sexta-feira, 31 de maio de 2013

Enervante e assustador

Cesar Vanucci *

 “O retardamento da justiça é injustiça.”
(Landor)

 A marcação recente de três julgamentos relativos a casos que causaram forte comoção popular e enorme repercussão dentro e fora do país ilustra, de forma estridente, a enervante e assustadora morosidade da Justiça em executar sua sagrada missão institucional.

O “massacre do Carandiru”, com 111 mortes e outro tanto de feridos, ocorreu em 2 de outubro de 1992. Somente agora vinte e seis dos oitenta e três policiais militares denunciados como autores, 22 anos depois da inominável tragédia, foram conduzidos ao banco de réus. Pegaram sentenças de 156 anos de prisão cada um pelo seu envolvimento no trucidamento de 13 presos.

O assassinato de PC Farias e da namorada Suzana Marcolino ocorreu em 23 de junho de 1996. Os seguranças do casal, indiciados pela execução material dos crimes, só foram julgados agora em maio de 2013. Ou seja, 17 anos depois.

O caso, como se recorda, sofreu tremenda reviravolta diante do inconformismo da opinião pública em absorver a primeira versão dada pela polícia de Alagoas sobre essa verdadeira “queima de arquivo” relacionada com um dos mais explosivos escândalos da vida pública nacional. A alegação fornecida à sociedade foi de que a namorada de PC matou-o por ciúmes e, depois, deu cabo da própria vida. A fajuta aprontação acabou desabando. Investigações posteriores levaram ao indiciamento dos seguranças, mas não chegaram ao ponto de esclarecer tudo tintim por tintim, ou seja, apontar o mandante, ou os mandantes dos homicídios. Nem, tampouco, revelar em poder de quem ficou a enorme fortuna adquirida nas maracutaias articuladas pela vitima. A absolvição dos réus pelo Conselho de Sentença alagoano, com o reconhecimento de que ocorreram realmente os assassinatos, e de que os seguranças pecaram por omissão, tornou ainda bem mais difícil a decifração da charada que envolve as façanhas e a morte de PC. Morte, por sinal, acontecida na véspera da vitima comparecer em Juízo para revelar, com detalhes, como vinha sendo aguardado, uma incrível historia de corrupção, dando “nomes aos bois” e entregando uma lista completa dos corruptos e corruptores.

Já a chamada “chacina de Unai”, em que agentes da fiscalização do Ministério do Trabalho foram eliminados por jagunços, atendendo à voz de comando vingativa de fazendeiros autuados por ações contrárias à legislação trabalhista e com participação na vida política da região, aconteceu no dia 28.01.2004. O julgamento dos réus, já várias vezes adiado, está sendo agora anunciado para o mês de agosto. Fazendo as contas, mais de nove anos depois da brutal ocorrência que enlutou numerosas famílias e que tanta revolta espalhou no seio da sociedade.

Voltamos a Rui Barbosa, na célebre “Oração aos moços”: “Justiça atrasada não é justiça.”

 
Crônica da violência
 
Precisamos responder com urgência ao desespero da sociedade.”
(Deputado Henrique Eduardo Alves,
presidente da Câmara dos Deputados)

Achamos, sim, que o Brasil precisa promover um debate amplo, sem tardança, a respeito da momentosa questão da definição de penas mais severas para menores infratores, responsáveis por crimes hediondos. Nesse sentido reveste-se de importância e oportunidade a iniciativa do Congresso Nacional ao criar uma Comissão especial para propor mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente. Como sublinha o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, “precisamos responder com urgência ao desespero da sociedade brasileira”. A comunidade confessa-se alarmada diante da onda de violência urbana que aponta, com frequência, em plano destacado no cometimento de atos bárbaros, adolescentes de reconhecida periculosidade.

O assunto carece ser enfrentado com objetividade e bom senso em todos os seus múltiplos e complexos aspectos. Para isso terão que ser escutados também, com toda atenção, renomados especialistas em educação que, contrapondo-se ao que vem sendo reclamado por ponderáveis setores da sociedade, sustentam que de nada vai adiantar a pretendida redução da maioridade penal ou o aumento das penas restritivas de liberdade se o Estado se revelar incapacitado a oferecer aos jovens em situação de risco possibilidades de inclusão social.

Seja como for, o debate precisa ser levado às ultimas consequências. Com audiência aberta a todos os setores da comunidade e com o conhecimento das experiências consideradas bem sucedidas, adotadas em países onde a problemática do menor infrator foi exaustivamente debatida em função igualmente de fortes pressões populares.

Paralelamente a essa discussão, o Parlamento, o Judiciário, o Executivo, com o concurso de outros segmentos da sociedade, estão também na obrigação de reservar parcela de seu precioso tempo para estudos aprofundados a respeito de outra momentosa questão. Com certeza, de relevância equivalente, ligada pela mesma forma à violência urbana. Fala-se aqui da incidência alarmante, no papel de autores de delitos contra o patrimônio e os cidadãos, de agentes da lei flagrados em atos que colidem estrepitosamente com sua nobre função. Quem se dá ao trabalho de percorrer o noticiário nosso de cada dia toma ciência, aturdido, num grau de intensidade descabido, da presença de policiais e ex-policiais em um sem número de operações criminosas. Evidente que uma situação desse gênero é de molde a acarretar intranquilidade, mal-estar e justificados temores, dando origem ao clamor da população, ansiosa por medidas corretivas capazes de eliminar o problema das preocupações gerais. Dos poderes constituídos espera-se uma investigação a fundo do que anda realmente acontecendo nessa área de prestação de serviços públicos. Um exame sério do assunto seguido de fórmulas eficazes para que os desmandos e distorções amiúde detectados, motivo de inquietação generalizada, deixem de frequentar o noticiário.

 Na crônica da violência destes tempos conturbados, os dois itens enfocados são objeto de angustia e mortificação.

sexta-feira, 24 de maio de 2013


Mas isso também é terrorismo

 Cesar Vanucci *

 “O terror pode assumir, nestes
tempos amalucados, múltiplas formas.”
(Antonio Luiz da Costa, professor)

 O edifício de nove andares que desabou em Daca, capital de Bangladesh, provocando mais de mil mortes e mais de dois mil feridos, abrigava um complexo industrial ligado ao setor de confecções. Marcas famosas mantinham unidades de produção no local, empregando grande contingente de operários. Mais de três mil.

 Bangladesh é, depois da China, o polo de fabricação de peças de vestuário mais ativo do planeta. Essa atividade representa sua principal fonte econômica. O prédio que veio ao chão foi erguido em condições irregulares. Estava plantado numa zona vedada a construções desse porte. Mesmo assim, desrespeitando as posturas, os proprietários da edificação arrancaram, por meio de jogo de influência e propinas, alvarás de funcionamento. Mais: passando por cima de recomendações técnicas expressas, foram acrescentando mais andares à estrutura, ao longo dos anos. Ao aparecerem fendas nas paredes, diante da recusa dos operários em continuarem comparecendo ao trabalho em condições tão arriscadas, a Prefeitura de Daca ordenou a interdição do edifício. A proibição, por força de forte pressão, foi revogada dias depois. Os trabalhadores receberam intimação de retornar ao trabalho sob ameaça de demissão e suspensão de salários. A contragosto, acataram as ordens hierárquicas. Deu no que deu. Vinte e quatro horas depois o edifício caiu estrepitosamente. Milhares de costureiros, costureiras e centenas de crianças, recolhidas a creches, encontravam-se em seu interior na hora fatídica.

 Os salários pagos nas fábricas eram em média de 99 reais mensais, por 72 horas semanais.

Pouco antes dessa pavorosa ocorrência, outra construção insegura, também de nove andares, abrigando empresa de confecção, pegou fogo em Daca. Não haviam saídas de emergência. A estatística tétrica, desta feita, apontou 117 mortos e 200 feridos. As tragédias levantaram nas ruas acesos protestos populares, reprimidos com violência.

 A notória insensibilidade do setor industrial de confecções que atua em Bangladesh, representativo de grifes que ornamentam lojas de luxo nas praças comerciais mais sofisticadas do planeta, vem sendo, com toda razão, equiparada à violência dos fanáticos terroristas que agem em grupo ou por conta própria. Afinal – argumenta-se –, a forma de agir de uns e outros, igualada no desprezo a valores humanos sagrados, é terrorismo.

 E se a gente procurar com afinco e olhar crítico atilado vai acabar descobrindo, certeiramente, em muitos outros cantos deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar também seus encraves outras desalmadas situações terroristas em potencial, parecidas com as de Bangladesh, prontas para explodir.

 
Repositório vivo da arte de raiz

 “Afinal este senhor de alma festiva mora no Folclore.”
(Juliana Arantes, sobre Gilberto de Andrade Rezende)

 “Catira, a poesia do Sertão”, conforme palavras do próprio autor, Gilberto de Andrade Rezende, é uma contribuição para o resgate de uma das mais tradicionais danças folclóricas do Brasil Central, chamada de Catira no Estado de Minas Gerais e de Cateretê no Estado de São Paulo.

Graças a lavra poética do sertanejo – é Gilberto quem estende a explicação – pôde ser composto um opulento registro de manifestações folclóricas. Elas exerceram importante papel na formação da cultura popular do meio rural nos dois últimos séculos. “Nas modas e recortados do Catira, os poetas sertanejos expressaram seus mais puros sentimentos, trazendo alegria aos homens do campo e entrosando patrões e empregados numa dança onde nunca existiu hierarquia social,” assinala ainda.

Ninguém no Brasil conseguiu ir mais fundo do que Gilberto de Andrade Rezende em matéria da pesquisa nesse fascinante segmento folclórico. O consistente trabalho realizado conferiu-lhe a invejável condição de ocupar, com todo merecimento, lugar no time titular das figuras exponenciais do movimento folclórico nacional. Personagens que tomaram a si a tarefa de construir o acervo respeitável da cultura de raiz que tão bem exprime os sentimentos e as emoções da gente brasileira.

Consta das façanhas de Gilberto, nesse campo de atuação, o levantamento meticuloso de centenas de modinhas e recortados, com indicação dos autores, entoados e coreografados nos terreiros rurais ao longo de décadas pelos intérpretes catireiros. E, ainda, a listagem preciosa dos numerosos grupos, espalhados pelo sertão, que encontraram nessa modalidade de divulgação artística uma forma de exprimir a poesia que povoa a alma sertaneja. Seja recordado que, na esplêndida Casa do Folclore, criada e mantida por Gilberto em Uberaba, e em outros recantos, a lindíssima coreografia da catira ficou imortalizada por dançadores da estirpe de Romeu Borges, ainda hoje em plena atividade. Esse dançador contracenou, de certa feita, em palco carioca, com a famosa bailarina Ana Botafogo, num soberbo e arrepiante espetáculo.

O que sobra pra dizer mais sobre Gilberto está consignado no depoimento, reproduzido na sequência, que fiz no livro em que 80 amigos festejaram sua chegada aos 80 anos de idade.

“Esse cara é um colosso!” Ouvi esta frase, pelo menos em duas ocasiões diferentes, aplicada à figura do Gilberto, da boca de ninguém mais, ninguém menos, que o Zé Alencar. Nosso saudoso Vice-Presidente apreciava utilizar a expressão “colosso” para classificar personagens e ações que lhe despertassem simpatia e admiração.

 Recordei-me, de pronto, dessa circunstância ao receber o amável convite para juntar este singelo depoimento aos de outros amigos diletos do Gilberto Andrade Resende, no momento em que esse cidadão, que tem a cara de Uberaba, rodeado do carinho de um mundão de gente, celebra pela segunda vez consecutiva 40 anos de vida bem vividos.

 Ostento, nesse rol ilustre, a condição especial de “amigo de infância” do dito cujo. À conta disso, valendo-me de registros retidos na memória velha de guerra, em décadas de convivência fraterna, asseguro sem vacilações que o vocábulo empregado por Alencar ajusta-se como luva à personalidade do homenageado. Quem acompanha a história de Uberaba, sobretudo das transformações culturais, econômicas e sociais ocorridas a partir dos anos 50, sabe muito bem que o Gilberto, como homem de ação, como intelectual e como empreendedor empresarial, vem deixando suas marcas impressas num “colosso de coisas”. Ora, com presença realçante nos feitos. Ora, com trabalho eficiente e discreto de bastidores. Gilberto tem sido um tenaz guerreiro em boas causas de interesse coletivo vinculadas aos avanços experimentados por Uberaba em sua insofreável vocação conquistadora do futuro.

 Na esfera da cultura, não há como olvidar o repositório vivo que se tornou das tradições mais genuínas da arte de raiz. Seus estudos e investigações, notadamente no mundo encantado do folclore, podem ser equiparadas ao que de melhor e mais consistente se fez ou se faz a qualquer tempo, em diferentes lugares, da parte dos pesquisadores mais qualificados da arte popular.

São marcas, essas todas, com sentido de perenidade.

Encurtando razões, que o espaço é curto: justas, muito justas, de conseguinte, todas essas manifestações de apreço que estão sendo prestadas ao Gilberto em todos os segmentos da valorosa comunidade uberabense!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Talebanismo nhambiquara

Cesar Vanucci *

“Todo radical sente-se dono da verdade. Mas não passa,
 na verdade, de um cabra medíocre metido a besta.”
(Antonio Luiz da Costa, educador)

O deputado Marcos Feliciano, o tal das tiradas racistas e machistas que vêm deixando estarrecidos os setores mais lúcidos da sociedade brasileira, tornou-se uma celebridade às avessas ao aglutinar, em torno da postura radical assumida diante da vida, barulhentas minorias representativas do que de mais retrógrado e preconceituoso existe no pensamento político e religioso. O parlamentar vem se portando, impávido colosso, ancorado nas prerrogativas do cargo em que, por descuido imperdoável de seus pares, foi colocado no Parlamento – presidente da Comissão de Direitos Humanos –, como candidato a “líder maior” do talebanismo nhambiquara.

Elementos que gravitam em torno de sua esfera de influência valem-se de falsas interpretações de textos sagrados cristãos para erguer teses de descabida intolerância, que colocam na alça de mira valores caros às causas da democracia, da cidadania e dos direitos humanos.

As evidências dos retrocessos propostos por esses agrupamentos, constantes de agendas pseudo moralizantes – pura “sepulcrice caiada”, como diria o inolvidável Odorico Paraguaçu -, estão presentes num sem número de ridículas proposições, como mostra uma reportagem da “CartaCapital”. Algumas delas: a “lei da calcinha”, ou seja um dispositivo legal que obriga as noivas a se casarem com a roupa intima e regula o decote dos vestidos; a lei que proíbe a distribuição de preservativos para evitar o sexo precoce; a lei do “banheiro exclusivo para gays”; ou seja a instalação de sanitários públicos especiais para homossexuais; a lei do “dia do macho”, que institui o “Dia do Orgulho Hétero”, para se antepor ao “Dia do Orgulho Gay”. E por ai vai. Dá pra sentir, pela amostragem, que os talebãs daqui, com suas “cruzadas em defesa dos bons costumes”, guardam sonora afinidade com os talebãs de outras paragens.

Fique claro que ao deputado e aos que comungam de suas idéias assiste o mais amplo direito de externarem o que pensam e a empreenderem ações, respeitadas as normas legais, que traduzam seu pensamento. Na democracia, as coisas funcionam desse modo. O que não se justifica é que o deputado permaneça, como detentor que é de um perfil obscurantista e radical, à testa de uma Comissão Parlamentar tão importante na Câmara Federal, como a de Direitos Humanos. Para ser exercida a contento a função requer como titular alguém aberto ao diálogo, permeável ao exame sereno das situações contraditórias que enxameiam, no plano das idéias, a convivência humana.


O Brasil na OMC

 “A vitória do embaixador Roberto Azevedo na OMC é um marco”.
(Paulo Nogueira Batista Jr, diretor pelo Brasil no FMI)

Contrariando os vaticínios pessimistas de boa parte da mídia tupiniquim, o diplomata Roberto Azevedo acaba de ser guindado à direção geral da Organização Mundial do Comércio. Trata-se, com certeza, do posto de maior relevância já ocupado por um brasileiro no âmbito das relações multilaterais. De forma insistente, conhecidos comentaristas políticos e econômicos “puseram-nos a par” de que a possibilidade da escolha de Azevedo era remota. O Brasil, “como sempre”, não dispunha de cacife suficiente para impor-se na disputa. A simpatia dos representantes dos países que compõem o colegiado da OMC voltava-se claramente para a candidatura do representante do México, patrocinada pelos EUA e União Européia. Para essa “situação de descrédito” concorria o fato de nosso País ser visto, no cenário do comércio internacional, como “excessivamente protecionista”. Era por aí que rolava a cantilena derrotista.

As previsões falharam. Roberto Azevedo, um cidadão que conhece a fundo o trabalho da OMC, respeitado pelas atitudes desassombradas assumidas na contestação dos subsídios americanos e europeus, galgou a posição pleiteada e a diplomacia brasileira marcou gol de placa nas articulações que promove na esfera internacional.

˜ Em curto espaço de tempo, passaram a não mais ser vistos entre nós – como diria Fernando Pessoa - três talentosos integrantes da MPB. Um deles, compositor do time titular. Autor de “Ronda”, apontada como uma espécie de hino da cidade de São Paulo. Autor, também, da antológica “Volta por cima” (“reconhece a queda / e não desanima / levanta / sacode a poeira / e dá a volta por cima”). E, além de tudo isso, nem todos sabem, esse genial artista Paulo Vanzolini foi também aclamado cientista. Dirigiu por três décadas o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Conferiu à instituição, com belo trabalho, respeitabilidade universal.

Marku Ribas foi outro exponencial personagem da música que saiu de cena. Seu poder vocal e presença de palco assegurou-lhe lugar entre os maiores intérpretes brasileiros de todos os tempos. Guardei para sempre de suas atuações a cena inesquecível de um eletrizante número que apresentou, no Teatro do Sesi, há mais de 20 anos, como solista, numa coreografia que teve participação dos astros e estrelas da famosa “Família Alcântara”. Foi um espetáculo digno de ser incluído pelo Itamaraty numa festa de recepção a Chefes de Estado.

Emilio Santiago, revelado nos espetáculos de Sargentelli no tempo do samba do telecoteco balacobaco e das mulatas estonteantes, que enfeitavam as boates da zona sul carioca, é outro cantor que deixará saudade.

As lembranças de todos estão eternizadas nos extraordinários momentos de boa arte, genuinamente brasileira, que nos legaram.

˜ A Diocese de Bauru aplicou a pena de excomunhão num sacerdote. Alegou haver ele cometido “gravíssimo delito de heresia e cisma”. O sacerdote alvejado, Roberto Francisco Daniel, conhecido por Padre Beto, veio a público dizer que a severa punição decorreu da atitude de defesa intransigente assumida em favor da diversidade religiosa e sexual. Assinalou no pronunciamento que “o melhor caminho para a quebra de preconceitos é a amizade sincera com o diferente: o gay, o hetero, o negro, o branco, o estrangeiro, o pobre, o rico, o oriental, o ocidental, o católico, o evangélico, o umbandista, o ateu etc.” Nada a criticar no posicionamento do Padre. Agora, se o que consta deste resumido registro retrata corretamente a natureza da divergência entre o sacerdote e seus superiores hierárquicos, não há como deixar de classificar de radical e injusta a decisão eclesiástica de bani-lo das funções, depois de 15 anos de atividade clerical. Como ouvi outro dia um pastor evangélico dizer “é incrível que ele esteja sendo excomungado”, já que “nem pedófilos são excomungados com tamanha facilidade.”


A coleira do arcanjo

 “É loucura, mas há método nela.”
(Shakespeare)

Na espaçosa sala de espera da movimentada clínica médica, enquanto aguardam chamado para consultas, pacientes comentam assuntos aflorados no noticiário nosso de cada dia. Detêm-se em anotações singulares, inusitadas, insólitas, extravagantes. Assuntos que hoje enxameiam colunas de jornais, boletins radiofônicos e televisivos.

Os despropósitos analisados na roda arrancam de uma senhora de traje recatado, jeito de adepta de alguma corrente neo-pentecostal, sentada na fileira da frente, na hora que lhe toca falar, um parecer definitivo: “- Tudo que vem acontecendo é falta de temencia a Deus. O coisa ruim desprendeu-se da coleira do arcanjo!” Duas senhoras ao lado, de aspecto piedoso, parecem concordar com a observação, mas se acanham em falar. Um homem amorenado, camisa xadrezada, mete o bedelho no papo, sustentando que “o ar está contaminado com alguma sustança nociva, que anda mexendo com a cuca das pessoas.” A observação é acolhida pacificamente pelo restante. Um jovem com tatuagem ecológica, no braço, jeitão doutoral, serve-se da deixa para largar no ar uma teoria de conspiração: “Muitas nações possuem arsenais bélicos não convencionais. Armas químicas, com antraz e outros ingredientes letais. Até a Coréia do Norte, com aquele tiranete de nome que lembra algaravia ortográfica, já entrou nessa. As partículas soltas afetam o comportamento. Isso explica tantas loucuras e zuretices.”

Chamado a entrar no consultório, perco a continuidade do papo. Mas, de qualquer maneira, senti-me tentado a imaginar que existe mesmo, esvoaçante no ar, despejado ou não por falanges misteriosas com intuitos nefandos, algo que anda arrastando não poucos seres humanos em diferentes circunstâncias a agirem de forma a mais estabanada, em reações sem pé nem cabeça (como era de costume dizer-se em tempos de antigamente), na conturbada aventura cotidiana.

Como entender, por exemplo, que profissionais traquejados de uma empresa do porte da Unilever percam totalmente o controle do esquema rotineiro de envasamento de um produto destinado ao consumo popular, a ponto de permitir que a fórmula alimentícia de larga aceitação seja trocada por água sanitária?

O chocante episódio do envase do produto de limpeza no lugar do suco, na fábrica de Pouso Alegre, recoloca a lembrança de outro lance pra lá de estarrecedor, há tempos denunciado: a adição de soda cáustica ao leite, em várias usinas de beneficiamento. Seja dito, a propósito, que esse silêncio de tumba etrusca que parece blindar as duas deploráveis ocorrências, mesmo sabendo-se da intervenção da Anvisa, mostra-se em total desalinho com a transparência que deve reger sempre as ações dos órgãos competentes incumbidos de zelar pelo interesse coletivo onde ele seja alvo de ameaças.

Mudando de pau pra cavaco, sem sair dessa mesma linha geral de reconhecimento de que alguma coisa solta no ar anda afetando o comportamento de alguns viventes. Em São Paulo, na avenida Paulista, dias atrás, numa demonstração suprema de irresponsabilidade no trânsito, um motorista alcoolizado, ziguezagueando na faixa reservada aos ciclistas, atropelou um jovem. Como consequência apavorante do atropelamento, o braço direito do ciclista foi arrancado, ficando preso na porta. O atropelador seguiu resoluto em frente, negando socorro à vítima e, mais adiante, tomou a decisão de “descartar-se” da “incômoda carga” transportada, ou seja, o braço decepado, atirando-a num córrego... Como classificar um ato insólito desses sem recorrer a expressões do tipo horripilante?

E com que palavras, então, descrever a horrenda história, também recente, ocorrida no Paraná, no Hospital Evangélico de Curitiba? Profissionais da saúde, personagens ao que parece saídos de inimaginável fita de horror, imprópria obviamente em qualquer horário de exibição para todas as faixas etárias, resolvem, sem mais essa nem aquela, abreviar o tempo de permanência, neste nosso vale banhado de lágrimas, de centenas de pacientes recolhidos a uma CTI. Dá pra conceber coisa tão apavorante num ambiente onde tudo é institucionalmente, profissionalmente, moralmente concentrado na celebração da vida?

Parece que a senhora de traje recatado da clínica médica tem razão: o coisa ruim desprendeu-se mesmo da coleira do arcanjo!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A emocionante caçada de tatu

Cesar Vanucci*

“Se o tatu der a cara na barraca,
sapeque uma bordoada no cocuruto dele...”
 (Conselho do caçador mais experiente)

Ficou todo alvoroçado com o anúncio do amigo: “Sábado, você vai com a gente!”
Já ouvira, dezenas de vezes, os relatos dos companheiros de roda, no clube que frequentava com a família, sobre as emocionantes caçadas de tatu que, volta e meia, empreendiam. O assunto dominava as ociosas manhãs de domingo, regadas a batida de limão e torresmo, lá do Campestre. Entusiasmava-se, igualmente, com as narrativas sobre pescarias e caçadas que tinham por alvo o abate de outros exemplares de nossa diversificada fauna. Mas nunca soube explicar a razão, nada o impressionava tanto, nesse sedutor campo de experiências, como a apregoada caçada de tatu. Jamais participara de uma. Para nos conservarmos fiéis à verdade, a não ser no cinema, jamais botara o olhar em qualquer caçada. Mas, igualmente em abono da verdade, nunca ninguém se preparara tão bem psicologicamente para uma aventura do gênero.

Já contara e recontara, num sem número de ocasiões, o sonho que tivera depois de um jantar onde comera perdiz abatida por vizinho caçador. Surpreendera-se no sonho convenientemente aparelhado para fascinante jornada. Botas reforçadas, protegidas por perneiras. Calças curtas, blusão do tipo que aquele governante meio zureta quis, nos anos 60, impor aos funcionários públicos. Capacete de fibra, lenço pendurado no pescoço à moda boiadeira, rifle suíço com mira telescópica, coleção completa de pios, berrante, cartucheiras dispostas “a la Pancho Vila” recheadas de balas “dundum”. Ao redor, aguardando a sua palavra de ordem, dúzia e meia de ajudantes, envergando tangas estampadas, os pés descalços. Ao alcance das mãos enormes, esparramados pelo chão, todos os petrechos de um safári igualzinho ao que foi mostrado numa fita de John Wayne passada numa savana do Quênia. Viu-se envolto em atmosfera africana. Nervos tensos, ao jeito dos exploradores ingleses, permaneceu na expectativa de um ataque Whatusi. Mas cedo acabou se convencendo – o que se revelou confortador para seus brios nacionalistas – de que a paisagem percorrida era, no duro mesmo, a da Mata do Jambreiro. De repente, não mais do que de repente, ainda no sonho, um enorme tatu enquadrou-se na mira de tiro. Apertou o gatilho da Winchester. Um estampido seco e um baque surdo, como nos livros de bolso policiais. Um tatu de dimensões descomunais, duzentos quilos, exemplar animal magnífico egresso de alguma gravura de livro de paleontologia, entregue ao metódico descarnamento dos indígenas ululantes. O sonho findava aí.Todas as vezes que terminava de contar a história, ao riso desbandeirado, se recordava de que, já em sonho, demonstrava uma condição essencial para exercer em plenitude e com estrito senso profissional o papel ardentemente almejado de caçador: uma irrefreável vocação para relatos extravagantes.
Para seus companheiros caçadores a sua presença atenta assegurava a tranquilizadora certeza e a gostosa sensação de que poderiam contar sempre com uma platéia atenta e deslumbrada. Daí o fato de procurarem-no, prioritariamente, nas reuniões do Clube, para o noticiário em primeira mão das emoções vividas nas últimas idas ao campo. Para um contador de casos, como para um artista, nenhuma reação mais disputada do que a expressão de deslumbramento afivelada na cara do freguês escolhido para ouvinte.

O convite para a caçada deixou-o, por conseguinte, comovido e com ligeiro baticum. A preparação se fez rigorosamente de acordo com o figurino. Ótima oportunidade para exercitar os conhecimentos adquiridos na leitura de instrutivos manuais. Do traje ao armamento, com passagem pela matulagem e rotunda capanga contendo preparados anti-malarígenos e injeções antiofídicas, polivalentes e anticrotálicas (recordava-se bem das recomendações acerca de cautelas médicas), nada permaneceu nos preparativos ao desabrigo de zelosa supervisão.
Chegado o grande dia, acordou mais cedo. Falar verdade, nem dormiu direito, tamanha a emoção. Os companheiros prometeram pegá-lo as quatro da matina. Mas só apareceram às 6h30m. Com o pessoal já distribuído por duas caminhonetes, ele observou, num relance, que nenhum deles se apresentava munido do instrumental necessário para enfrentar uma caçada de tatu dentro dos requisitos técnicos consagrados. Mas, como a expectativa em torno do grande momento era forte por demais, ele acabou preferindo deixar passar a vontade de lançar um reparo que traduzisse sua estranheza.
Seis barracas de lona foram armadas na área escolhida para a caçada, uma nesgazinha de terra próxima a um riacho, inteiramente desprovida de vegetação. Cada qual cuidou de se arranchar como pôde. Aquele ali se despejou sobre a cama de campanha, com o respectivo mosquiteiro, garrafa de uísque no chão, e passou o dia lendo “Vila dos Confins”. Dois outros adernaram e, a tirar base pela roncaria que aprontaram, dir-se-ia até que na cidade andavam sem poder conciliar o sono há semanas. Outros dois, cara de malandros irrecuperáveis, refugiaram-se em barracas privativas, acompanhados de duas desajustadas sociais que haviam levado a tiracolo, contrariando as regras do tratado geral de caçadas, constante de um édito real baixado à época de Ricardo Coração de Leão. De vez em sempre, ruídos de taças e vozes risonhas davam a temperatura do frege que rolava naquelas bandas. Um outro caçador se mandou para a beira do rio, a vara de pescar displicentemente lançada, sem intenções sérias de apanhar peixe, e deixou o tempo fluir inebriado com as cançonetas italianas que extraía de uma vitrola portátil. Nos momentos em que soavam apenas os acordes da orquestração, com evidentes desvantagens para os tímpanos alheios, dava uma de êmulo de Luciano Pavarotti, a orquestra filarmônica de Milão garantindo o suporte musical daquele solo de um artista incompreendido. Caçada que é bom, neca de pitibiriba. Nem de tatu, nem de qualquer outro exemplar da imensa fauna silvestre.

O nosso amigo, como é fácil de avaliar, entrou em pânico diante do desconcertante quadro, mas foi-se aguentando enquanto pôde. Com o sol ameaçando deixar o firmamento, o jantar em véspera de ser servido, a hora do repouso chegando e com ela, transcorridas já 48 horas da caçada, a proximidade da volta à cidade, marcada para a manhã seguinte, ele resolveu, finalmente, num desabafo duramente reprimido, arriscar a pergunta tantas vezes ensaiada durante todo o tempo A fisionomia descomposta por inocultável desalento, procurou o amigo responsável pelo convite para a caçada:
- Escuta aqui, ó meu, que hora a gente vai caçar tatu?
Ao que o amigo, sorvendo outro gole do legítimo e sem se dar ao trabalho de levantar os olhos do livro, castigou:
- Deixa pra lá, siô. Não seja um desmancha-prazer. A gente trouxe disco, livro, música, boa comida e bebida, barraca. Eles lá, trouxeram até mulher. Estamos sorvendo os ares do campo, longe da poluição, do trânsito maluco da cidade e das aporrinhações domésticas. Arranche-se, pegue um pedaço de pau e se algum tatu metido a besta resolver botar a cara perto da barraca, sapeque uma bordoada no cocuruto dele.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Justiça lerda

Cesar Vanucci *

“A justiça atrasada não é justiça.”
(Rui Barbosa)

Garimpei com boa disposição o dicionário à cata de uma palavra suficientemente apta para definir o procedimento do Judiciário diante do “massacre do Carandiru”. Considerei, de princípio, que desídia, irresponsabilidade, uma ou outra, se aprestassem a traduzir razoavelmente a estranhável morosidade, causadora de perplexidade nacional, na realização do julgamento dos “justiceiros” incumbidos de por cobro, a ferro e fogo, à rebelião dos presidiários de 22 anos atrás.

Sem menosprezar a hipótese de que um outro vocábulo se ajuste melhor na descrição do comportamento das autoridades judiciais bandeirantes, fixei-me, ao cabo da pesquisa, na expressão escárnio. A insensibilidade demonstrada na condução do processo, a ponto de tolerar essa tramitação a passo de tartaruga, não deixa de significar um escárnio, um menosprezo solene a respeitáveis postulados jurídicos, aos códigos legais que regem a convivência social, à opinião pública. Que “prerrogativa” é essa de que se arvoram servidores públicos bem remunerados de espicharem a bel prazer, por mais de duas décadas, um julgamento de configuração tão dramática? Mesmo que se aplique à situação a condescendente tese de que a Justiça revele-se sempre lenta na tomada de decisões, há que se reconhecer, nesse episódio em especial, um imperdoável extravasamento de prazo. Nessa marcha, a levar-se em conta os trâmites processuais a serem percorridos após o julgamento, muito tempo ainda irá transcorrer antes que a ação da Justiça com referência ao massacre possa se completar.
A história toda aconselha a que se chame Rui Barbosa para explicar aos juizes encarregados da causa do Carandiru que “a justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta.”

Ainda sobre o massacre do Carandiru um outro registro inevitável. Recolhido ao ostracismo político, o governador de São Paulo à época, Luiz Antônio Fleury, que todos imaginavam estivesse a remoer algum remorso pela notória responsabilidade moral de seu governo diante da selvageria que tingiu de sangue as paredes do presídio, não se pejou, recentemente, em declaração pública, de justificar a ação de seus comandados fardados. Algo deprimente e assustador.

˜ A Petrobras acaba de galgar a invejável posição de vigésima empresa de maior porte do planeta. Isso ocorre no momento em que coloca em execução um plano de investimentos com valores que ultrapassam, como já revelado, o PIB de dezenas e dezenas de países. Nada obstante, nas cotações da Bolsa suas ações continuam atreladas a tímidas performances. Quem está, com toda certeza, capacitado a “decifrar” essa charada são os megaespeculadores e os que almejam, em nome de falsos conceitos liberais, a desestatização da empresa. Uma privatização, bem entendido, ao gosto do mercado. A preço de banana nanica refugada em final de feira dominical de subúrbio. Coisa assim – quem não se recorda? - já aconteceu com outras empresas, num passado não tão distante...
A má vontade em certos círculos influentes com relação à Petrobras, sabe-se lá porque cargas d’água, é notória. Ouço de abonados analistas econômicos críticas acerbas à estatal pelos resultados, por eles considerados insatisfatórios, do balanço correspondente ao primeiro trimestre do ano, dias atrás divulgado. O lucro apurado, nesse curto período, foi de “apenas” 7.7 bilhões de reais... Mas, pera lá, gente boa, se a memória não tá a fim de me trair, esse valor – média de 2 bilhões e 350 milhões por mês – não é, praticamente, igual à soma apurada no leilão de anos atrás que, debaixo de entusiásticos aplausos dos analistas e do chamado mercado financeiro, transferiu todos os colossais ativos da Vale, segunda maior empresa brasileira, maior mineradora do mundo, do patrimônio público para a iniciativa privada? E, então, José?


Entrechoque de Poderes

“Cada qual, na sua esfera de atividade, sem
 invasões indébitas de responsabilidades alheias (...)”
(Alexandre Gonçalves Amaral, saudoso
Arcebispo, sobre a harmonia dos Poderes)

Olhar crítico focado nessa queda de braço do Congresso com o Supremo arrasta o observador atento a desconsoladoras constatações. O Parlamento vem se omitindo, deploravelmente, na discussão dos grandes temas políticos, econômicos e sociais de interesse da Nação. A Suprema Corte volta e meia extrapola os limites de sua competência institucional, ao arvorar-se do direito de também legislar. Representantes dos dois respeitáveis Poderes são surpreendidos, com enervante constância, a exercitar diante das câmaras e microfones insuspeitados pendores para um vedetismo exacerbado, em clara dissonância com a nobre função de que se acham investidos.

Registradas estas considerações, considero oportuno relembrar aqui luminosos conceitos sobre a “encantadora harmonia de poderes diferenciados” expendidos há 50 anos atrás por Alexandre Gonçalves Amaral. O saudoso Arcebispo de Uberaba com a palavra: “A harmonia vital, no conjunto orgânico, depende de que cada órgão vivo se desempenhe de toda a sua missão que lhe é assinalada, mas somente dela. Assim é também no organismo social. Não pretendam os legisladores imiscuir-se em questões atinentes ao Poder Executivo. Não pretendam os agentes executivos invadir o campo da legislação. Não queiram os representantes do Poder Judiciário trasladar para a legislação ou para a execução a sua bela atividade de julgar. Não queiram as Forças Armadas decidir questões dos outros três Poderes. Cada qual, na sua esfera de atividade, sem invasões indébitas de responsabilidades alheias e sem fugas covardes às próprias responsabilidades, concorrerá, serena e eficazmente, para a harmonia do organismo social.”
Simples, assim, meus senhores.

˜ Elevando a Selic em 0,25%, o COPOM cedeu um pouco, não tanto quanto almejado pelos agentes financeiros, às pressões externas. O melhor seria que não tivesse cedido coisa alguma. Os anseios do sistema financeiro são claros: aumento da Selic de forma a ensejar juros sempre maiores nas operações que pratica.
A expectativa de setores do governo é no sentido de que o Copom se atenha a ações comedidas, alinhadas com o pensamento expresso pela Presidenta Dilma Rousseff, quando deixa claro que “jamais voltaremos a ter aqueles juros em que qualquer necessidade de mexida os elevava para 15% porque estavam em 12%.

˜ Inteiro-me, perplexo, de declarações feitas recentemente por dois cartolas influentes do futebol mundial. O presidente da FIFA, Joseph Blatter, e o secretário geral da entidade, Jérome Valcke. Eis o que foi dito pelo primeiro deles: “Fiquei feliz com a vitória da Argentina na Copa do Mundo de 1978, pois houve uma reconciliação do povo com o sistema político militar da época.” A época referida é a da ditadura comandada pelo general Jorge Videla, sentenciado a prisão perpetua pelas atrocidades do regime.
Eis o que foi dito pelo outro manda-chuva esportivo: “Vou dizer algo que é maluco: mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um Chefe de Estado forte, que pode decidir, assim como Vladimir Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós, organizadores, do que para um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis.”
Se ele houvesse mencionado o Brasil ao invés de Alemanha o tamanho da panaquice seria o mesmo. E imaginar que elementos com essa mentalidade obtusa comandam, com força total incontestada, a entidade responsável pela coordenação da atividade esportiva mais incrementada no planeta!
Mode evitar que a dupla continue, pelo menos até a Copa de 2014, a praticar, com atos ou palavras, mais desmandos, aconselha-se aos torcedores de convicção religiosa que invoquem os bons ofícios de Dom Bosco, venerando santo padroeiro do futebol.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG

 


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Terroristas avulsos

Cesar Vanucci *

“As pessoas estão conscientes de que o terrorismo
é uma ameaça real e há muito pouco a fazer para evitá-lo.”
(Brooke Rogers, professora do Departamento de
Estudos de Guerra do King’s College, de Londres)

Quem vê cara, não vê coração. Os dois tresloucados chechenos responsáveis pelo horror da maratona de Boston revalidaram o conhecido ditado. Quem conseguiria imaginar, fitando semblantes quase angelicais, aquele jeitão adolescente dos dois, inteirando-se de seus padrões de conduta na comunidade, que nas profundezas da alma de ambos, naturalmente inacessíveis à percepção das pessoas próximas, pudessem se alojar uma concepção radical tão furibunda sobre a vida e sobre o mundo, uma inclinação fratricida tão desesperada?

A ocorrência de Boston adicionou à crônica terrorista novo e inesperado ingrediente. Impactante tanto quanto qualquer outro. A figura do “terrorista avulso” está entrando em cena atabalhoadamente sem pedido de licença. Desconectado aparentemente das grandes “centrais terroristas”, propõe-se a tocar uma “guerra particular” contra a humanidade. Deixa explícito o desejo de agir solitariamente, seguindo unicamente os ditames de sua mente doentia. Recorre a uma tecnologia de destruição que pode ser tida como artesanal, de fácil confecção.

Arma uma bomba simplória, de efeitos devastadores, na cozinha doméstica. Bota pra fora, preparando-se psicologicamente para a desvairada “missão” ressentimentos acumulados, instintos vis, mórbidos recalques. De repente, dá por concluído um projeto que seja capaz de causar muita dor e desolação.

Cabe, aí, então, ao desvairado guerreiro sem causa lançar-se a campo à cata de uma aglomeração popular, de um evento concorrido. Ajeita-se no meio da multidão, aciona um dispositivo eletrônico banal, mas de efeito letal, dando vaza aos seus instintos de perversidade. Atinge com eficácia o objetivo almejado de espalhar o pavor a varejo.
E a tragédia se consuma, com vidas ceifadas e dilaceradas.

Mesmo não desconhecendo que o terror da guerra possa estimular a guerra do terror, reconhecendo, também, como abomináveis uma e outra coisa, a esmagadora maioria de criaturas que, no cotidiano, cultivam valores de exaltação da dignidade humana ficam apoderadas da maior indignação cada vez que se deparam com essas cenas de dor produzidas pelo terrorismo desalmado.

Boston tornou-se referência cruel, a mais recente, de uma história sinistra. Uma história que passa ao cidadão comum a arrepiante sensação de que, na escalada das diversas variáveis do terrorismo neste mundo endoidecido, poderá haver sempre uma situação inimaginável a encarar. Uma história, portanto, muito difícil de ser enfrentada. Revolta, magoa e deixa sumamente infelizes bilhões de seres humanos.


Você sabe com quem tá falando?

 “Poucas coisas na convivência humana possuem feição tão
assustadora quanto a arrogância dos que se julgam poderosos.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

“Você sabe com quem tá falando?” Taí uma espécie de senha universal, cunhada desde priscas eras, por um tipo de gente deslumbrada com o poder e interessada em traçar, alto e bom som, as prerrogativas de quem manda e as obrigações de quem obedece.

O exercício democrático, a disseminação de conceitos sobre direitos essenciais, a transparência (a cada dia que passa mais reclamada) nas ações de genuíno interesse coletivo contribuem para refrear, de certa maneira, essas demonstrações de prepotência, causadoras de tantos transtornos e injustiças na convivência social. Os temores de exposição pública danosa à imagem pessoal contêm, algumas vezes, os ímpetos de indivíduos com formação mandonista habituados a se fazerem ouvir sem contestações, ou segundo seu egocentrismo, a se fazerem respeitar. Mas, de quando em vez, o controle se lhes pode escapar. Os impulsos afloram e as máscaras das conveniências sociais caem. Em instantes assim, o “você sabe com quem tá falando?” irrompe com fragor de sentença.

Foi o que aconteceu, recentemente, com aquela socialite carioca pega em flagrante num delito de trânsito. Estado de espírito alterado, chamada às falas, usou primeiramente de todo charme de que se sentiu capaz para persuadir os guardas a não enquadrá-la nos conformes da lei. Apelou, ao depois, pra tentativa de suborno. Saindo-se mal na empreitada, bradou triunfalmente, por derradeiro, que sendo rica e poderosa não iria mesmo ser presa, já que cadeia é feita pra pobre e negro. Quebrou a cara. Foi recolhida, com toda sua elegante insolência, ao xilindró. Só logrou a liberdade depois de pagar fiança. Desfrutou ainda do “direito” de ter estampado o rosto bem maquiado por período razoável nas colunas. Não as sociais.

Em seu apreciado programa na Itatiaia, Eduardo Costa relatava, indoutrodia, um episódio interessantíssimo envolvendo personagem familiarizado com essas atrevidas ações intimidatórias nas relações com zelosos agentes da lei. Caso é que o filho de um figurão, flagrado em estado etílico ao volante numa blitz de rua, foi solicitado a apresentar as carteiras de identidade e de habilitação. Fez o que pôde pra sair pela tangente, argumentando, na busca de cumplicidade, ser filho de Secretário de Estado. A cada vez que o policial pedia os documentos, ele respondia, em tom categórico, dando a conversa praticamente por encerrada, com a alegação de ser filho de alguém encastelado no poder. O agente, explicando, cortez e pacientemente, já estar ciente desse seu honroso vínculo familiar, insistia na entrega dos documentos, de conformidade com as exigências legais. O rapaz, não se dando por achado, resolveu elevar o tom de voz ao declinar outra vez mais o parentesco que, em seu bestunto, lhe asseguraria a condição de poder sair incólume, quer dizer impune, da enrascada em que se meteu. A arrogância ganhou tamanha proporção que o agente da lei acabou, como se diz no popular, “queimando no golpe”. Confessando-se injuriado face à intimidação, revelou-se disposto a quebrar conscientemente, naquele momento, quaisquer que viessem a ser as consequências do gesto, o compromisso profissional, religiosamente acatado na carreira, de empregar com moderação a força física no enfrentamento de situações adversas. Substituiu o compromisso pelo prazer de aplicar um sonoro tabefe nas fuças de uma figura tão presunçosa. O sopapo teve sabor de catarse.

Essa historinha traz à tona um outro episódio transcorrido, décadas atrás, nos chamados “anos de chumbo” de tão doloridas recordações. O primogênito de um general reformado “linha dura” foi detido numa operação policial, junto com colegas, por conta de baderna aprontada num bar. Submetido aos interrogatórios de praxe no distrito, invocou na maior das insolências a condição de “filho”, encarando com ar zombeteiro os agentes.

Impactada com a revelação, a autoridade policial considerou de bom alvitre, pelo sim pelo não, confirmar o que lhe estava sendo passado. Ligou para a casa do militar graduado, pediu mil desculpas pelo adiantado da hora e expôs, meio sem graça, o que tinha acontecido. Ouviu do interlocutor, o general, a taxativa declaração de que jamais um filho seu, tendo em vista a sólida formação moral recebida no respeitável ambiente familiar, poderia ser flagrado na situação delituosa narrada. A pessoa recolhida ao xadrez seria, com toda certeza, um impostor.

Pela inominável façanha de tentar passar-se por filho de uma figura tão proeminente e conceituada, o rapaz comeu “o pão que o diabo amassou” em sua passagem pela cadeia. Não fosse pela oportuna intervenção dos irmãos, informados, só horas mais tarde, dos singulares pormenores da história, o “corretivo” que se lhe foi aplicado madrugada afora poderia perfeitamente ter-se estendido, sem choro nem vela, manhã (e, talvez, tarde) adentro.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um ensaio literário

  O LADO MÍSTICO DE GUIMARÃES ROSA


Cesar Vanucci

“Mexendo em velhos papéis,encontrei
um texto precioso de Guimarães Rosa...”
(Luiz de Paula Ferreira, escritor)
Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão, Veredas”, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.
Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar - categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de idéias.
Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes. “O alquimista do coração”: é assim que ele é mostrado em livro do escritor mineiro José Maria Martins. Sua literatura, segundo ainda o escritor citado, é levada a extremos de sutileza e inovação, ampliada “a recantos do mar da existência nunca d’antes explorados”, já que ele “tinha a capacidade de transpor a fronteira que separa o universo das manifestações temporais daquele da casualidade profunda”.
E eis que, agora, de repente, desponta um Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante revelação chega por intermédio de um respeitado intelectual, com apreciável contribuição à causa da cultura. O dileto amigo, Luiz de Paula Ferreira, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas, figura de relevo na cena empresarial. A carta que me envia diz tudo: “Prezado Cesar, Mexendo em velhos papeis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa, publicado há quase 40 anos no “Estado de Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de todos os tempos. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza, estou anexando o texto que é muito rico e merece ser avaliado e divulgado em suas crônicas. Referindo-se ao “Grande Sertão, Veredas”, ele diz: “Quanto ao “Grande Sertão, Veredas”, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito estranhas.” Do amigo, Luiz de Paula Ferreira”.
No artigo em questão, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosissimo que deixa evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que o escritor era, indiscutivelmente, possuidor.
Na sequência, a reprodução desse texto notável.

A confissão de Guimarães

Sua obra suscita mais tentativas de decifração
 do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)
  
Conforme já contado, Guimarães Rosa confessou, 40 anos atrás, em artigo no “Estado de Minas”, reavivado pelo escritor Luiz de Paula Ferreira, seu entranhado envolvimento com fenômenos ligados às percepções extra-sensoriais. Do instigante texto ressalta claro que sua obra literária – obra que “suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor”, segundo Paulo Rónai – foi marcada, desde sempre, por intuições e impulsos mágicos, de nítida configuração parapsicológica, inexplicáveis à luz do conhecimento consolidado.
Mas já é tempo de satisfazer a curiosidade do leitor, a respeito da confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus dons paranormais. O artigo tem por título “Vida – arte – e mais?”.
“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.
No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando em brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.
Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na idéia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado freqüentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

Acontecências paranormais

 “Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”
(Guimarães Rosa, em artigo escrito há 40 anos)

Restou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor aqui reproduzido, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa freqüência, latitudes superiores na captação das energias sutís que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico consolidado.
Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”
Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”. Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntei-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extra-sensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão, Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.
A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.
Não há como negar: as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.

Cartas do médico Guimarães

“Uma pequena preciosidade.”
(José Dias Lara, escritor, estudioso da obra de Guimarães Rosa)
  
Nas três crônicas anteriores – “Guimarães Rosa”, “Confissão de Guimarães” e “Acontecências paranormais” -, andei deitando falação acerca dos insuspeitados, singulares, e, como se viu depois, confessos dons de percepção extrasensorial do genial escritor. As considerações alinhadas se basearam num artigo, de 40 anos atrás, em que o próprio Guima narra suas incríveis experiências nessa enigmática seara. O artigo me foi encaminhado por um grande amigo, o escritor e historiador Luiz de Paula Ferreira, um dos maiores empresários do ramo têxtil da América Latina.
Das crônicas aqui estampadas tomou conhecimento o respeitado homem de letras José Dias Lara, ex-governador do Lions, educador emérito, membro da Academia Mineira de Leonismo, onde ocupa a cadeira que tem Guimarães Rosa como patrono. Estudioso das coisas ligadas ao encantador universo rosiano, Lara detém valiosas informações sobre a vida e a obra do autor de “Grande Sertão, Veredas”. Numa amável correspondência, registra sua surpresa diante do artigo de Guimarães: “O tal artigo, de 40 anos atrás – que desconhecia – talvez seja mais uma das excentricidades do velho Guima, que ele as tinha em bom número”. No desdobramento da mensagem, presenteia-me, conforme suas palavras, com “uma pequena preciosidade”.
Ouçamos de sua própria boca as explicações: “Sabe-se que Guimarães era de falar pouco e escrever muito, particularmente cartas: era um missivista de escol. E isto já fazia, bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos. Ainda era o dr. João, médico em Itaguara, nos idos de 1932; são desse tempo as cartas de que lhe envio algumas cópias – uma pequena preciosidade – uma delas até com uma fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez grande nas letras nacionais.”
O destinatário de todas as cartas, redigidas pela ortografia da época, datadas de 1932, a caligrafia firme e desenvolta, é um senhor de nome Manoel, residente no Mambre, próximo a Itaguara, onde o médico Guimarães Rosa clinicava. Em tom assaz cordial, evidenciando o grau de amizade existente entre os dois, Rosa acompanha o tratamento de pessoa próxima ao companheiro Manoel. Indica procedimentos terapêuticos incluindo aí, até mesmo, receitas médicas caseiras, de uso corrente naqueles tempos. Abaixo a reprodução das duas primeiras cartas-receitas. As outras ficam para depois.
“Itaguara, 22 maio 932  Prezado Manoel,  Abraços, Seguem os apetrechos. Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo da casa o modo de usar os remédios.
Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto. Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo   J. Guimarães Rosa”
“Prezado Manoel  Cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência, porem. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa.!

 Receitas de Rosa


“... aplicar angús quentes no logar da dor.”
(Prescrição do dr. João Guimarães Rosa)
  
Esta crônica ocupa-se de textos inéditos de Guimarães Rosa datados de 1932. Não se trata, já vimos, de escritos literários, mas de mensagens coloquiais, em tom afetuoso, assinadas pelo médico dr. João Guimarães Rosa. Ele exercia a profissão em Itaguara, interior deste imenso país das Geraes. O destinatário, amigo dileto, era o fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político conceituado na região. A fazenda Mambre, citada várias vezes nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara e Itatiaiuçu.
Em carta de 25 de maio de 32, Guima refere-se ao amigo como “um bom enfermeiro e um bom informador” e recomenda à paciente sob seus cuidados “lavagem intestinal” com “água fervida, ou cozimento de rosas”. Este o texto: “Itaguara, 25 de maio de 932  Prezado Manoel, Um abraço apertado. Primeiramente, ardorosos parabens, pois você tem sido um bom enfermeiro e bom informador. Quanto à doente: Deve ir se alimentando com canjas, caldo de frango, mingáu de fubá com leite, café com leite, sopa de macarrão bem cozido, etc, porque a moléstia é demorada e a doente necessita de manter as forças. Mesmo sem appetite, deve insistir. Deve fazer nova lavagem intestinal, com litro de água fervida, ou cozimento de rosas. Vão novos papeis para lavagens vaginaes. A injecção não póde falhar nenhum dia  amanhã póde falhar a informação, só isso. Quando a febre estiver mais alta, a doente deverá tomar um banho morno de corpo todo, enxugando-se bem depois. Os remédios (poções) devem ser tomados sem interrupção, e, terminado o conteúdo dos vidros deve vir o portador para reformal-os. Continue: - Hygiene.... Hygiene.... si fôr possível. Abrace todos os seus em meu nome. Do amigo Guimarães Rosa.”
Na carta seguinte, 29 de maio, expressa muito carinho pelo pessoal da fazenda.
“Distinto Manoel, Gloria! Fico bem satisfeito de saber das melhoras apresentadas pela doente – melhoras devidas em parte aos cuidados enérgicos do amigo, que tem sabido informar-me magnificamente da marcha da moléstia. Si as dores nas pernas continuarem, veja si há alguma novidade no local dolorido (inchação branca e dura), pois pode tratar-se de uma phlebite puerperial. De qualquer maneira, caso a dôr continúe, a doente deverá manter-se em repouso rigorosissimo, podendo applicar angús quentes no logar da dor. No mais, continue, que está bem orientado. Distribua um punhado de abraços entre o pessoal do Mambre, sendo um abraço maior para o seu Chico e um outro para você. Até outra vez. Guimarães Rosa.”
Na missiva posterior (03.06.1932) Guimarães Rosa prescreve uma receita caseira, indicando os ingredientes da manipulação a ser feita.
“Prezadissimo Manoel  Cordiais cumprimentos. Seguem novos remédios para a enferma. É preciso que ella vá se alimentando bem, com as devidas cautelas, naturalmente, para que a causa não desande em vez de andar. Não deixe de mandar informações por mais uns três dias, principalmente temperatura e pulso. Mande fazer diariamente uma lavagem intestinal. E, fallo sem intuito de envaidecel-o, póde você estar certo de que a cura da doente deverá, em grande parte, ser agradecida ao enfermeiro. Pudesse eu ter sempre á mão um auxiliar assim! Quanto á crioula, si você quizer experimentar ainda, póde dar a ella: Uso interno Elatério  -  0,50 .....; Rhuibarbo preto  -  1,0 gr; Estr. de fel de boi  -  qsp para 20 pilulas. Dar 1 de 2/2 horas. Conjuntamente devem ser dadas umas 3 injecções de óleo camphorado. Provavelmente o resultado será bom. Até breve. Abraça por mim a todos os mambrenses, principalmente o velho. Do amigo Guimarães Rosa  Itaguara, 3 de junho de 932.”

Interessantíssima, sem dúvida, essa série de cartas-receitas que o professor José Dias Lara, estudioso da vida e obra de Guimarães Rosa, traz ao conhecimento dos leitores por intermédio deste seu admirador e amigo.

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