sexta-feira, 9 de agosto de 2013


As armas britânicas

Cesar Vanucci *

 “Shakespeare tem razão: os hipócritas esforçam-se
por parecer santos quando mais encarnam o diabo.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

 Por favor, alguém melhor informado das coisas que rolam nos bastidores geo-politicos-econômicos saberia explicar, aqui, pra este desajeitado e desinformado escriba, o desconcertante enunciado dessas duas informações, constantes do noticiário nosso de cada dia?

A primeira informação diz que a Inglaterra, ao lado de outros países, condena com veemência, nos mesmos termos adotados pelos Estados Unidos, a ação de extermínio das minorias opositoras desencadeada pelo ditador da Síria, Bahar Assad. Expressa repulsa pelos métodos empregados na ação governamental de Damasco no conflito que ensanguenta o país.

A segunda informação diz que uma comissão do Parlamento inglês trouxe a público a revelação de que o país fornece, em caráter regular, no cumprimento de contratos de vultosos valores, armas de destruição ao execrado regime sírio. Não deixa de ser irônico anotar que o relatório parlamentar em questão veio a público um dia depois de o chanceler inglês William Hague anunciar solenemente que a Grã-Bretanha enviaria material de proteção contra armas químicas para os rebeldes sírios, em meio a denúncias de uso de gás sarin por parte das forças de Assad.

É bem elucidativo também acrescer à informação que a venda de armas britânicas, segundo a mesma insuspeita fonte, não contempla apenas a Síria, mas um punhado de outros paises volta e meia criticados pela Inglaterra nos fóruns internacionais por conduta lesiva aos direitos humanos. Caso, por exemplo, para citar mais um incrível exemplo, do Irã dos raivosos aiatolás.

A flagrante contradição existente entre a retórica diplomática e a rendosa prática comercial efetiva adotada pelos ingleses (será que só por eles?) nos penumbrosos bastidores geo-politicos-econômicos suscita a lembrança de episódios estarrecedores, indicativos da hipocrisia e insensatez humanas e do poderio incontrolável da indústria de material bélico. Durante a 1ª Grande Guerra Mundial (1914-1918), as fábricas de armas, tanto de um lado quanto do outro lado da contenda, atenderam, solícita e indistintamente, no curso da carnificina, a encomendas de um e de outro lado, sem que fossem molestadas por quem quer que seja nesse seu “desprendido afã” de servir eficientemente à clientela. Colocaram-se num patamar superior, “escrupulosamente isentas” de acordo com seu tétrico “código de ética”, para servir a tempo e a hora as partes, “distanciando-se” das litigâncias bélicas que fizeram de milhões de criaturas verdadeiras “buchas de canhão”. Projéteis fabricados pelos aliados alvejaram pracinhas que nas trincheiras defendiam a “honra” e a “dignidade” de seus países. Projéteis saídos de fábricas alemãs foram também utilizados para dizimar vidas de jovens das fileiras germânicas. Tudo em nome dos “nobres ideais” que uns e outros sustentavam como justificativa para participação no confronto bélico.

 Ponho-me a imaginar que histórias como essa (e muitas outras parecidas) da venda de armas inglesas concorrem bastante para que, a cada dia mais intensamente, multidões saiam de seu comodismo bovino secular para exprimir nas ruas justo e esbravejante  inconformismo com as regras comportamentais hipócritas impostas pela arrogância e prepotência humanas.

 
Um fiapo no torrão

 
“Afinal de contas, só existe uma raça: a humanidade.”
(George Moore)
 
O racismo, já disse noutra ocasião, é como a grama tiririca. A gente imagina que possa extirpá-la. Pega da enxada e tenta arrancá-la do solo com raiz e tudo. De nada adianta. “Um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar”, como é dito num verso da saborosa poesia sertaneja, de autoria de um êmulo do grande Catulo da Paixão Cearense, cujo nome a memória velha de guerra não conseguiu guardar.

E viceja mesmo pra valer! Os exemplos a considerar são bem atuais. O senador Roberto Calderoli, ocupante de pasta ministerial no governo italiano, filiado a um partido ultraconservador, a Liga do Norte, responde presentemente a uma ação judicial, movida por promotores de Bergamo, por afirmações públicas injuriosas à sua colega de Ministério, Cecile Kyengea, “negra como as profundezas d’África” (pra lembrar verso do grande poeta negro estadunidense Langston Hughes). Cecile, oftalmologista, nascida no Congo, cidadã italiana, foi comparada a um orangotango. Tornou-se alvo de comentários de odor racista desde sua designação para o Ministério da Integração, em abril. O comentário do Ministro Calderoli suscitou outras repulsivas manifestações de intolerância. Uma colega sua de partido, Dolores Valandro, insultou a Ministra em registros espalhados pelas redes sociais, afirmando que ela merecia ser estuprada. Nesse caso específico, a agressora foi condenada pela Justiça de Pádua por incitar a violência sexual, pegando 13 meses de prisão com direito a sursis e ficando proibida de exercer por três anos qualquer cargo público. O caso de Cecile desencadeou aceso debate sobre o racismo na Itália, deixando visível que a intolerância racial no país, um polo de convergência de imigrantes africanos, é uma questão revestida da maior gravidade.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, com intermináveis marchas, vigílias, passeatas, entrevistas inflamadas, militantes dos direitos civis, tendo a participação ativa da comunidade negra, promovem nas ruas ruidosas manifestações anti-racistas, motivadas pela absolvição, numa cidade da Flórida, do assassino de um jovem negro de 17 anos. O jovem em questão, Traycon Martin, caminhava despreocupadamente pela rua. Vestia um gorro. ”Um negro com gorro” pareceu ao olhar de George Zimmerman, 28 anos, caucasiano, segurança voluntário do bairro, um indivíduo suspeito. Foi o quanto bastou para a abordagem truculenta e o disparo mortal. O assassino não chegou nem a ser detido. Só veio a responder por processo criminal por força de forte pressão popular que acabou ganhando dimensão nacional. Escudou-se numa legislação anacrônica, vigente na Flórida, a chamada “Stand your ground”, que ampara, com base em simples suspeita, o emprego de arma de fogo como defesa, por alguém que se sinta ameaçado. A lei, apoiada pelos fabricantes de armas, deixa a critério de quem faça as abordagens de pessoas suspeitas a conveniência de puxar ou não o gatilho. Zimmerman contou com o apoio irrestrito de grupos racistas para obter absolvição tranquila no Júri.

A sentença ecoou com força de bofetada na cara da opinião pública esclarecida. Detonou movimento popular que se alastrou pelo país adentro e que volta a expor ao mundo as chagas odiosas da discriminação racial que amplos setores da sociedade norte-americana cultivam.

O movimento forçou o Departamento de Justiça a reabrir as investigações a respeito do assassinato, a um só tempo que trouxe à tona volumosa carga de fatos indicativos de que os conflitos raciais no país ainda estão longe de se extinguirem. Uma amostra significativa disso, bem recente, foi dada pela Suprema Corte, ao tornar sem efeito a Lei do Direito ao Voto, promulgada em 1965, que determinava investigação ampla do Congresso a respeito de regras eleitorais notoriamente hostis à população afro. Em certas regiões do sul do país, está bem documentado, existe uma manobra política sorrateira contínua de obstrução do voto dos negros. Milhares de representantes da comunidade negra, por meio de artifícios variados, são impedidos de comparecer às urnas nas eleições.

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