencial de estragos considerável.
Agindo com bom senso e serenidade, esforçando-se por “contaminar” do mesmo salutar propósito as pessoas ao redor – seguros de que a serenidade de Deus mostra-se sempre presente nas coisas positivas que construímos juntos – haveremos, como não? de “tirar luz da fumaça”, como na proposta poética milenar de Horácio. Identificando no sentimento nacional uma poderosa egrégora, esperançosos de que a manifestação majoritária das urnas venha a apontar o caminho correto para saída da crise, expressamos convicção de que os anseios da sociedade brasileira colocam-se em sintonia com os valores humanísticos que conferem grandeza à vida. Esses anseios gravitam em torno da exigência de postura ética na atividade pública, de combate sem tréguas a todas as modalidades de corrupção, da preservação do patrimônio das riquezas nacionais. Cabe-nos assim aguardar, confiantes, que os resultados do próximo pleito, refletindo a soberana vontade popular, possam vir a sinalizar, se não um ambicionável jato luminoso, um candeeiro com suficiente claridade para descortinar rumos, abrir clareiras, desfazendo essa nuvem enfumaçada que tolda os horizontes e tolhe os movimentos do país em direção ao futuro.
É óbvio que os desafios e obstáculos a serem enfrentados pelos autênticos democratas perturbam em muito. Comentando o artigo “Democracia apunhalada”, de dias atrás, distintos leitores lembram que a crônica política brasileira recente acusa o registro de deploráveis atos de violência, além do chocante incidente ocorrido em Juiz de Fora. O mais impactante desses episódios de feroz e odienta exaltação diz respeito aos assassinatos, no Rio de Janeiro, da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson. Um outro, afortunadamente sem vítimas, envolveu aquela agressão a tiros a ônibus que transportava no Paraná militantes de uma agremiação partidária. Casos ainda sem solução a vista, com forte propensão a jamais serem deslindados, ambos os dois documentam, igualmente, as situações de paranoia que acabam resultando da pregação sistemática da intolerância, do ódio e da violência numa campanha política, como consequência do desvario de minorias radicais de matizes variados. Todos que temos olhos pra ver e ouvidos para escutar, como no aconselhamento evangélico, damo-nos conta, estarrecidos, da ininterrupta ofensiva de ataques desabridos promovida, notadamente nas redes sociais, por grupelhos intoxicados de preconceito, intolerância, racismo, fanatice ideológica. Minoria ruidosa, oportunista e fisiológica a serviço da beligerância, esse pessoal lança mão de expedientes os mais torpes e escusos para alvejar pessoas e situações não alinhadas com seu modo obscurantista de pensar e de ver as coisas do mundo.
Relacionamos abaixo alguns poucos lances das muitas absurdidades rotineiramente cometidas. Não é verdade de que hajam sido recolhidos indícios de participação de adversários políticos no revoltante atentado de Juiz de Fora contra um candidato à presidência. Não é verdade que o tresloucado indivíduo que cometeu o atentado, fundamentalista religioso ao que se apurou, seja assessor de adversários da vítima. Nem, tampouco, corresponde à realidade dos fatos que o candidato alvo do atentado haja simulado tudo para ganhar popularidade. Também é falsa a divulgação copiosa que se faz sobre o apoio do padre Marcelo e do jornalista Arnaldo Jabor a um dos disputantes da Presidência. De outra parte, é completamente fora de propósito a informação, amplamente propalada, de que, lá do outro plano existencial, Chico Xavier, uma unanimidade no apreço popular, haja transmitido mensagem, via psicografia captada por sensitivos daqui deste nosso mundo, declarando apoio a algum nome como “salvador da pátria”, “defensor da moral e dos bons costumes”, e criticando a ação de adversários que teriam “parte com o demo”... Outra falsidade, espalhada com o objetivo de alarmar e confundir, coloca sob suspeição a apuração, pelo TSE, das urnas eletrônicas, sob a pérfida alegação de que existe um “plano B” para fraudar os resultados.
Essas sugestivas amostras postas a circular derivam de um caldo de cultura mórbido e rançoso, de inequívocas conotações antidemocráticas. Aos democratas autênticos impõe-se o indeclinável dever de separar muito bem o trigo do joio. Repelir, nas informações veiculadas, a caudal de sandices. E fixar o máximo de atenção – aí, sim – nas propostas, nas ideias, nos programas, nos gestos, no comportamento dos concorrentes aos postos eletivos da disputa eleitoral. Esta a maneira adequada de favorecer a chegada ao poder dos verdadeiramente capacitados, intelectualmente, tecnicamente, moralmente, a exercê-lo.



A confusa hora política


Cesar Vanucci

“... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora...”
(Beaumarchais, dramaturgo anotando um preceito político)

Como a temática política galvaniza no momento as atenções, achamos por bem reproduzir, linhas abaixo, as intrigantes definições sobre “política” de célebre dramaturgo francês. Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, considerado por biógrafos figura emblemática do “Século das Luzes” (XVIII), foi, aliás, muito mais que um brilhante dramaturgo. Escritor, músico, poeta, instrumentista, professor, inventor, homem de negócios que amealhou fortuna, exerceu também, vivenciando ascensão social fulminante, a carreira diplomática.

Participou de missões secretas a serviço do governo francês, garantindo apoio relevante à causa da insurreição das colônias inglesas plantadas na América. Insurreição que acabou resultando, como sabido, na constituição dos Estados Unidos. Duas obras de sua autoria ofereceram base para libretos de óperas de Rossini e Mozart: “O barbeiro de Sevilha” e “Bodas do fígaro”.

Seus ditos sobre política soam atuais, apesar da longa distância de tempo percorrida desde que proferidos. Imaginamos que o leitor venha a concordar com tal observação. Cuidemos, agora, de ouvir, com atenção, Beaumarchais: “... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora; entender o que não se compreende e não escutar o que se ouve; sobretudo, poder acima de suas forças; ter frequentemente como grande segredo ou esconder que não se tem segredos”; (...) “parecer profundo quando se é apenas, como se diz, oco e vazio; desempenhar bem ou mal um papel”; (...) “procurar enobrecer a pobreza dos meios pela importância dos objetivos: eis toda a política (...)”

Finda a leitura da fala de Beaumarchais, indagamo-nos sobre se não daria pra enquadrar nos conceitos alinhados certas situações, pra lá de desconcertantes, observadas na campanha eleitoral em curso no pedaço brasileiro. Como, por exemplo, as que são na sequência narradas.

Provido de forte carisma e desfrutando de indiscutível popularidade, Lula é uma referência maiúscula no processo, ainda que encarcerado. Idolatrado por um lado, execrado por outro, terá sem sombra de dúvida participação decisiva nos resultados da pugna eleitoral. Adeptos e simpatizantes embalam a expectativa de que sua interferência possa ser altamente benéfica. A ponto até de concederem mais realce, na propaganda divulgada à sua figura, do que aos programas e propostas apresentados. Em campos opostos, ocorre fenômeno bem diferenciado. A turma lança mão de malabarismos retóricos, desvencilhando-se da mais tênue associação dos candidatos com os dirigentes das correntes partidárias a que se filiam. Pessoas caídas em desgraça, mas indoutrodia ainda na crista da onda. Casos de Temer e de Aécio, celebrados em verso e prosa, bem recentemente, vistos por muitos como condutores de nova e promissora era no processo de evolução política e administrativa.

O MDB, partido que pratrazmente foi do doutor Ulysses, com magistral atuação no processo de restauração democrática, dá provas de se debater com um inesgotável conflito de identidade. Transformou-se, como já anotou alguém, numa “Arca de Noé”. Só que sem Noé por perto. Dividido, subdividido, entregue ao jogo de sibilinas conveniências, coloca-se numa hora a favor, noutra hora contra, noutras, ainda, num surto psicodélico, nem contra, nem a favor. Em seus controversos posicionamentos, deparamo-nos com a inacreditável vinculação de candidatos seus, inclusive ao cargo de Presidente, à imagem de um adversário até pouco tempo atrás virulentamente criticado. E, de outra parte, com a manifesta omissão, igualmente inesperada, da ligação umbilical dos candidatos com os governantes partidários. Nomes de proa da agremiação que exerceram postos ministeriais na segunda metade do mandato presidencial, ou seja, após o impedimento da antiga titular, fazem, também, questão fechada, nas campanhas eletivas para postos no Executivo ou Legislativo, de se dissociarem do correligionário ou aliado declarado, que presentemente comanda os destinos administrativos do país.

As singularidades detectadas nessa campanha carregada de confusão remetem-nos, agora, à série de entrevistas que comunicadores globais famosos promoveram com disputantes ao cargo de Presidente. Na verdade, o que se viu foi muito mais um severo interrogatório, do que propriamente uma entrevista. Os formuladores das perguntas açambarcaram, com autossuficiência inquisitorial, tempo precioso das respostas. Não deram nenhuma chance aos interlocutores convidados de exporem seus projetos. Nalguns momentos, sobretudo quando ouviram Bolsonaro e Haddad, sentiram-se um tanto quanto embaraçados diante de réplicas inesperadas.

Seja enfatizado, nesta linha de raciocínio, a disseminação, em proporções inimagináveis, de falsidades com aparência de verdade. São lançadas nas redes e mesmo em depoimentos públicos por alguns candidatos e por seus porta-vozes. Não há como não classificar negativamente esse protagonismo. Elementos comprometidos com a demência das palavras, com fanatice, com discriminações e pregação do ódio, deixam claramente evidenciadas suas inclinações antidemocráticas.


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