sexta-feira, 5 de abril de 2013



A emoção duradoura de dois musicais

Cesar Vanucci *

“Não deixo por menos ao definir
Bibi Ferreira: gênio da raça!”
(Antonio Luiz da Costa, professor)

O ano ainda não varou o primeiro quadrimestre e este desajeitado escriba não vacila um instante sequer em dizer, assinando embaixo da declaração e mandando reconhecer e autenticar firma em cartório, que nenhum espetáculo musical a ser exibido pelas redes de televisão em 2013 conseguirá se igualar, de leve que seja, em brilho, com o estupendo show “Bibi, histórias e canções”, levado ao ar, dias atrás, pela Rede Minas de Televisão.

Primorosamente encenado no Palácio das Artes, com a magistral participação da Orquestra regida pelo maestro Flávio Mendes, o espetáculo eletrizou a platéia que lotou as dependências do teatro e a multidão de telespectadores que acompanhou a transmissão ao vivo.

Esbanjando talento, charme, simpatia, Bibi Ferreira, incontrastavelmente a primeira grande dama dos palcos brasileiros – fato reconhecido pela própria Fernanda Montenegro, outra figura exponencial da vida cultural e artística nacional – mostrou que sua voz e presença gestual permanecem assombrosamente as mesmas, apesar de seus bens vividos 90 anos, dos tempos em que encantou o mundo com inesquecíveis performances em peças como “Alô, Dolly”, “Minha querida dama”, “O Homem de La Mancha”, “Gota D’água”, “Piaf, a vida de uma estrela”, para citar algumas.

Como um mundão de gente de minha e de outras gerações, sou fã de carteirinha de Bibi Ferreira. Desfrutei do privilégio de aplaudi-la no Teatro João Caetano, no Rio, nos anos 60, por ocasião do lançamento da versão brasileira de “Alô Dolly”. O mano Augusto Cesar Vanucci e o tenor Paulo Fortes compuseram com ela o trio central do musical. Recordo-me de que os produtores norte-americanos, tomados de fascínio diante do desempenho da artista e demais integrantes do elenco, registraram em entrevista, na ocasião, que a montagem da peça no Brasil nada ficara a dever ao espetáculo da Broadway.

Vi as demais encenações citadas. Quer dizer, tive o raro ensejo de aplaudir alguns dos mais belos momentos da história do teatro musicado mundial. Em “Piaf, a vida de uma estrela”, Bibi transcendeu. Mano Augusto, na poltrona ao lado, afiançou: “Isso tá parecendo incorporação mediúnica. A Edith Piaf baixou.” Eu, de minha parte, agarrei-me à definitiva impressão de que a atriz brasileira havia conseguido a façanha de interpretar Piaf melhor do que a própria célebre cantora francesa, se é que alguma coisa dessas possa realmente ocorrer.

No cinema, na dramaturgia, na televisão, como atriz, cantora, diretora, produtora, dançarina, autora de textos, Bibi perfez legendária trajetória. Uma trajetória de tal modo cintilante que bem poucas outras atrizes de grande projeção internacional terão, por certo logrado, percorrer.

Fixando-me no espetáculo no Palácio das Artes transmitido pela Rede Minas. Canções e histórias saborosissimas. Um repertório da mpb de tirar o fôlego. Árias de ópera com adaptações de letras extraídas de melodias famosas do cancioneiro popular brasileiro, em interpretações arrepiantes. No centro do palco, a emitir emanações luminosas cegantes, a colossal artista, gênio da raça.

A TV Minas bem que poderia incluir em sua programação um repeteco do show.

˜ Quem não foi, perdeu. O espetáculo montado no Teatro do Sesminas, no Centro Cultural “Nansen Araujo”, para celebrar os 80 anos de fecunda existência da Fiemg, foi um instante de raro esplendor artístico. Poucas vezes se nos foi dado a ver em palcos belorizontinos uma sincronização tão harmoniosa, tão perfeita, tão dentro dos trinques, envolvendo uma Orquestra, um Corpo de Dança e um Coral. Entrelaçando lindamente imagens dos feitos históricos da Fiemg com impecáveis orquestrações e vocalizações e soberbas coreografias, inspiradas em composições do cancioneiro popular brasileiro, os grupos artísticos do Sesiminas, comandados pelo Maestro Marco Antônio Maia Drumond e pela coreógrafa Cristina Helena Rios de Faria, valendo-se de recursos de criação, de imagem, argumento e pesquisa da Gerência de Cultura Sesi e Centro de Memória do Sistema Fiemg, levaram ao arrebatamento o público numeroso presente à solenidade comemorativa dos 80 anos.
Deixo aqui uma sugestão: a reapresentação por uma temporada desse espetáculo. Vale a pena ver de novo.


Os direitos “sagrados” dos caubóis

“Todo inventor de formação humanística tem seu momento
de depressão a la Santos Dumont, por causa do temor de que sua
invenção venha a ser desvirtuada dos propósitos originais.”
(Domingos Justino, educador)

Inimaginável impressora capaz de produzir artefatos em três dimensões, bolada por uma tecnologia de vanguarda destes tempos assombrosos, está sendo desvirtuada dos objetivos para os quais foi inventada, passando a atender a maquiavélicos e assustadores propósitos. O que se cogitava, de princípio, com a revolucionária técnica, era a produção de objetos de adorno ou de utilidade prática no ambiente caseiro, de forma a facilitar a vida das pessoas dotadas de habilidades mecânicas ou artesanais.

Mas eis que o instinto perverso de alguns descobre, de repente, outra linha de utilização para o instrumento: a fabricação de armas portáteis mortíferas de comprovada eficácia. Com a “vantagem” para os interessados na composição de “arsenais domésticos” de não terem que prestar contas a ninguém de suas “atividades” como fabricantes clandestinos de instrumentos de destruição. Testes promovidos por especialistas revelaram que armas de potente calibre nos moldes configurados em nada ficam a dever, quanto aos malefícios espalhados, aos produtos originais. E a munição tradicional é perfeitamente adaptável.

A descoberta desse macabro aplicativo da impressora de três dimensões levantou, naturalmente, enorme preocupação. Os órgãos competentes estão dando tratos à bola, nos Estados Unidos, com vistas a estabelecer normas de controle que possam impedir o invento de transformar-se numa ameaça social sem controle.

Já uma minoria barulhenta de caubóis que na terra de Tio Sam defendem, com tresloucados argumentos, o “sagrado direito” de cada cidadão em poder montar dentro de casa seu próprio arsenal bélico, mode proteger-se dos riscos urbanos, suburbanos e rurais, vale dizer, dos riscos da vida, vem celebrando com euforia a novidade. Em depoimentos, alguns desses personagens – hoje em conflito aberto permanente com o governo Obama, por sua disposição de regulamentar o negócio de armas no país – registram, com insano júbilo repita-se, que a geringonça tecnológica é um caminho apontado por Deus aos verdadeiros patriotas americanos. Um pessoal disposto a não renegar, sob pressão alguma, os “autênticos valores da nacionalidade” e que se insurge com destemor contra decisões que cogitem submetê-los a normas, como a da regulamentação de armas, que alvejam claramente seus sagrados direitos pessoais, ufa!

Isso mesmo que você acaba de ler, caro leitor. Nada de espanto prolongado. O jogo dos fundamentalistas estadunidenses é feito todo nessa base. O radicalismo dominante transpõe todos os limites razoáveis e imagináveis. O Presidente negro Barack Obama é considerado por essa gente perigoso agente da esquerda terrorista, com vinculações no mundo muçulmano.

Como as correntes integristas e racistas são ainda força política dotada de poderes na sociedade norte-americana, os argumentos empregados pelos seus porta-vozes geram certa ebulição. As ferozes resistências, inclusive na mídia, que a Casa Branca tem encontrado para fazer prevalecer uma legislação sensata de regulamentação do comércio de armas configuram bem o estado de espírito belicoso desses grupamentos, que bebem inspirações para seus atos nas idéias da Ku Klux Klan, da Sociedade John Bird e do Tea Party.



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