sexta-feira, 9 de março de 2018


Ai de ti, Rio! (3)

Cesar Vanucci

“A guerra que estamos declarando contra o banditismo no Brasil será, sim, um fator determinante nas próximas eleições.”
(Ministro Carlos Marun, anunciando a candidatura Temer à reeleição)

Já está visto que o Rio de Janeiro foi largado à matroca por atordoante inépcia da administração pública. O (des)governo local rendeu-se, de bom tempo a esta parte, a um tentacular esquema de banditismo organizado. As operações mafiosas, processadas em múltiplos escalões, disseminaram-se pelas mais diversificadas áreas, lesando implacavelmente o erário e o interesse social. O descalabro chegou a tal ponto que a intervenção federal, decretada na esfera da Segurança, acabou sendo aplaudida por parte expressiva da sociedade.

Sem embargo dessa reação, compreensível – como já dito – à luz da indignação e canseira da comunidade face aos problemas e impasses cruciais ocasionados pela avalancha dos desatinos, numerosas e respeitáveis vozes se ergueram em contraposição à decisão do governo central. Não há duvidar sejam, por força dos argumentos alinhavados, vozes realmente representativas de lúcidas camadas do sentimento nacional.

De acordo com os questionamentos vindos a lume, a intervenção na Segurança carioca foi estabanada. Destituída de planejamento criterioso. Brotou do improviso, engendrada dentro de contexto com indisfarçáveis sinais de vulgar populismo. Sua implicação com arrematado oportunismo eleitoreiro é bastante pronunciada. Nem bem o anúncio da intervenção conseguia alcançar integralmente o domínio público e já solícitos porta-vozes do Jaburu se aprestavam a trombetear, triunfalmente, certos objetivos penumbrosos da manobra articulada em Palácio. Deixaram explícito, sem titubeios, nem tênue resquício de pudor, que após a intervenção, o ínclito Presidente Michel Temer seria forçosamente compelido a dizer desprendidamente ao povo brasileiro que, para o bem geral da Nação, “eu fico”... Noutras palavras, a nos valermos de emblemáticas declarações do Ministro Carlos Marun, titular da Secretaria de Governo, integrante destacado da chamada “tropa de choque” do célebre deputado Eduardo Cunha, “depois do que aconteceu na Câmara (aprovação do decreto de intervenção), faz-se necessária e indispensável a candidatura do Presidente Michel Temer na próxima eleição.”

Em entrevista à “Veja”, o Ministro acentuou que “o governo é medido pelo êxito de suas ações”. Com a boquirrotice que lhe é peculiar, garantiu que o sucesso “dessa guerra que estamos declarando contra o banditismo no Brasil será, sim, um fator determinante nas próximas eleições”. E que, à conta de tão irrefutáveis elementos de convicção, se tornará imperioso o lançamento do honrado nome do supremo mandatário à reeleição. Isso mesmo, gente boa...

Esses propósitos inesperados, repentinos, nascidos de cavilosas articulações e de manjado casuísmo, são de molde a convocar a atenção da opinião pública para certas facetas frisantes do comportamento governamental. Recordam, antes de mais nada, que o índice de popularidade de Temer anda tropegamente  ao rés do chão. É, com flamejante certeza, o mais baixo de todo o período pós-redemocratização. Por óbvias razões.

Ao assumir, após a queda de Dilma, entre outras enfáticas promessas, Temer assegurou que acabaria com a corrupção, estancaria o desemprego, retomaria o desenvolvimento econômico. A redução dos juros extorsivos impostos à cadeia produtiva constituía ponto de honra. O País iria contar, finalmente, com um “ministério só de notáveis”. O número de pastas ministeriais seria reduzido. O jogo do “toma lá dá cá” no relacionamento político partidário e com o Parlamento seria página virada na história. Os brasileiros não mais se constrangeriam com as notas de classificação atribuídas ao País pelas fajutas agências de risco. Deixo para o leitor a tarefa de conferir o rosário de promessas alardeadas.

Temer enveredou-se, dado instante, pela seara das “reformas”. Trancou-se, onipotente, num monólogo reformista que não produziu nenhum resultado concreto. Escusou-se ao diálogo amplo, geral e irrestrito na magna questão da Previdência Social. Deixou evidenciado, nesse capítulo tão importante, o desinteresse oficial em torno da discussão dos verdadeiros privilégios existentes na atualidade brasileira, representados pelos variados sistemas de remuneração e aposentadoria reservados às castas do marajanato tecnocrático e burocrático. Lançou tímidas ideias de alguma reforma, com o intuito de não fazer reforma alguma. Silêncio de tumba etrusca baixou subitamente sobre as “urgentes reformas”.

Encurtando razões. Todo mundo, em sã consciência, aprecie ou não o jeito de atuar de Michel Temer, almeja a esta altura do campeonato que a empreitada programada para as plagas guanabarinas logre êxito total. Mas não há como descartar de todo a indesejável hipótese de que ela, a controvertida intervenção, levando-se em conta os cumulativos fatores adversos amiúde detectados na gestão dos negócios afetos ao alto comando governamental, possa produzir dorida frustração na expectativa popular.


Eis aqui um cara sortudo

Cesar Vanucci

"Todos os participantes foram selecionados pelo sistema de computador."
(Mensagem relativa a "premiações" anunciadas via Internet)

Eu estaria feito na vida se, nas inocentes apostas que arrisco em dias de mega sena acumulada, fosse "favorecido" pela mesma "estrondosa sorte" com que tenho sido, insistentemente, "cumulado", via Internet, nas horas em que me animo a ligar o computador para recolhimento de mensagens. Almas generosas, compadecidas seguramente do hercúleo esforço cotidiano exigido deste pobre escriba na luta pela sobrevivência, entendem de "aquinhoar-me", volta e meia - só nos últimos tempos somaram uma dezena -, com "premiações espontâneas", de valores variáveis. Manjem só: de 750 mil dólares a 50 milhões de euros.

Segundo os prestativos porta-vozes das "beneméritas" organizações alienígenas, todas de denominação pomposa, que invadem o meu refúgio eletrônico com "tentadoras ofertas", o neto predileto de vó Carlota é alguém, entre 50 afortunados viventes do orbe terráqueo inteiro, "selecionado" para por a mão em substanciosa bufunfa instituída como "prêmio" de incentivo a "usuários da Internet e para promover mercadorias utilizadas no processamento de informações eletrônicas." Dá até pra assimilar a sedutora ideia de que eis aqui um cara verdadeiramente sortudo...

Essa inesperada avalancha de "acertos lotéricos", que levou em conta, como se faz ver nos recados eletrônicos, merecimentos do "beneficiário" que a modéstia prudentemente aconselha sejam por ora silenciados, irrompe de procedência a mais variada. As "boas novas" chegam dos "States", Escandinávia e Espanha. Ao deparar-me com a primeira delas senti percorrer-me o corpo um inebriante frêmito. Uma sensação, por certo, bastante parecida com a euforia que se apoderou da cândida alma daquele parlamentar – lembram-se do episódio de anos atrás? - integrante do luzidio time dos “anões do orçamento”, ao acertar na mosca, em sucessivos sorteios lotéricos, dezenas de prêmios vultosos com os quais conseguiu construir, honradamente, sólido patrimônio pessoal...

Meu "entusiasmo" diante da "premiação" é de tal monta que não consigo, jeito maneira, segurar comigo, contrariando desastradamente recomendação expressa das mensagens, compartilhando-a aqui com meus apoucados leitores, "sugestiva revelação". Ei-la: “o resultado da Euro Millions Lottery Winners Internacional" nasceu da "auspiciosa" circunstância de meu endereço eletrônico, sabe-se lá por que cargas d'água, ter sido "anexado ao ticket de número 653-908-321-675, da série principal de número 345-790-241-671", o que – alvíssaras! – "coincidiu com os números 34-32-90-43-32", seja lá o que essa algaravia de algarismos possa representar...

Numa das correspondências alusivas às "premiações espontâneas" aportadas em meu endereço virtual é "esclarecido" que "os participantes foram selecionados pelo sistema de computador a partir de mais de cem mil companhias e 50 milhões de e-mails individuais e nomes em todo o mundo." Nisso aí, como em tudo na vida, existem certas pessoas mais felizardas que outras. Um amigo faz questão de ressaltar o fato. Individuo temente a dogmas religiosos, confessa-se em desconforto por ter sido acometido de “santa inveja” – ora, veja, pois! - com relação a minha humilde figura. Enquanto o degas aqui, tímido navegante nos imperscrutáveis domínios da mídia eletrônica, dá provas, segundo diz ele, de ter aquela parte do corpo totalmente virada pra lua, já que "premiado" uma dezena de vezes, ele, pobre coitado, desoladoramente, não consegue ainda sequer um “premiozinho de consolação”. E isso a despeito de sua frenética movimentação por tudo quanto é vereda aberta aos irrecuperáveis viciados em internautica.

Sobre as mensagens cabe mais registro: deu pra ver estarem redigidas num inglês razoável. Pelo menos, de melhor nível do que o habitual e impropriamente utilizado, nestas nossas bandas, numa mescla de boiolice e panaquice, por lojas grã-finas que resolvem utilizar vocábulos estrangeiros pra anúncio de liquidações de araque.

Por último, tomo a liberdade de, singelamente, sugerir a quem esteja lendo estas maltraçadas e seja fissurado em numerologia anotar os algarismos reunidos linhas atrás. Talvez é uma boa convertê-los em palpite pra fezinha numa dessas centenas de modalidades de apostas, institucionalizadas ou não, que pululam por aí afora, neste nosso país. Um país onde, como sabido, o jogo é atividade severamente proibida, de acordo com versão oficial referendada pela hipocrisia social.



Maria Inês Chaves de Andrade *




          CÂNIONização

O olhar se precipita sobre o nada e se abisma com tudo o que vê. Pálpebras de pedra maquiadas de luz nem piscam para que um homem veja o que um homem viu pela greta do tempo e gruta. A íris é a do arco, menino dos olhos de Deus e flecha focada no deslumbramento. Pupila dos olhos é aprendiz do belo. O olhar se extasia e estático guarda o instante no instantâneo. A inércia faz pose para que se revele, entre um mar havido e um deserto ávido, o escândalo do movimento. Sentimento de sedimento é isto, consciência do pó de quem veio para onde outro ao pó retornará.
Ainda há cúmulos do absurdo e acúmulos do ridículo que bradam mais graves do que o firmamento, tão aguda seja a dor que raia no horizonte e lanceta a face do tempo. Arroxeia o espaço com a luxação da fé sob luxo e luxúria, enquanto enruga o semblante do dia. Os pensamentos estão nebulosos. Mas, a bênção está mesmo ali. Um homem que captura do tempo o segundo e o relâmpago sabe, sensivelmente, como a existência é tempestuosa. Tudo o mais é só foto, não fosse possível aqui escutar o mesmo trovão que nos redemoinha os ouvidos, labirintos sob orelhas do que me livro.
Bem ali, o cogumelo atômico que mereceu do tempo a erosão constrange nosso esquecimento: a escultura cônica no cânion deserto a nos lembrar do que tanto desertificamos como desertamos em nós. Então, todas as lágrimas vêm empoçar-se para escancarar o sofrimento humano, senão represado, movediço, em torno desta pedra no meio de nenhum caminho nesse vasto mundo. Escoa do que ecoa e me calará sempre fundo para que possa dizer. Deus bordeja de céu, tudo, em moldura azul de arte, esta de artista e arteiro, sensivelmente levado a acreditar na humanidade dos homens. Imagem e semelhança divinizam-se para que a essência humana rescenda no areal laranja, sumo pontificante da sensibilidade que explode num diapositivo enquanto num dia positivo um marchand de obras do tempo se dá, simplesmente, a fotografar.
Um lagarto cinzento, às sombras incidentais, acidentalmente, encontra o escorpião que caminha as cinzas da fênix renascente, enquanto esgueira-se um cacto pelo vigor do atrevimento. A aridez tem sua suculência sob espinhos e abutres. Este é o caso de todo ocaso. A noite vai caindo, assim, simplesmente complexa sobre complexos, aproximando Freud e Froid para, numa psicanálise rapper, concluir, astronômica e astrologicamente, pelo absurdo das constelações. A orientação desorientada mapeia, no céu, bússolas, tanta lógica há no desconhecido, o que digo com meu próprio astrolábio de batom.
Doutro lado mesmo, esnoba a estrela polar sua têmpera, tanta temperatura nunca experimente.
O fato é que, no deserto, toda estrela é bipolar.
E apesar do que há a pesar, remanesce o cânion ali para que o universo declame-se, divinizando o soneto da eternidade, onde a rima arrima no infinito a História que tanto rui como se soergue sob escombros. Cânion é poesia concreta em pura abstração, densidade efêmera sedimentada à ampulheta de Deus. Pois, que tudo lhe seja fiel enquanto dure, agora e para sempre, amém.

* Escritora, membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais - Amulmig

Um comentário:

Paulo Miranda disse...

Não só no deserto, decerto...

Surpreendido e rendido pelo texto, tão bem tecido.

bj

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