sexta-feira, 12 de abril de 2013







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Ferrovia já era?

Cesar Vanucci*

"Esse mal compreendido sistema ferroviário brasileiro.”
(Euclides da Cunha)

Ocupei-me, bom tempo atrás, da momentosa (ontem, hoje e sempre) questão das ferrovias. Os comentários, lançados neste mesmo espaço, continuam de refulgente atualidade, o que aconselha voltem a ser trazidos à apreciação dos leitores.

A gente pegava em Uberaba o trem da Mogiana e, 36 horas depois, descia na estação de Pouso Alegre. Antes da chegada, havia uma baldeação para tomar trem da Rede Mineira de Viação em Sapucaí. Em Mogi Mirim, uma baldeação a mais. Uberaba era, nestas reminiscências da infância, o ponto de partida para as fascinantes aventuras da vida. A partir dali, todos os dias, os caminhos férreos da Rede e da Mogiana despejavam pessoas e mercadorias em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, cidades do interior de Minas, Goiás e São Paulo.

Os registros da época dão conta também de que, com menor, igual ou maior intensidade, a movimentação ferroviária era fato alvissareiramente corriqueiro em outras bandas do Estado e do País. Ia-se de trem de Belo Horizonte ao Rio. Do Rio a São Paulo. De São Paulo a Porto Alegre. De Porto Alegre a Curitiba. E assim por diante. O Brasil tinha-se na conta de país razoavelmente servido por ferrovias. Não eram tantas, provavelmente, quanto as necessidades exigiam. Mas davam, por assim dizer, para o gasto.

De outra parte, tomando Uberaba ainda como referência, a quarenta quilômetros do centro da cidade, no Rio Grande, fronteira líquida com o território paulista, barcaças cuidavam do transporte de passageiros e artigos comerciais pela zona ribeirinha. Era o que também acontecia, em maior escala, nas vias fluviais de outras regiões, com destaque aqui pros nossos lados para o Rio São Francisco no rumo do Nordeste.

E não é que, de repente, sem mais quê nem pra quê, tudo isso se desfez, igualzinho fumaça de locomotiva tocada a lenha. Virou retrato esmaecido na parede descascada do tempo. Atendendo a imperativos que a história prova não terem sido corretamente avaliados, o Brasil optou desastradamente pela via única de transporte na conquista do progresso. O sistema rodoviário ficou com a primazia exclusiva e absoluta dos investimentos. Nenhum avanço significativo praticamente voltou a ocorrer nos setores ferroviário e de navegação. E o que é pior: de modo insensato, com frenesi iconoclasta, partiu-se para o total desmantelamento do que existia de regular para bom nessas áreas. A palavra de ordem dada naquele momento infeliz foi essa: ferrovia já era.

É pedagógico lembrar, a esta altura, que temos muito disso deploravelmente, no Brasil. Um fascínio irresponsável por teses novidadeiras e de eficácia questionável costuma povoar a imaginação dos detentores do poder de decidir. Os exemplos são ululantes. Podem ser catados em todos os setores, até mesmo no empresarial.

Tem mais conversa sobre ferrovia pela frente.


Desfazendo uma política de transporte

"O trem é um meio de diminuir o mundo.”
(Ruskin)


Ferrovia já era. Alguém perpetrou essa imbecilidade e ela virou moda, num certo momento da vida brasileira. Teve assim início a insana onda da retirada de trilhos e dormentes (que, segundo fontes bem informadas, andou enricando muita gente) e a desativação de estações. O modismo de encarar a ferrovia como instrumento de comunicação da era jurássica foi aceito pelos detentores do poder. E sem grandes contestações e questionamentos críticos por parte da comunidade.

Infelizmente, tem dessas coisas no Brasil. Pipoca no pedaço uma tese novidadeira qualquer, de eficácia duvidosa. Logo, logo, os encarregados de tomar decisões entendem de aplicá-la como se fosse verdade bíblica. A atividade empresarial, para ficar num único setor, está recheada de exemplos de bestices do gênero. O que tem de organização entrando por deslumbrantes tubulações, por se deixar enredar no papo furado de certas ondas gerenciais modernosas, vou te contar...

Desumaniza-se a ação produtiva, colocando-se no lugar do que vem funcionando razoavelmente um tecnicismo pedante e corrosivo. As inovações afugentam as pessoas, quebram o entusiasmo profissional, amortecem o ímpeto criador e, logicamente, inviabilizam resultados. Um cidadão qualquer pinta subitamente na praça, botando banca de especialista em modernização administrativa. Aluga ouvidos receptivos à sua cantilena. Vale-se de toda uma estudada prosopopéia, trazendo engatilhadas na ponta da língua expressões geradas pelo modismo, retiradas de algum dicionário de bolso inglês-português. Anuncia triunfalmente mudanças capazes de proporcionar lucratividade e desenvolvimento. A idéia, com a garantia técnica de certeiros efeitos positivos, é encampada no bem intencionado propósito mudancista dos mais ingênuos. É metida goela abaixo da comunidade de trabalho. Só que, num bocado dos casos, a experiência é frustrante. Não traz lucratividade, nem desenvolvimento. Desmantela as estruturas montadas. Deixa coisas fora do lugar. Reduz a estilhaços uma cultura profissional, sem deixar coisa alguma em substituição, além de um cenário de terra arrasada. Fica difícil, quando não impossível, reconstituir-se o ambiente de trabalho anterior ao vendaval.

Foi mais ou menos desse jeito que o Brasil perdeu, de repente, tempo, dinheiro, trilhos e dormentes. Ferrovia já era, proclamou-se. Consagramo-nos, por causa disso, com todo “entusiasmo”, à tarefa de desativar ramais. Fizemos das estações depósitos. Algumas ainda serviram para alojar Centros Culturais, menos mal. Resultado: em curto espaço de tempo desfez-se toda uma política de transporte por linhas férreas, construída ao longo de vários decênios, desde o Império, por numerosas administrações.

Cabem, adiante, mais considerações em torno do candente tema.


Imitação do Reno

"Está firme e fiel a sentinela sobre o Reno.
(Canto nacional alemão)

Quando evocado, o processo demolidor que atingiu em cheio o sistema ferroviário inspira perguntas danadas de incômodas. Do tipo: o que foi feito, hein?, dos trilhos que estavam aqui? Quem saberá responder?

O que se sabe, com absoluta certeza, é que já não mais existem trilhos suficientes para conduzir passageiros e assegurar às mercadorias acesso aos lugares de antigamente.

O grande Euclides da Cunha lamentava, à sua época, a falta de compreensão que havia com relação à política ferroviária. Já registramos atrás aquela frase em que o escritor falava desse mal compreendido sistema ferroviário. A verdade é que, um bocado de décadas depois, a situação só fez piorar. E como! Ferrovia no Brasil, já era mesmo...

O problema suscita interrogações sem conta. E essas interrogações desconfortáveis convocam à reflexão. Qualquer criança de grupo tá careca de entender que as ferrovias e os rios representam, em qualquer parte do globo, esplêndidas alternativas de transporte num processo de desenvolvimento. E nem é por outra razão que nos países desenvolvidos confere-se aos dois setores tratamento privilegiado em matéria de investimentos públicos e privados.

Todo brasileiro que esteve no rio Reno não consegue esconder uma santa inveja diante da visão empolgante do tríplice espetáculo que ali se desenrola, em matéria de movimentação de cargas e passageiros. Nas águas caudalosas, um deslocamento contínuo de lanchas, barcaças e navios, em todos os sentidos. Roçando as margens, são vistos, resfolegantes, imensos comboios ferroviários. Bem próximo aos trilhos, está implantado um imponente conjunto de autoestradas. E, nas imediações, como uma espécie de portal de entrada da Europa para os confins do mundo, o incrível aeroporto de Frankfurt. Um quadro perfeito do entrosamento estabelecido entre os diversos meios de transporte de massa. Uma sincronia prodigiosa entre os recursos da Natureza, adequadamente utilizados, e o engenho humano.

Pensando na quantidade dos nossos cursos fluviais navegáveis e nas grandes distâncias deste nosso país-continente, embrenhamo-nos, num voo solto de imaginação, pelos ilimitados territórios do futuro, alimentando a esperança de que, algum dia, possa nascer no Brasil a disposição de fazer com que nossos rios, como no título do romance famoso, passem a imitar o Reno.

Até lá. Até que isso venha a acontecer. Até que se reabra, nos caminhos do nosso desenvolvimento, a possibilidade ideal para adoção de uma política diferente nos setores ferroviário e fluvial. Até lá, carregando a lembrança amarga do descabido processo de destruição das ferrovias brasileiras, até lá continuarão pendentes nas gargantas das pessoas, inconformadas com o desperdício de tantas oportunidades, as perguntas nascidas de nossa atormentada perplexidade. Por que o Brasil parou de investir em ferrovia?

Por que parou? Parou por que?

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