sábado, 26 de novembro de 2022

Relembrar JK faz bem ao espírito

 Cesar Vanucci

Juscelino substituiu o vício da dor pela pedagogia do prazer.” (Cacá Diegues, cineasta)

 

 Damos continuidade à série de comentários sobre a vida e obra do saudoso Jk, ao ensejo do transcurso dos 120 anos de seu nascimento. Na Presidência e, depois, na dolorida jornada do exílio, Nonô estabeleceu ligações com personalidades de todos os continentes. Nas palestras realizadas no exterior nunca deixou de proferir palavra otimista a respeito da pátria.

O carismático Nonô foi sempre generoso e conciliador. Converteu em amigos inimigos rancorosos. O caso mais famoso envolve Carlos Lacerda, que veio a ser seu companheiro na “Frente Ampla”, uma tentativa das lideranças de expressão, banidas do jogo político pela ditadura de 64, de devolverem a democracia ao Brasil. Estas palavras, retrato perfeito, sem retoque, de JK, pertencem a Lacerda: “Esse homem de paz era um combatente. Porque era um verdadeiro renovador, era também generoso. No horror à vingança, à mesquinharia, à mediocridade, fundou sua atitude diante da vida”.

 Faz bem ao espírito e ao coração relembrar JK. Recordar os tempos em que ele gerenciava os negócios públicos em nosso país. Tempos bastante diferentes dos de hoje. O Brasil tem andado triste. De tempos a essa parte não tem conseguido retomar por ausência de iniciativas e projetos, o almejado desenvolvimento econômico com seus benfazejos desdobramentos sociais a que faz por merecer. Na era jusceliniana, havia esperança, alegria, otimismo. Em todos os cantos eram avistados canteiros de obras anunciando o progresso, trazendo empregos à mancheia.

 Outro episodio que marca bem a personalidade invulgar de JK é descrito por seu biografo Claudio Bojunga. Foi quando Foster Dulles, expoente da chamada “linha dura” veio ao Brasil. O Secretário de Estado americano tinha dificuldades para entender os latinos e direcionava obsessivamente seu trabalho no combate ao “comunismo ateu”. Nos encontros com Juscelino Dulles já havia proposto nove fórmulas, todas recusadas pelo Presidente, para uma declaração conjunta. Insistia num documento que utilizasse surrados jargões da “guerra fria”. JK considerou as ponderações fora de propósito. O documento, insistia, deveria conter essencialmente um compromisso com o desenvolvimento e a prosperidade social. A nota final não incluiu as propostas do Secretário. JK reagiu ainda à arrogância de Dulles, que queria assinar a declaração, mesmo sendo funcionário de escalão inferior, juntamente com o Presidente do Brasil. A conduta altiva não desestimulou Dulles de reconhecer que “o Presidente do Brasil trata o desenvolvimento com a fé dos místicos.”

Desfrutando de enorme simpatia popular, JK foi pressionado politicamente a promover reforma constitucional que lhe garantisse novo mandato. Desfez, de forma categórica, a possibilidade.

Sua eleição para outros mandatos era tida como líquida e certa. Os acontecimentos posteriores, retirando o Brasil dos trilhos da democracia, alvejaram-no inclementemente. Teve o mandato cassado quando representava Goiás no Senado. O último discurso como parlamentar é uma obra prima de afirmação democrática e de crença nos valores nacionais. Injuriaram-no, impuseram-lhe humilhações. Fizeram de um tudo para calar-lhe a voz, numa tentativa de diminuir a importância de seu incomparável papel no teatro da história. Tudo embalde. “De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos. Juscelino estará na memória das gerações porque sua aventura vital foi extraordinária!” Palavras de um adversário em tempos idos, Afonso Arinos.

 Quando JK morreu, num acidente que suscitou muitos questionamentos, a Nação inteira parou para dar adeus ao seu filho dileto, estadista de escol, um cara bom de voto e bom de obras. “Deus pegou um século e pôs a maior parte dele no colo do Nonô de Diamantina”, registrou, liricamente, o jornalista David Nasser.

 

                                                               Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

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