sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A arte lírica e 
popular do “Caffeine”

Cesar Vanucci

“É na arte que a gente se ultrapassa.”
(Simone de Beauvoir)

Quem viu, não teve como não se render incondicionalmente ao fascínio do espetáculo. Quem não viu, passou batido. Perdeu a chance de se deleitar com uma apresentação musical de raro esplendor. Não sei de muitas realizações do gênero, em palcos brasileiros ao longo dos anos, que se lhe possam equiparar.

O “Caffeine Trio na Era do Rádio”, encenado no Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, foi uma manifestação cultural arrebatante. Estrelada por conjunto vocal de coruscante brilho, provido de atributos abundantes para despertar encantamento, em qualquer lugar, em plateias ávidas por exibições artísticas requintadas.

O “Caffeine Trio” é um conjunto de cantoras com formação lírica. O grupo tem pleno domínio ainda, ostentando estilo todo seu, sublinhado por ricas modulações vocais, das técnicas brejeiras de interpretação da MPB. A moldura estética do show constitui outro ponto forte do trabalho artístico oferecido pelas esplêndidas intérpretes Carolina Rennó, Renata Vanucci e Silvia Klein. Brindando os espectadores com saboroso desfile de canções, as jovens, talentosas e belas cantoras criaram no teatro uma atmosfera de enfeitiçante magia, que projeta, ao mesmo tempo, refinamento erudito e exuberante alegria da autêntica arte popular. Esbanjando charme e com movimentação cênica que prende a atenção o tempo todo, o Trio consolida de vez seu prestígio e conceito no cenário artístico. Promovendo entretenimento de elevada qualidade, com tempero, cores e vibração bem brasileiros, revela-se apto a lançar audições fadadas a sucesso em qualquer parte. Nada a estranhar, por conseguinte, quanto às informações sobre o êxito alcançado em turnê empreendida, meses atrás, por cidades da Alemanha.

Relembrando os anos de ouro do rádio, o “Caffeine Trio” contou, nesse espetáculo patrocinado pelo Banco do Brasil, com o acompanhamento de excelente time de instrumentistas, integrado por Cláudio Faria, Guilherme Vincens, Pedro Cliveralli e Sérgio Rabelo. Valendo-se de primorosos arranjos vocais bolados por Avelar Júnior, dividiu o palco, por instantes, em diferentes dias, no desdobramento da série de shows, com alguns personagens de presença realçante no panorama da música popular brasileira. Maria Alcina, Arrigo Barnabé, Elza Soares e Alaíde Costa reavivaram, com a participação das jovens intérpretes, a memória afetiva musical das pessoas, em feéricas e emocionantes apresentações.

Pelo que se sabe, os clássicos do repertório da MPB apresentados pelo “Caffeine” nas audições no Centro Cultural do BB serão lançados em DVD e CD. É muito bom que isso aconteça. Os apreciadores de música passarão a dispor de interpretações magistrais, diria mesmo, antológicas, de algumas canções inesquecíveis guardadas no baú da memória.

Não resisto, por derradeiro, à tentação de fazer aqui ligeira associação de ideias do espetáculo citado com um musical anos atrás levado ao ar pela Globo, que valeu o primeiro “Emmy” conquistado por um artista brasileiro, meu saudoso mano Augusto Cesar Vanucci, então diretor da linha de shows da emissora. O musical em questão, “Arca de Noé – Vinicius para criança”, possuía um irresistível toque de fantasia infantil que, num que outro instante, cheguei a vislumbrar no “Caffeine Trio na Era do Rádio”. Mais um ponto para as meninas que tão bem sabem mesclar arte erudita e arte popular!

  
Todo mundo

Cesar Vanucci

“Vai ser um presente de Natal!”
(Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, anunciando
livro em que promete contar coisas sobre os bastidores políticos)


“Todo mundo”: esta a enfática resposta dada por Eduardo Cunha à pergunta de um repórter sobre quais seriam os personagens de destaque do livro que prometeu lançar contendo explosivas revelações sobre políticos brasileiros. A levar em conta numerosos episódios do passado, em que figurou como protagonista, bem como os métodos de ação costumeiramente empregados pelo ex-todo poderoso presidente da Câmara dos Deputados em sua agitada carreira, não constitui tarefa difícil profetizar que vem vindo chumbo grosso por aí...


Quando a metralhadora giratória (calibre ponto cem) desse cara entupido de ressentimentos, carregando volumosa carga de queixas quanto às “traições” de que teria sido “vítima inocente”, for acionada pra valer, vai ter “corre-corre” danado em tudo quanto é reduto partidário. Quem se aliou a ele e às suas maquiavélicas propostas de controle do poder – e, ao que parece, foi quase “todo mundo” – passará por maus pedaços. Vai ter que engolir, a contragosto, o pão que o tinhoso amassou. Recorrendo-se a uma expressão em voga no passado, as denúncias alusivas a malfeitos supostamente cometidos por integrantes das patotas frequentadas pelos delatores Delcidio Amaral e Sérgio Machado serão reduzidas, certeiramente, a “café pequeno” no momento em que forem disparados os “obuses”, com fatos verazes ou não – quem saberá dizer com certeza? – prometidos por esse “astucioso” estrategista de bastidores. Um indivíduo em que mundão de gente depositou a mais completa e irrestrita confiança, deixando-se emaranhar em pactos e composições nem sempre muito católicos...

Notícias chegadas constantemente de Brasília dão conta de um clima de apreensão bastante pronunciado quanto ao que possa ainda vir a pintar no pedaço, em função de atos e manobras articulados por Cunha. As preocupações não envolvem apenas numerosos integrantes da sigla partidária a que ele pertence. Até mesmo pela circunstância de o parlamentar recém-cassado sempre se considerar, sendo assim também reconhecido fora de suas hostes, um prócer extra partidário, um líder predestinado a voos mais altos em seu itinerário na vida pública. Notabilizou-se pela “competência”, ao “fazer amigos e influenciar pessoas”. Revelou-se sempre solícito no apoio assegurado tanto a gregos, quanto a troianos. Pode-se mesmo dizer, em tom xistoso, que se especializou, prevalecendo-se dos privilégios do acesso fácil às fontes arrecadadoras de recursos de empreiteiras inidôneas, em “praticar o bem, sem, desprendidamente, olhar a quem...”

No inevitável acerto de contas a ser firmado com a Justiça, admitida a hipótese de querer livrar a cara, ou amenizar a culpa no cartório, ele acabará inevitavelmente por botar a “boca no trombone”. Já deixou manifesto tal propósito em vociferações repletas de mágoa despejadas no ar. Nelas, alvejou companheiros que, em seu modo de entender, deixaram-no ao desabrigo no instante crucial do ocaso parlamentar. “Houve muita hipocrisia. Não há razão para eu manter convivência com um governo que me cassou”, sustenta, com fervor, acrescentando que “a guerra está só começando”. Parte daí para anunciar que no livro serão relatados pormenores “das reuniões, dos diálogos, tudo (sobre o processo de impeachment), doa a quem doer”. O lançamento da publicação está previsto para o fim do ano. “Vai ser um presente de Natal!” assegura, deixando subentendido que o “brinde” contemplará “todo mundo”. Não carece maior esforço de imaginação estimar que Eduardo Cunha delate, monte versões, enrede um bocado de viventes com relatos reais ou (quem poderá garantir?) fantasiosos, alvejando, além de excelências já carimbadas nas investigações sobre mutretas e maracutaias, outros cidadãos por agora mantidos acima de suspeita...

Esperar pra conferir.


Adeus ao 
Jornalista Fabiano Fidelis

Cesar Vanucci

“Minha morte nasceu, quando eu nasci.”
(Mário Quintana, poeta)


Socorre-me a memória velha de guerra para anotar que o fraternal relacionamento mantido com o saudoso Fabiano de Freitas Fidelis remonta ao final dos anos 50. Começou na redação do “Correio Católico” (“A pena é mais poderosa que a espada”), um diário destemido, com mais de dez mil assinantes, quantitativo extraordinário para a época. Esse jornal viveu coerentemente o slogan adotado. Concorreu significativamente para a formação de uma consciência comunitária de crítica social aprimorada na vida regional. A redação, bem como a oficina de impressão, funcionava em prédio contiguo à catedral da Arquidiocese, local que hoje abriga uma unidade educacional.

Sempre que vinha de Brasília para visitar parentes e amigos em Uberaba, Fabiano dava uma chegadinha no “Correio” para dois dedos de prosa com os colegas de profissão. O intercâmbio de ideias girava em torno de coisas relacionadas com a atividade que tanto fascínio despertou, vida em fora, tanto no seu, como no meu espírito: o jornalismo. Certa feita, ele presenteou-me com uma apostila sobre publicidade e relações públicas. Dela extraí valiosos subsídios para aulas ministradas, como titular das cadeiras de Técnica de Redação e Publicidade, na Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomaz de Aquino, das Irmãs Dominicanas. Essa passagem permite lembrar-me que as valorosas educadoras foram pioneiras em Minas Gerais na implantação de curso universitário na área da Comunicação.

Deu pra perceber em Fabiano, desde aquela época, inteligência vivaz, capacidade criativa e arrojo empreendedor. Tais atributos afloravam de forma exuberante no que dizia, divulgava e fazia. Ele botava nas palavras e projetos de vida, como ficou caracterizado em fecunda trajetória profissional, ardor, vibração e combatividade característicos daquelas levas precursoras de brasileiros que assumiram a empreitada do povoamento de Brasília, nos primeiros tempos da estupenda e épica proeza histórica nascida dos sonhos do incomparável estadista JK.

Isso aí. O chamado “espírito de Brasília” palpitava nas ações e reações de Fidelis. E tanto isso é verdade que ele, em certo momento, abrindo veredas novas na caminhada humana e profissional, já exercendo relevantes encargos na esfera da comunicação social brasiliense, resolveu bancar a circulação de dois jornais na capital da República. Essa iniciativa marcou o ponto de partida de sua ação empresarial, desdobrada, anos após, na fundação do vibrante “Jornal de Uberaba”, onde Fabiano pontificou também com iniciativas vanguardeiras. Ele concebeu jornal com a cara da cidade que lhe empresta o nome. Adaptando um conceito do dramaturgo Arthur Miller, “um jornal onde a cidade fala com seus botões”. Tudo isso ancorado em sua crença na nobreza da profissão e no talento, tato e vivacidade que soube imprimir nas tarefas abraçadas.

Fabiano teve, como sabido, participação ativa na vida comunitária. Deixou suas pegadas nela impressas. Exerceu galhardamente a missão que lhe tocou na peregrinação pela pátria terrena. Valho-me de uma explicação de Richard Bach sobre o sentido oculto da caminhada da existência como fecho deste comentário, uma singela mensagem de saudade ao companheiro que partiu antes de nós: “Existe um jeito simples de saber se está cumprida a missão de alguém. Se está vivo, não está.”


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