sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Descomunal maracutaia

 Cesar Vanucci *

 “Não houve propriamente uma disputa
 licitatória, mas uma atividade de consorciamento.”
(Parecer do Tribunal de Contas de São Paulo sobre o “escândalo no metrô”)

“O escândalo no metrô”, nome pelo qual ficou conhecida a descomunal maracutaia que atravessou três administrações do governo tucano paulista, já tende, a esta altura, à medida que as investigações avançam e a opinião pública vai se inteirando das proporções da baita corrupção praticada, a ofuscar o famoso “mensalão” julgado pelo STF.

Evidências esmagadoras, trazidas a lume inicialmente pela “IstoÉ” e “Carta Capital”, depois, a princípio com alguma relutância, compartilhadas por outros órgãos da grande mídia, dão conta de que no maior Estado da Federação montou-se um esquema de fraude e achaques que carreou somas fabulosas para contas bancárias em paraísos fiscais de muitos cidadãos “acima de qualquer suspeita”.

 A operação criminosa decorreu de um conluio entre políticos ligados à administração pública paulista, de um lado, e, de outro lado, executivos de empresas multinacionais articuladas em cartel. Por uma série de circunstâncias, a alta direção de uma das empresas sentiu-se compelida a tornar do conhecimento público todo um sofisticado esquema de fraudes envolvendo propinas e superfaturamento em contratos firmados no setor de transportes sobre trilhos.

Apenas em seis dos contratos firmados pelo cartel o superfaturamento detectado alcançou cifra próxima de meio bilhão de reais. A documentação relativa ao escândalo, obtida aqui e no exterior, já está em poder do Ministério da Justiça. Os sobrepreços apurados foram em média de 30 por cento. O destino final dos valores correspondentes às comissões atribuídas aos “parceiros” das firmas contratadas para os serviços foi, em todos os casos, a cúpula das estatais do governo bandeirante engajadas nas negociações de implantação das linhas do metrô e políticos ligados à administração pessedebista.

A denúncia a respeito do escândalo deixa claro que o superfaturamento nos contratos de serviços e ofertas de produtos às estatais paulistanas, Metrô e Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), supera longe os índices médios calculados internacionalmente em razão da prática desse crime. Estimativas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE – costumam apontar, por exemplo, segundo a “IstoÉ”, que a formação de cartéis pode resultar, via de regra, em prejuízos da ordem de 10 a 20 por cento aos cofres públicos. No caso dos 16 contratos firmados em São Paulo, a combinação de preços e direcionamentos mafiosos promovidos pelo esquema descoberto levou a um espantoso rombo de 30 por cento.

Agravando tremendamente a situação, embora o considerável esforço das autoridades bandeirantes em ocultar o fato, uma ocorrência caracterizada como “queima de arquivo” chegou também recentemente ao conhecimento da opinião pública interessada no deslindamento da escabrosa história. Imenso galpão localizado em Itu, onde ficavam armazenados valiosos arquivos (coincidentemente de três décadas) do metrô foi reduzido inteiramente a cinzas, em 2012. Homens encapuzados e armados, depois de renderem os vigias, espalharam gasolina e atearam fogo no imóvel. Nada sobrou. De acordo com laudo policial, o incêndio não teria passado de um ato de vandalismo sem qualquer motivação. Ocorre, entretanto, que a papelada destruída era composta de cópias de contratos, pareceres técnicos, cópias de processos de tramitação, propostas, empenhos, relatórios de acompanhamento dos serviços correspondentes ao metrô executados de 1968 até 2009. O incidente ganhou especial relevância com as investigações em andamento, reveladoras, como já salientado, de fabulosa maracutaia ocorrida no sistema de transporte sobre rodas. Escândalo gerador de um propinoduto milionário, que está dando o que falar na imprensa, no ambiente político e nas esferas judicial e policial.
 

A carta do caloteiro

 
“Os outros credores ficam para o mês seguinte...”
(Do autor da carta do caloteiro)

 A “Era da Informação” aí está e a Internet é o seu arauto. Frequentado por frenéticas multidões, o fascinante sistema tenta saciar a infinita sede de conhecimento do ser humano. Abre para todos as comportas de um registro geral de colossais proporções, onde se acha alinhada toda sorte de assuntos possíveis, imagináveis. E, falar verdade, para muitos outros assuntos impossíveis e inimagináveis.

A face jocosa dos textos disponíveis alimenta intercâmbio bastante intenso na rede de usuários. São casos engraçados. Frases espirituosas. Observações irônicas e críticas mordazes. É a gozação inteligente. Tudo merece difusão em ritmo vertiginoso, nessa navegação desenvolta, de um sítio para outro, nas ondas da Internet, em que se acham entusiasticamente engajados milhões de internautas.

Não é de causar surpresa, por conseguinte, que volta e meia caia-nos nas mãos, via correio eletrônico, uma historieta bem humorada, recolhida por alguém em lugar incerto e não sabido. Da maioria das historietas não se fica conhecendo sequer o autor. O que não impede, absolutamente, sejam elas objeto de intensa divulgação. Como acontece, aliás, também, no caso de escritos de autores de nossa especial predileção.

A “Carta do caloteiro”, entregue neste momento à apreciação dos leitores, foi extraída de um desses www.com.br da vida. No preâmbulo faz-se questão de sublinhar tratar-se de correspondência engraçada publicada na “Folha” e atribuída a um tremendo cara de pau. Teria sido encaminhada a várias lojas credoras. Uma coisa é certa: qualquer que seja o ângulo pelo qual se pretenda analisar o texto, ele não deixa de ser um eloquente sinal dos tempos.
 
“Prezados Senhores,
Esta é a oitava carta jurídica de cobrança que recebo.  Sei que não estou em dia com meus pagamentos. Acontece que eu estou devendo também em outras lojas e todas esperam que eu lhes pague.

Contudo, meus rendimentos mensais só permitem que eu pague duas prestações no fim de cada mês. As outras, ficam para o mês seguinte. Estou ciente de que não sou injusto, daquele tipo que prefere pagar esta ou aquela empresa em detrimento das demais. Ocorre o seguinte: todo mês, quando recebo meu salário, escrevo os nomes dos credores em pequenos pedaços de papel, que enrolo e coloco numa caixinha. Depois, olhando para o outro lado, retiro dois papéis, que são os dois “sortudos” que irão receber o meu rico dinheirinho. Os outros, paciência. Ficam para o mês seguinte. Afirmo aos senhores, com certeza, que sua empresa vem constando todos os meses da minha caixinha. Se não os paguei ainda, é porque os senhores estão com pouca sorte.

Finalmente, faço uma advertência: se os senhores continuarem com essa mania de me enviar cartas de cobrança ameaçadoras e insolentes, como a última que recebi, serei obrigado a excluir o nome de Vossas Senhorias dos meus sorteios mensais. Sem mais, obrigado.”

Um comentário:

Unknown disse...

Caro Companheiro Vanucci,
Esta carta é realmente pândega. Eu já a tinha lido, mas ri de novo com a mesma intensidade que ela me moveu o riso da primeira vez. Valeu!
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