quinta-feira, 8 de novembro de 2018


Amulmig recepciona Raquel Vilela 


Cesar Vanucci

“A bússola que sempre norteou os caminhos de Rubem Alves chama-se inquietação amorosa.”
(Acadêmica Raquel Vilela, ao tomar posse na Amulmig)


O ingresso de alguém afeiçoado ao ofício das letras numa instituição com as características da Amulmig há que ser visto como um ato sacramental. Foi o que assinalei no pronunciamento feito por ocasião da assembleia festiva, altamente prestigiada, com a qual a entidade recepcionou Raquel Virginia Rocha Vilela em seus quadros.

Médica, educadora, pesquisadora científica, dirigente de um núcleo de pós-graduação médica que atua em Minas e São Paulo, a nova acadêmica, que escolheu o escritor Rubem Alves como patrono, ganhou notabilidade na cena literária como autora de livros em prosa e verso para crianças e adultos. “Seus livros carregam, além da magia da leitura, a magia da caridade”. Estas palavras foram pronunciadas pela acadêmica Maria Armanda Capelão Ferreira na saudação à empossada, ao explicar que a arrecadação com as vendas das publicações é sempre destinada a obras assistenciais, de modo geral hospitalares. Maria Armanda recorreu ainda à “Parábola do Semeador” ao focalizar o itinerário profissional, social e cultural de Raquel. “Raquel é essa terra onde as sementes se desenvolvem produzindo frutos cem por um”, registrou. Frutos de sabedoria colhidos nas atividades desenvolvidas no Instituto Superior de Medicina, que presta atendimento gratuito a pacientes nos setores de dermatologia, psiquiatria e endocrinologia. Frutos de bondade na acolhida proporcionada a crianças na oncologia pediátrica. Frutos de caridade, como professora, orientadora de teses da área de doenças infecciosas, como pesquisadora em universidades no Brasil e no exterior, nos campos da biologia molecular, microbiologia clínica ocular e lesões faciais.
A acadêmica Maria Inês Chaves de Andrade, que conduziu o cerimonial literário da sessão de posse, sublinhou, por sua vez,  que em Raquel prevalece “a tessitura entre a cientista, a médica e a escritora, entremeadas por uma espiritualidade inquestionável, em moldura de mulher linda.” Reportando-se à ação cultural da escritora, Maria Inês anotou ainda: “Alienação da essência humana procedida em Deus desaparece quando Raquel Vilela assume-se filha Dele e imagem e semelhança providencia a acolhida do Outro através de suas histórias na dimensão que pode. Brinca que foi princesa Izabel noutra vida, pois, crenças à parte, de fato que a moça tem é essa certeza imensa de que sempre laborou pela liberdade, a liberdade enquanto valor e de todas as formas, a liberdade pela qual luta esta princesa Raquel nesta vida, para libertar os que se encontram sob o jugo da doença e da angústia, na senzala do desespero”.

Em sua manifestação, a acadêmica empossada registrou que a escolha do patrono, mineiro natural de Boa Esperança, decorreu da circunstância de se identificar com seus escritos, “talvez porque nós dois nascemos em cidades abraçadas por belíssimas serras, eu, a Serra do Curral Del Rei, e ele, a Serra da Boa Esperança.” Reportando-se às atividades do patrono como pastor evangélico, ressaltou que “a influência religiosa em sua vida sempre foi muito forte” e que ele “muitas vezes sentiu-se tolhido pela doutrina adotada na igreja a qual pertencia.” Frisou: “Sempre foi muito criticado por seus pares, pois demonstrava nos sermões inconformismo mediante várias questões religiosas. Especialmente, no tocante à visão de Deus, pois a visão interpretativa apreciada (...) era de um Deus com postura punitiva e que exigia dos fiéis algumas barganhas para instituição de graça divina.” Citou também a punição que Rubem Alves recebeu de seus superiores, que o exoneraram da função de pastor, por conta de um sermão no qual “ele revelava a importância de nunca abandonarmos nosso lado criança”. Depois de aludir ao papel desempenhado pelo patrono na propagação da chamada Teologia da Libertação, e de sua ligação com Leonardo Boff e Frei Beto, afirmou que “a bússola que sempre norteou os caminhos de Rubem Alves chama-se inquietação amorosa”. “Em todos os seus textos é possível identificar amor pelo belo, intimidade com Deus, espírito livre e apaixonado pela educação, encantamento pelo novo, por tudo aquilo que leva o homem a ter uma atitude flexível e transformadora na formação de um ser moral.” No arremate de sua fala, Raquel Vilela pediu as bênçãos de Francisco de Assis, patrono da Amulmig, para orientar suas ações como acadêmica. “Fazendo uso da simplicidade de gestos, clareza de pensamento”, assumiu o compromisso de colaborar com a instituição ancorada na fé, acreditando “que através da literatura poderei contribuir para meu crescimento próprio e também para a construção de uma sociedade mais justa.”
A assembleia de posse na Amulmig representou, sem dúvida, um momento de realce na crônica cultural mineira.








POSSE DE NOVA ACADÊMICA NA AMULMIG

Os pronunciamentos que se seguem foram feitos na sessão solene de recepção realizada na Amulmig, aludida no artigo de abertura do"Blog".

Discurso de saudação da Acadêmica Maria Armanda Capelão


Parábola do Semeador (Mc 4,3-8). Eis que o semeador saiu para semear. Ora, enquanto semeava, parte caiu a beira do caminho; vieram os pássaros e comeram tudo. Parte caiu também num lugar pedregoso, onde não havia muita terra; logo germinou porque não havia terra profunda; quando o sol se levantou, foi queimada e, por lhe faltarem raízes, secou. Parte também caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e ela não deu fruto. Outros grãos caíram em terra boa e, crescendo e desenvolvendo-se, produziram fruto, e renderam trinta por um, sessenta por um, cem... Raquel é essa terra onde as sementes se desenvolvem produzindo frutos cem por um...
Frutos de Sabedoria no planejamento, construção e funcionamento do Instituto Superior de Medicina (ISMD) em 2006, onde Raquel além de dona proprietária é professora encantando não só com sua competência como também com a sabedoria na condução e orientação pedagógica e como diretora da unidade de São Paulo. O ISMD é um núcleo de Pós- graduação da Faculdade de Ciências Medicas de Minas Gerais. Raquel é professora da Pós- graduação desta faculdade. O ISMD é um Instituto que atende gratuitamente pacientes (demanda reprimida do sistema único de saúde), nas áreas de Dermatologia, Psiquiatria e endocrinologia. Hoje conta com duas unidades, uma em Belo Horizonte e outra em São Paulo capital.
Frutos de Bondade no acolher tantas e tantas crianças sedentas de abraços, caricias e principalmente da ternura de um colinho como acontece no Hospital da Baleia, na oncologia pediátrica e na radioterapia. Graduada em Medicina pela Universidade  Vale do rio verde de Três Corações, e com um coração repleto de amor, Raquel  cuida do corpo e da alma de  pequeninos grandes  e grandes pequeninos que sempre a cercam com sede de ternura e alivio.
Frutos de Caridade na Universidade Federal de Minas Gerais onde é Professora e Orientadora de teses na área de doenças infecciosas na UFMG, como pesquisadora, desenvolve projetos em associação com a Universidade do Estado de Michigan,  e com o instituto Lauro de Souza Lima, na cidade de Bauru, São Paulo.
Raquel tem Doutorado e Mestrado em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais onde também se graduou em Farmácia e Bioquímica.
Frutos de paciente disponibilidade na Universidade do Estado de Michigan, dos  Estados Unidos onde, sem esse Divino fruto, não teria condições de desenvolver, com tanta eficiência, a função de professora e pesquisadora, nas áreas de Biologia Molecular.
 Raquel é pós-doutora em Ciências Biológicas e Ciências da Saúde pela Universidade do Estado de Michigan e um dos seus focos de pesquisa são as microbactérias resistentes a novos antibióticos.
Paciente disponibilidade é realmente o Fruto Mestre tão necessário nessa e noutras áreas de pesquisa a que Raquel se dedica como  micologia medica, microbiologia clinica ocular e hanseníase, e mais recentemente criou uma linha de pesquisa, junto com a Universidade do Estado de São Paulo (USP), em próteses faciais 3D, para pacientes com lesões faciais.
E esse terreno profissional maravilhosamente abençoado chamado Raquel Vilela continua produzindo frutos que palavras não dizem, palavras não contam, sentem-se... Vivem-se...
Na literatura caminha a passos largos como Escritora para crianças e adultos em prosa e poesia. Seus livros carregam além da magia na leitura a magica da caridade pois toda a arrecadação, com sua venda, é destinada a obras de caridade. Geralmente em hospitais... Foi assim  com o "SORRISO DO JOÃO" com  " A LUA TEM MESMO QUATRO FACES", " PERENE"  com  "A LEVEZA QUE A VIDA TEM E O AVC"  assim aconteceu com o valor arrecadado com a venda  de " UM SONHO CARECA" da mesma forma aconteceu com " A HISTORIA DE LUCAS"  este escrito pela incrível dupla Raquel Vilela e Rosanne Von Spperling e ilustrado com maestria pela Iara Rachid e do qual posso dizer: LUCAS... Olhinhos vivos, atentos. Alma de gigante repleta de indagações confiantes, de certezas..."sabia que você vinha". de desafios "viu como sei nadar?" de necessidades, de limitações, de sonhos, de fantasias e percepções encantando as autoras que de uma forma muito especial e concreta construíram magistralmente, qual arquitetas de vida, em palavras uma "tarde vida" vivida ao lado de LUCAS numa piscina, num terno acariciar de mergulhos, braçadas e sonhos...É maravilhoso saber ler e escrever VIDA da forma como a que pulsa nas páginas do livro e que antes gritou silenciosamente no coração e na alma das autoras, florescendo como que, num delicioso acalanto de amor.

“A HISTÓRIA DE LUCAS”.
E esse terreno abençoado continua produzindo frutos com o seu “O MUNDO DOS PERDIDOS E ACHADOS” e mais recente lançamento.
Mas os mais belos frutos dos abençoados terrenos Raquel e Rubens, Raquel Virgínia Rocha Vilela e Rubens Costa Vilela são suas filhas. Sem dúvida são suas filhas: Luiza, Priscila, Gabriela e Camila Rocha Vilela.
São sem dúvida repito, os mais belos e preciosos frutos com o que esse abençoado terreno nos presenteou.

Raquel Virgínia Rocha Vilela. Casa de São Francisco agora, também é sua. Entre, entre. Seja bem vinda!”


Manifestação da Acadêmica Maria Inês Chaves de Andrade

“Sejam bem-vindos! É com muito carinho que os recebemos na casa de São Francisco de Assis, nesta data solene e festiva de seis de Outubro de 2018, em que a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais se reúne em seção de posse para receber, em seu elenco de acadêmicos, a Neo Acadêmica Raquel Virgínia Rocha Vilela.
Em cenário literário e, por isso mesmo, “porque hoje é sábado”, Raquel Vilela exsurge enquanto autora de uma história que a tem por personagem principal, sob um roteiro denso que a apresenta, objetivamente, dando-nos a saber da profissional competente e titulada, de cuja aridez curricular, deflui, atestada por inquestionável, sua sensibilidade de mulher fora de série. 
Casada com Rubens Costa Vilela, oftalmologista, com ele teve quatro filhas: Luíza, Priscila, Gabriela e Camila, todas médicas, permitindo-me Camila aqui pensar sua odontologia sob o léxico lusitano para dizê-la medicina dentária. Neste momento, delicadamente, ao Dr. Rubens peço licença para pontuar a graça que mereceu, seja por bênção e alegria, quando, ao cuidar de olhos que veem, mereceu olhos que enxergam e identificou Raquel Virgínia Rocha, esta mesma tornada Vilela por amor. Quem nasceu Rubens experimenta mesmo de todo plúrimo do bem!
Agora, convém-me contar-lhes fofoca de prefácio, na lavra de Natalina Jardim, que suspeitou de Raquel da seguinte forma: “Leva-nos a crer que traz para o texto passagens ricas de sua feliz infância”. Na verdade, denunciara Natalina Jardim a criança interior de Raquel, de coração, intacta, brincando maturidades sobre temas caros, tanto preço não tenham. E quase posso dizer, depois de ter sabido muito, que esta menina-mulher mora em Belo Horizonte, exatamente, para certificar-nos de que o horizonte pode mesmo ser belo, bastante seu ponto de vista, mesmo quando o mirante estiver completamente nebuloso.
Por isso, dizem que a Baleia retornada de Nínive virou Hospital para tê-la em si feito Jonas – possam anjos dele se insinuarem pelas mesmas letras – tenha Deus lhe dado a missão inarredável de curar os meninos e as “Minas” Gerais.
A tessitura entre a cientista, a médica e a escritora, entremeadas por uma espiritualidade inquestionável, em moldura de mulher linda, em Raquel Vilela providenciaram um ser humano em toda dimensão que há para dizê-lo humano, sendo.  Ora, ao estudar Heidegger que indagara o sentido do ser do ente porquanto o “ser é sempre ser de um ente” compreendeu-se que era preciso, muito preciso que nos voltássemos à interpretação de nós mesmos se nos quiséssemos desocultar – porque ser e ao mesmo tempo não ser, não pode ser – esse simol non esse, esse non potest; o mesmo que se dizer ser humano e ao mesmo tempo não sendo humano, não pode ser, vez que o homem é o ente, o que existe e que revela o ser através do logos, que amadurece num processo histórico motivado pela questão que assola a humanidade desde sempre: quem somos!?
Pois, Raquel Vilela sabe que é um ser humano. Caiba a esta Academia entregar-se ao texto vivo dela, a interpretação deflui lógica e o apontamento que se adianta é que sua aparência é um sinal de sua essência, quando a hermenêutica dá-se a revelar, então, uma essência rescendente de humanidade sob delicadezas que, como verdade, se torna certeza na consciência. Veja-se. A partir do pensamento analítico abstrato, dividindo a realidade em essência e aparência, apresenta-se Raquel Vilela enquanto ser humano e mulher. É então que o pensamento dialético compreensivo achega-se para revelar essa sua essência humana no momento da totalidade, quando enquanto mulher coloca seu fundamento em si mesma e não em outro, fosse atribuir a Deus as qualidades que a si pertencem e que ostenta na própria confecção de si como imagem e semelhança do que aspira em fé e teologia, o Ser plenamente Humano que a assiste sendo. E o faz através de suas obras, lembram-se?! Fé com obras. Trata-se de roteiros de amor efetivo, ela personagem principal, com coadjuvantes que se revelam ao Oscar e figurantes reconhecidos como heróis, tanto recepcione cada um em sua singularidade para tomá-lo por único. Faz AVC ser leve, carequice ser sonho e câncer, caranguejo, tanto astral lhe impute a astrologia, dando sempre a escancarar alegrias imensas de cada tristeza ensimesmada, quase tivesse sido sua carta natal escrita por Papai Noel.
A alienação da essência humana procedida em Deus desaparece quando Raquel Vilela assume-se filha Dele e imagem e semelhança providencia a acolhida do Outro através de suas histórias, na dimensão que pode. Brinca que foi Princesa Izabel noutra vida. Pois, crenças à parte, de fato o que a moça tem é essa certeza imensa de que sempre laborou pela liberdade, a liberdade enquanto valor e de todas as formas, a liberdade pela qual luta esta Princesa Raquel nesta vida, para libertar os que se encontram sob o jugo da doença e da angústia, na senzala do desespero.
Sabe-se que a alienação é um risco mesmo do processo de interpretação dado que “o ser torna exterior a si o que está nele e constitui sua essência”, considerando-a realidade diversa, quando a entifica, na separação entre essência e aparência. Raquel Vilela não o faz. A interpretação que oferece de si é a de uma escritora sobrecarregada espiritualmente pelo compromisso de sê-lo, tanto se sabe, da forma como se queira, literária e humanamente, segura do Verbo e da Palavra, que assume com caneta, abraço, oração e bisturi.
Em Raquel, a ação de ser humano encontra o sujeito que age com este propósito, quando, em sua ligação com Deus, a intransitividade revela - como desvela - o ser humano a partir do bicho-homem.”


Palavra de Raquel Vilela

“Cumprimento os componentes à mesa, nosso Ilustríssimo presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, César Pereira Vanucci e a Ilustríssima Acadêmica Maria Armanda Capelão que fará a saudação. A mestre de cerimônia Maria Inês Chaves. Agradeço a presença das Presidentes eméritas da AFEMIL e da Academia Mineira de Letras Elizabeth Rennó. Demais autoridades aqui presentes. Agradeço a presença dos amigos da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais., e aos amigos da FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Agradeço a presença de meu marido Rubens Vilela, minhas filhas, Luiza, Priscila, Gabriella, Camila e meus Genros Daniel, Bruno, Felipe e Leonardo.
Espero não ter sido injusta deixando de partilhar a alegria deste encontro sendo traída por algum esquecimento. Estou feliz com a presença de todos que vieram participar comigo da alegria e emoção desta memorável data de minha posse. É uma honra.
Hoje está fazendo uma belíssima manhã de primavera, e com ela a proclamação da chegada das flores, estação fecunda que vem trazendo a promessa de dias alegres e iluminados pelas belíssimas cores, que explodem primeiro um botão e depois pura poesia.
Esta pequena descrição da primavera faz-me recordar a mitologia Grega que lança mão do mito para explicar, a diferença entre as estações do ano. A lenda de “Deméter” (deusa da fertilidade do solo) e sua filha “Perséfone” cujo pai era Zeus, “deus dos deuses”.
Perséfone era considerada uma das mulheres mais lindas. A cada dia que passava a sua beleza era mais irradiante e exalava perfume no ar, e este produzia um encantamento divino em todos o que tinham o prazer de ficar em sua presença.
Conta-se que Hades (deus do mundo subterrâneo, “inferno”), buscando encontrar uma esposa, deslumbrou-se ao ver Perséfone, e sua paixão foi tão arrasadora que ele resolveu rapta-la.
Foi então que, Deméter, mãe de Perséfone, saiu a procura de sua filha tanto no Olimpo, quanto na Terra. Por não achar sua filha, Deméter ficou irada e muito triste, e tais sentimentos teriam causado uma seca prolongada na terra, já que ela era a deusa da fertilidade do solo, ás vezes ela chorava copiosamente e como resultado, proporcionava longas enchentes.
Para acalmá-la, Zeus resolveu intervir e fez um trato com seu irmão Hades: Perséfone teria que passar seis meses do ano ao lado de Hades no mundo subterrâneo, e os outros seis ela estaria “liberada” para passar ao lado da mãe.
Sendo assim, o período em que Perséfone estaria ao lado de Hades, sua mãe ficaria muito triste, e como resultado de sua melancolia, as folhas das árvores cairiam e a natureza reagiria com a chegada do outono, com o passar do tempo a saudade da mãe aumentaria, e o vento então sopraria mais forte, e a neve e o frio tomaria conta de tudo era a chegada do inverno.
Porém, os seis meses vindouros quando Hades trazia de volta a bela Perséfone, o mundo se encheria de cores, e tudo se tornaria fecundo, as flores desabrochariam para enfeitar a terra onde Perséfone, iria passar, surgindo assim a primavera, e seguir-se-ia o verão, estação que aqueceria todos os corações da terra, e sua mãe Deméter, sorria feliz novamente.
Desde os princípios do tempo datado dos séculos V antes de Cristo, o Homem almeja explicações para fenômenos observados na natureza, procurando conjugá-los ao comportamento humano.  Fico imaginando que muitos de vocês devem estar pensando, porque ela está falando de mitologia grega...? Para fazer um breve preâmbulo, que configura a essência humana de criamos histórias ou estórias que se mesclam com a nossa identidade e ditamos um pouco de quem somos nós.
Fui uma criança livre, feliz tive uma infância modesta, mas rica em alegria e amor, o tempo parecia ser sempre pouco para mim, pois as ideias fantasiosas que criava em meu pequeno mundo, pareciam não caber nele. O cenário deste mundo era o terreiro de minha casa... muita tinta, muitas escadas... e areia. Tudo que uma criança precisa para criar e brincar durante todo dia.
Nasci cercada de montanhas da famosa Serra Del´Rei, ou melhor Serra do Curral, no familiar Bairro Floresta. A minha casa foi a primeira da rua ainda de chão batido, e bem a frente desta rua era um enorme matagal, excelente para uma cabeça criativa, ver todos os fantasmas. Do outro lado da rua, era um despenhadeiro, e lá baixo, se construiria mais tarde, os dois Túneis de Belo Horizonte (Túnel da Lagoinha, e Tancredo Neves), onde antes existia um campo de futebol, que se chamava Campo do Galena, lugar onde eu acostumava descer para brincar. Na primavera, tempos de Perséfone, o campo se enchia de uma florzinha, uma margaridinha de cor laranja intensa, era o anúncio da primavera.
Eu também vivi para ver e brincar em meio à natureza porque sou da época das Tanajuras... e a meninada ficava louca. É... sou natural das Minas Gerais e nasci na cidade de Belo Horizonte, casula de 10 irmãos, fui a única que nasci em um hospital, na época maternidade São Lucas.   Belo Horizonte...
Morar entre montanhas... acho que aguça nosso sensu comum poético. Primeiro que a montanha sempre nos convida a subir, e lá de cima mirar o mundo sob outra perspectiva. Além disso, a caminhada até o topo é sempre um apelo reflexivo, que nos transporta com o sentimento de que não é apenas chegar no topo e ver com outros olhos, mas descobrir o que esta caminhada te ensinou até você chegar aí. Pensar em Belo Horizonte é sempre uma bela cena que se abre.
Hoje quando olhamos para trás vislumbramos o que antes era apenas um arraial, com o passar dos anos, observou-se um crescimento do então vilarejo, que começa mostrar os primeiros contornos de uma pequena cidade. A princípio este é um processo muito óbvio na instituição de qualquer cidade. Porém, de forma despercebida esquecemo-nos dos anseios que foram almejados quando tudo começou, quantas aspirações foram aí depositadas, quantos medos e adversidades foram enfrentados para que esse progresso fosse alcançado.
Toda cidade divide um pouco desta verdade, são construídas de sonhos. Cria-se primeiro o cenário, depois os atores entram em cena e assim começa o processo histórico, que perpetua através do tempo, envolvidos pelas conjecturas do momento histórico. O tempo vai modelando os acontecimentos e de repente existe ali, exatamente neste lugar, neste arraial, nesta cidade várias biografias para contar, como Maria Clara Machado escritora e dramaturga brasileira famosa por suas peças infantis, Fernando Tavares Sabino escritor e jornalista, Hélio Pelegrino médico e poeta, Elizabeth Rennó primeira mulher a ocupar a presidência da Academia Mineira de Letras e seu legado bibliográfico enriquecedor, Maria Armanda Capelão escritora de mais de 30 livros infantis e detentora de vida rica e gloriosa e muitos outros grandes personagens que contribuem com o processo histórico de nossa cidade, mesmo que não sejam naturais desta, mas que a tenha escolhido para instituir parte da construção de sua vida. Afinal, Lar é o local que escolhemos para depositar parte de nossas esperanças, vivências e experiências humanas.  
A história desta cidade se mescla com a coragem de desbravadores bandeirantes.  João Leite da Silva Ortiz, foi um bandeirante que chegou até a Serra de Congonhas na corrida para encontrar minas de ouro. Encantado pela beleza destas serras João Ortiz, apesar de não ter encontrado o tão sonhado ouro, estabeleceu-se neste lugar que passou a se chamar Arraial do Curral del Rei.
A cidade de Belo Horizonte foi escolhida em 1893, no início do século XIX, para ser a capital do Estado de Minas Gerais, após averiguação de que a capital, Ouro Preto, não oferecia estrutura para expansão urbana devido seu relevo acidentado. Por essas razões, Belo Horizonte foi escolhida pela localização privilegiada, zona da Mata, e também pelo relevo e clima favoráveis, sendo assim a cidade foi totalmente planejada no modelo de vanguarda urbano da época
A década de 40 do século XX foi marcada pelo avanço da industrialização. Nessa época foi inaugurado o Complexo Arquitetônico da Pampulha (composto pela Igreja de São Francisco de Assis, o Iate Tênis Clube, a Casa do Baile e o Cassino, hoje Museu de Arte da Pampulha, circundando a Lagoa da Pampulha), encomendado pelo prefeito em exercício Juscelino Kubitschek, com projeto assinado por Oscar Niemeyer, paisagismos de Roberto Burle Marx, com painéis de Candido Portinari, e as esculturas de Alfredo Cesshiatti e José Pedrosa.
Nos anos 60 e 70 a capital passou por um processo acelerado de crescimento urbano que avançou sobre suas ruas, quando foram demolidas casas e áreas verdes e ergueram-se altos prédios, em um processo de descaracterização da "Cidade-Jardim".
A partir dos anos 80, a desaceleração econômica prevaleceu e os movimentos sociais urbanos organizavam-se para reivindicar direitos urbanos básicos, como transporte público, atendimento médico e acesso à educação. A partir do início da década de 90, Belo Horizonte é marcada por programas e projetos de melhorias urbanas e sociais, com a efetiva participação popular, fazendo Belo Horizonte chegar ao século XXI com quase 2,5 milhões de habitantes distribuídos em seus 331 km².
Eu sou da época de tradições e também dos anos Dourados de Belo Horizonte. Como é citado no livro da autora Marilene Guzella Lemos, intitulado “ Belo Horizonte, Nos anos Dourados”,  eu também me recordo do famoso café Pérola, das lojas Grande Camiseiro, Do Bico das Canetas, Lojas Brasileiras, Mesbla, Embrava, Inglesa Levi, Casa Sloper, Perfumaria Lourdes, dentre outras. Como a própria Marilene diz: “Os Anos Dourados foram Tempos de paz”, mas o seu lugar na história não é marcado por páginas em branco. Sobre eles existem muita coisa para contar”. 
Belo Horizonte é uma cidade sonho, assim como a maioria das cidades, e como diz Machado de Assis no ano de 1900:  “ Um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça...” Portanto, continuemos a sonhar a nossa Belo Horizonte.
Escolhi como Patrono da cadeira de número 334 um Mineiro natural da Bela cidade de Boa Esperança, sempre me identifiquei com sua escrita, talvez porque nós dois nascemos em cidades abraçadas por belíssimas Serras, eu a Serra do Curral Del Rei, e ele da Serra da Boa esperança. Falar de Rubem Alves para mim não é uma tarefa árdua, no tocante a sua complexa personalidade, eu jamais conseguiria alcançar todas elas realizando análises profundas, mas quando penso em Rubem Alves, sempre faço um paralelo com uma criatura alada, de mente desprendida de convenções, um lutador de si mesmo. Como diz Kierkegaard (...) Mas o voo nos faz lembrar os seres emancipados das condições Telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...”
Rubem Alves é natural de Boa Esperança Minas Geral, escritor pedagogo, poeta e filósofo de temas variados, cronista do cotidiano, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros e psicanalista. Ele é considerado um dos intelectuais mais famosos e respeitados do Brasil. Autor de vastíssima obra, já publicou textos sobre educação, meditações teológicas, crônicas e estórias infantis. Foi membro da academia Campinense de Letras, professor emérito da Unicamp e cidadão honorário de Campinas.
Menino criado nas Minas Gerais, cercado pelas serras da bela cidade de Boa Esperança, sempre demonstrou desde cedo seu fascínio pela leitura. Ele foi uma criança tímida e seus pais se mudaram para a cidade do Rio de Janeiro, quando ele era ainda criança. Filhos de pais evangélicos, ele seguiu a tradição familiar estudando teologia e se tornou Pastor evangélico da igreja Presbiteriana do Brasil. A influência religiosa em sua vida sempre foi muito forte, e por muitas vezes sentiu-se tolhido pela doutrina adotada pela igreja a qual pertencia. Sua vibrante capacidade de pensar e de fazer questionamentos profundos aos dogmas adotados pela sua crença religiosa despertou crescentes conflitos por parte da cúpula que regia sua igreja. Sempre foi muito criticado por seus pares, pois demonstrava em seus sermões, seu inconformismo mediante as várias questões religiosas. Especialmente, no tocante da visão de Deus, pois a visão interpretativa que era apreciada pela formação presbiteriana, era de um Deus com postura punitiva, e que exigia dos fieis algumas barganhas para a instituição da Graça divina.  Como a direção da igreja começou a sentir-se ameaçada por suas ideias, resolveu após algumas advertências, incluindo proibição de alguns sermões, exonera-lo da igreja presbiteriana, como punição a um sermão, no qual, ele revelava a importância de nunca abandonarmos o nosso lado criança.
Rubem Alves tem um papel crucial na Teologia da Libertação, e nesta época começou a reunir, com Frei Beto, e Leonardo Boff. A sua veia literária infantil estava apenas começando...
Ele casou-se, ainda jovem, como pastor e teve três filhos dois homens, e uma temporona. A esta filha que deu-lhe o nome de Raquel.
Raquel teve uma importância fundamental na longa fase da literatura infantil de Rubem Alves. Nascida com uma deformidade de fissura labial, com alterações morfológicas importantes que comprometiam face, foi submetida a muitas cirurgias reparatórias. Este fato, o transportou para uma fase de profundos questionamentos, sobre o sofrimento humano. Sendo assim, muitas vezes em seus livros ele deixa expressar um sentimento de culpabilidade pela deformidade de sua filha. Era como se ele tivesse agora acreditando em um Deus punitivo, a mesma visão de Deus que ele tantas vezes questionará por não aceitar, agora o atormentava. A forma que ele encontrou para trabalhar com este conflito, foi começar a escrever histórias infantis que pudessem ajudar a sua filha a enfrentar seus desafios. Desafios estes que eram pautados tanto pelo tratamento da alteração anatômica em si, como aqueles de lidar com as distorções da sociedade, e ao lidar com o que era diferente, levando em consideração aos inúmeros constrangimentos que ele enfrentou com ela em locais públicos.
Rubem Alves tinha um caso de amor com a vida, esta é a frase que ele escolheu para que escrevesse em sua lápide. No livro “Arquivos Literários” da nossa querida Elizabeth Rennó, em um de seus prefácios dedicado a José Afrânio Moreira Duarte, ela começa sua apresentação com a seguinte frase. “A bússola que sempre norteou os caminhos de José Afrânio Moreira Duarte, chama-se solidariedade.” Ousando-me a parafrasear a referida autora eu assim escreveria.
A Bussola que sempre norteou os caminhos de Rubem Alves, chama-se inquietação amorosa...” pois em todos os seus textos é possível identificar, seu amor pelo belo, sua intimidade com Deus, seu espírito livre e apaixonado pela educação, seu encantamento pelo novo, por tudo aquilo que leva o homem  a ter uma atitude reflexiva e transformadora na formação de um ser moral .
O Que Rubem Alves tinha era um modo de ver as coisas diferentes. O modo como os poetas vêm e são convidados a descreverem com palavras, a bela imagem que lhes ressaltou aos olhos. Este modo diferente de ver as coisas simples do cotidiano e ofuscá-las com detalhes sensíveis, e a facilidade com que abordava temas difíceis que permeiam a vida de todo ser humano com simplicidade e autenticidade, é que fez de Rubem quem ele foi e sempre será para seus leitores.
Para exemplificar e deixar o aroma no ar deste grande escritor lerei parte de seu livro. “Anotações essenciais”  de Rubem Alves.
(...)Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer...(...)

(...) Amor é bibelô de louça. Ciúme é a consciência de que o objeto amado não é posse: bibelôs quebram fácil. Por isso, o amor dói, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo...(...)
Poesia
A poesia não é uma expressão do ser do poeta.
A poesia é uma expressão do não ser do poeta.
O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.
Escrevo para me completar.
Minha escritura é o pedaço arrancado de mim.
Escrevo porque tenho sede e não sou água.
Sou pote.
A poesia é água.
O pote é um pedaço de não ser, cercado de argila por todos os lados, menos um.
O pote é útil, porque ele é um vazio, que se pode carregar.
Nesse vazio, que não mata a sede de ninguém, pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede.
Poeta é pote. Poesia é água. Pote não se parece com água. Poeta não se parece com poesia.
O pote contém a água. No corpo do poeta estão as nascentes da poesia...

Hoje eu tenho a honra de ocupar a cadeira de número 334 da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais AMULMIG, peço as bênçãos de São Francisco de Assis para colaborar com esta casa, fazendo o uso da simplicidade de gestos, clareza de pensamento, ancorar-me na fé, e acreditar que através da literatura poderei contribuir para meu crescimento próprio, e também para a construção de uma sociedade mais justa.
Agradeço imensamente aos acadêmicos, figuras literárias nas quais me espelho nesta casa, pelo carinho de me ouvirem nesta linda manhã de outubro.”

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