sexta-feira, 20 de março de 2015

O recado das ruas

Cesar Vanucci *

“Sem partido, sem partido!”
(Coro de vozes impedindo que na passeata de São Paulo, que reuniu, segundo a “Folha”, 210 mil manifestantes, políticos fizessem uso da palavra)

O tamanho da manifestação pegou todo mundo de surpresa. Tendo como foco central a atuação da Presidenta Dilma Rousseff e de seu partido, o PT, deixou os arraiais políticos em polvorosa. Ninguém calculava que a convocação pelas redes sociais fosse capaz de atrair tanta gente. Sobretudo se levada em conta a origem difusa e a diversidade de propósitos das mensagens espalhadas aos internautas. O recado das ruas, transmitido de maneira pacífica, de acordo com o figurino democrático, tudo isso considerado, foi de iniludível clareza.

Largadas obviamente de lado as impertinências de grupos radicais minoritários infiltrados nas passeatas – gente avessa ao sentimento nacional, inimiga raiventa do regime democrático -, o que fica como sumo do pensamento comunitário expresso no ar é uma demonstração insofismável de que as mudanças políticas e sociais, amiúde acenadas à Nação pela classe política, não podem mais, jeito maneira, continuar sendo empurradas com a barriga. Urge promovê-las.

Os setores mais lúcidos da sociedade sabem o que carece ser feito. Os políticos têm, sim senhor, noção bastante precisa do que a sociedade realmente almeja. Mesmo que muitas das postulações vindas a furo pequem pela inconsistência, algumas delas chegando até mesmo a molestar lastimavelmente fundamentos basilares de nossa estrutura institucional democrática, existe consolidada na consciência cívica da Nação uma agenda ideal de demandas propositivas clamando por soluções urgentes. O combate sem tréguas à corrupção, com a identificação de corpo inteiro de corruptores e corrompidos, como vem agora acontecendo auspiciosamente na “Lava Jato”, é uma dessas reivindicações inalienáveis da vontade popular.

A reforma política ampla, como fruto de um debate bem articulado, com prazo definido para execução, é outro item de suprema relevância no processo. É indisfarçável o mal estar produzido no espirito popular pelas urdiduras de tantos agentes políticos oportunistas e fisiológicos abrigados em todas as legendas. Trata-se de pessoal agarrado com frenético apego ao poder. Contempla-o como um fim para enriquecimento indevido. Não como um meio valioso para se atingir o respeitável interesse público, fim magno da ação diuturna de construção humana. Há que se cuidar, na elaboração do trabalho, da eliminação de fatores que encorajem a participação no enredo político de atores desqualificados, hoje para nosso infortúnio tão numerosos.

A opinião pública confessa-se de acordo com ajustes econômicos para o enfrentamento dos problemas difíceis e complexos que nos afligem. Apoia as medidas. Mas considera indispensável a convocação também do pessoal do chamado “andar de cima” para o compartilhamento harmonioso e justo do custo da crise. Falar apenas em cortes de implicações sociais, alimentando-se temores de que possa haver retrocesso nas alentadoras conquistas dos últimos anos, não é procedimento correto. É preciso encarar a possibilidade de os déficits das contas públicas implicarem também em  gravames das fortunas e dos lucros exorbitantes. O combate eficaz às evasões fiscais faz parte do conjunto de medidas a serem adotadas nesse capítulo.  O mesmo cabe dizer com relação a um levantamento eficiente, para as cobranças inevitáveis, dos colossais valores ilicitamente estocados em operações financeiras clandestinas. Sabido é, até dos aborígenes das últimas tribos remanescentes a serem ainda contatadas nas selvas amazônicas pelos sertanistas da Funai, que são em número bastante significativo os cidadãos “acima de qualquer suspeita”, associados remidos do CPP (Clube dos Privilégios Perversos), detentores de contas fabulosas nos chamados “paraísos fiscais”. Ou sejam esses redutos de pirataria e gatunagem hipocritamente tolerados pela sociedade das nações. Só numa única agência do HSBC flagrada recentemente pela proeza de haver conseguido extrapolar os limites permitidos na bandalheira relativa a operações fraudulentas, das 130 mil contas oficialmente lastreadas, perto de 9 mil são de ilustres patrícios. Apontar tais elementos, na forma da lei, além do caráter saneador intrínseco da medida, proporcionará ensancha oportunosa para o resgate legal de aportes financeiros de grande peso mode que reduzir o déficit público.

Quanto ao mais, não percam as lideranças políticas, os representantes dos Poderes legitimamente constituídos, as lideranças de todos os demais segmentos representativos da sociedade brasileira, a formidável chance de estabelecer um diálogo proveitoso com a Nação. A chance de firmar conexão e sintonia com as aspirações populares legítimas. Façam de tudo para que dê certo. Promovam confabulações, ajustes, pactos, diálogos, entendimentos dentro da reta intenção de ouvir e procurar atender aos clamores justos nascidos da alma das ruas. A hora recomenda conjugação poderosa de vontades de modo a que a Nação trilhe o caminho indesviável de sua vocação de grandeza.


A tragédia nigeriana

Cesar Vanucci

“Só em 2014, o “Boko Haram” massacrou mais
de 10 mil civis, a grande maioria muçulmanos.”
(Jornalista Giampaolo Petrucci)

Em comentário recente, focalizando a tragédia provocada pelo fundamentalismo terrorista muçulmano no território francês, chamei a atenção dos leitores para um outro ato virulento contra os direitos humanos, praticado na mesma ocasião por fanáticos religiosos no maltratado continente africano. Expressei a opinião de que o mundo inteiro, a partir das lideranças das grandes potências, deveria organizar manifestações semelhantes àquelas que, compreensivelmente, ocorreram em Paris, em sinal de justa solidariedade na dor e no sofrimento ao povo nigeriano.

Ao lançar no papel tais considerações não tinha conhecimento ainda de um texto bastante elucidativo que me foi encaminhado por uma amiga querida, engajada em fecunda atividade pastoral cristã, a respeito dos acontecimentos em terras d’África. Tendo por cenário a Nigéria, os acontecimentos em questão são descritos como “um dos mais brutais massacres dos últimos anos da história do continente”. A Nigéria possui 175 milhões de habitantes (o mais populoso do continente, 7º do mundo) sendo detentor do 38º PIB nacional. Povoado por 500 grupos étnicos, conta com avolumada presença de cristãos no meio de uma população de predominância islâmica. O texto aludido, de autoria do jornalista Giampaolo Petrucci, foi publicado na revista “Adista Notizie”, de 24 de janeiro passado. A tradução é de Moises Sbardelotto. Entendo de suma oportunidade reproduzi-lo nesse “minifúndio de papel” (lembrando o jornalista e escritor Roberto Drummond). Seguem titulo e análise publicados. “A fé, os interesses e os silêncios, chave de leitura do “Boko Haram”: “De acordo com informações não oficiais, mas bem credenciadas, como a Anistia Internacional e a BBC, teriam sido mais de duas mil as vítimas da ofensiva lançada a partir do dia 3 de janeiro passado pelo Boko Haram na região de Baga, onde o grupo fundamentalista ocupou uma importante base militar, posto avançado de uma força tarefa multinacional africana na região.
O recrudescimento da atividade terrorista chega a um mês das eleições presidenciais do dia 14 de fevereiro, nas quais o atual presidente cristão Goodluck Jonathan, no poder desde 2010, vai se recandidatar, mesmo sendo considerado politicamente incapaz de adotar estratégias críveis de combate ao terrorismo – também por causa de um Exército desorganizado, mal pago, corrupto e mal equipado – e de controlar o território para evitar os conclamados conluios entre governos locais e terroristas.
O “Boko Haram” – locução hausa que significa "a educação ocidental é pecado" – começou os ataques no Estado de Borno (nordeste da Nigéria) em 2009, mas, com as recentes intensificações do conflito, ele aspira, confiando também na filiação ao Estado Islâmico, à desestabilização de um dos países mais ricos de petróleo do mundo, além da constituição de um grande califado para além das fronteiras com os CamarõesChade e Níger, capaz de se expandir para toda a África ocidental muçulmana, já amplamente abalada pelo avanço dos movimentos jihadistas na região do Sahel.
Só em 2014, o “Boko Haram” massacrou mais de 10 mil civis, a grande maioria muçulmanos, e provocou a fuga de mais de 1,7 milhão de pessoas. Depois das medidas de segurança adotadas pelas forças de segurança nigerianas nos mercados e nas praças do norte, os fundamentalistas mudaram a estratégia de ataque, forçando meninas e moças pouco mais do que adolescentes a se fazerem explodir em lugares particularmente lotados de civis.
Precisamente o indizível horror provocado pelos últimos atentados realizados em Maiduguri e em Potiskum com esse modus operandi finalmente chamou a atenção da sonolenta indignação da mídia e das instituições internacionais sobre o drama nigeriano.”



Vítimas de segunda categoria


Cesar Vanucci *

“Todos devíamos vir para a África!”
(Arcebispo Francisco Montenegro, da Nigéria)

Dou sequência aqui ao trabalho jornalístico sobre os apavorantes acontecimentos da Nigéria provocados pelos fanáticos do “Boko Haram”. Como já explicado, o autor do texto é o jornalista italiano Giampaolo Petrucci.

"Penso na grande manifestação de Paris e desejo também aqui uma grande marcha de unidade nacional que supere as divisões políticas, étnicas e religiosas. Devemos dizer 'não' à violência e encontrar uma solução para os problemas que afligem a Nigéria", disse à agência “Fides” Dom Ignatius Ayau Kaigama (arcebispo nigeriano de Jos), que em várias ocasiões criticou a comunidade internacional pela falta de atenção dada à questão nigeriana, definindo, de fato, como "vítimas de primeira categoria – as europeias – e vítimas de segunda categoria" as africanas.
Esta também a opinião do arcebispo de Agrigento – que se tornará cardeal no próximo consistório de fevereiro –, Francesco Montenegro, que falou no Dia Internacional dos Migrantes, 18 de janeiro. "Todo morto deveria fazer-nos pensar", declarou. "É estranho que só Paris se tornou o centro do mundo. No dia seguinte, ao contrário, todos devíamos ir para a África, porque duas mil pessoas sofreram a mesma violência de Paris, mas, mais uma vez, dividimos o mundo no sofrimento: nós, os da primeira categoria, postos todos juntos a dizer que não é justo, enquanto não vimos os dois mil mortos da Nigéria, mortos de segunda categoria".
Por outro lado, numa "Declaração sobre os ataques na Nigéria", em 12 de janeiro, o Conselho Ecumênico das Igrejas (WCC) apontou o absurdo de uma cobertura religiosa de certas atrocidades: "Uma mentalidade que concebe as crianças como bombas e que massacra indiscriminadamente mulheres, crianças e idosos está além da indignação e se desqualifica para qualquer possível pretensão de justificação religiosa".
O WCC também expressou "profunda decepção com a discriminatória falta de cobertura midiática internacional" que a crise nigeriana exige e pediu, por um lado, a intervenção decisiva do governo e, por outro, uma adequada solidariedade por parte da comunidade internacional.
A Rede Nowar sublinhou no dia 12 de janeiro, ao ensejo da visita da vice embaixadora nigeriana à Itália, Martina Gereng-Sen, que o terrorismo "não tem nada a ver com o Islã", como demonstra o fato de que a grande maioria das vítimas do terror "pertence aos povos não ocidentais" e são principalmente muçulmanos.
"Nos mesmos dias do massacre em Paris, foram cometidos massacres por parte de milícias terroristas na Nigéria, Líbia, Iraque, Iêmen, Síria”. No comunicado da Rede Nowar pede-se que "a mídia e a opinião pública reservem a eles a mesma dor e respeito que demonstramos no caso das vítimas de Paris". Existe, ainda, a denúncia de que vários "países da Otan (incluindo a Itália) e monarquias do Golfo, mesmo nos últimos anos, equiparam, formaram, financiaram o crescimento de diversos grupos terroristas".
O fato de que o “Boko Haram” busca cobertura religiosa de finalidade não manifesta também é assinalado pelo diretor da revista dos combonianos, “Nigrizia”, padre Efrem Tresoldi, em entrevista à Rádio Vaticano no dia 12 de janeiro. "Esse terrorismo chamado islâmico está colocando na mira não só os cristãos, mas ainda mais as próprias comunidades muçulmanas do norte do país. É uma campanha que vai contra, eu diria, os próprios princípios da humanidade e, portanto, não tem nada a ver com a religião: são criminosos, mas que têm apoio, como se sabe, também dentro do Estado" e "financiamentos também do exterior".
Em análise publicada no dia 9 de janeiro pela agência Sir, o padre Giulio Albanese (comboniano, fundador da agência missionária “Misnae”, colaborador de várias publicações) denunciou o silêncio ocidental, definindo as vítimas de Baga como "filhas de um deus menor".
Falando do “Boko Haram” disse tratar-se de um movimento que "instrumentaliza" a religião para fins políticos. A situação, salienta, degenerou depois da vitória eleitoral de Goodluck Jonathan, em 2010, "nada apreciada pelas oligarquias do norte do país, de fé islâmica, que viram redimensionado, por assim dizer, o seu peso político. Jonathan, de fato, pertence à etnia Ijaw, minoria de nível nacional e de tradição cristã, mas que representa a maioria da população na região do Delta do Níger, riquíssima em petróleo e sob o controle das multinacionais estrangeiras. Nesse contexto, o fator religioso se sobrepõe a uma competição pelo poder que, a esse ritmo, corre o risco de dividir a Nigéria em duas".
"As razões do aumento da atividade terrorista – acentua Albanese – devem ser buscadas, pelo menos em parte, nas relações que o “Boko Haram” manteve, ao longo dos últimos anos, com políticos locais e membros das forças de segurança originárias do norte, interessadas na radicalização do conflito, a fim de tornar a Nigéria ingovernável".







GALERIA DE ARTE


     INIMÁ DE PAULA, 


o artesão das cores

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“A paisagem é sempre maior e mais forte que o homem nas minhas telas.”(Inimá de Paula)

Inimá José de Paula foi um pintor, desenhista e professor brasileiro. Artista autodidata, Inimá de Paula criou uma linguagem própria inconfundível. Seus trabalhos possuem características definidas e pessoais, com pinceladas ricas em tonalidades e sensibilidade.
Inimá foi um artesão das cores, e é considerado por muitos o maior fauvista brasileiro, o maior de todos os artistas contemporâneos mineiros, sendo reverenciado em sua terra natal.
Sua pintura tem características pessoais e bem definidas, e é altamente bem elaborada e estruturada; suas pinceladas são fartas e generosas.
As obras de Inimá podem ser encontradas nos mais importantes museus brasileiros, em acervos de fundações públicas e privadas e em coleções particulares de renomados colecionadores. Seu nome é citado em diversos dicionários de artes plásticas e livros de arte. Recebeu ainda, inúmeras homenagens, títulos e medalhas.

Inimá de Paula nasceu no dia 7 de Dezembro de 1918 em Itanhomi. Desde criança, Inimá gostava de desenhar e quando foi prestar serviço militar em Juiz de Fora/MG, em 1937, encontrou, no Núcleo Antônio Parreiras, a oportunidade de realizar suas primeiras pinturas e estudos.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1940 e já alimentava o sonho de ser pintor enquanto trabalhava como retocador de fotografias. Matricula-se nas aulas de Argemiro Cunha no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, as quais abandona em pouco tempo. Passa a pintar com alguns dos ex-integrantes do Núcleo Bernardelli.
Uma oportunidade de trabalho o levou a Fortaleza em 1944. Lá, uniu-se aos jovens artistas e participou ativamente do movimento modernista local. Juntamente com Antônio Bandeira, Aldemir Martins e Jean-Pierre Chabloz fundou a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), que foi responsável pelo desenvolvimento da arte moderna no Ceará.
De volta ao Rio, no ano seguinte, passou a concorrer regularmente no Salão Nacional de Belas Artes, o mais disputado e importante salão de arte da época, e em breves sete anos conquistou todas as premiações. Ainda em 1945 expõe com Aldemir Martins, Antônio Bandeira e Jean-Pierre Chabloz, na galeria Askanasy.
Em 1948, graças ao apoio de Cândido Portinari, faz sua primeira mostra individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/RJ).
Em 1950, ganha o prêmio de viagem ao país do Salão Nacional de Belas Artes (SNBA) e, no ano seguinte, viaja e expõe na Bahia.
Em 1952, venceu o disputado Prêmio de Viagem ao Estrangeiro. Em Paris, entre 1954 e 1956, assiste a cursos na Académie de la Grande Chaumière e na École Normale Supérieure des Beaux-Arts. Em seguida, acompanha as aulas de André Lhote e de Gino Severini.
Quando volta, passa a fazer pinturas abstratas, algumas das quais mostra na 5ª Bienal de São Paulo. Na primeira metade dos anos 1960, muda-se para Belo Horizonte e retoma a pintura figurativa.
Em 1998 é criada a Fundação Inimá de Paula em Belo Horizonte, para cuidar de todos os assuntos concernentes à sua obra e à catalogação integral da mesma, sendo iniciativa pioneira no país, rivalizando apenas com a também impressionante iniciativa que é o Instituto Manabu Mabe. O próprio Inimá autenticou pessoalmente muitas e muitas obras. A Fundação Inimá de Paula, em parceria com o Governo do Estado de Minas Gerais, inaugurou em abril de 2008 o Museu Inimá de Paula, em antigo prédio da capital mineira. O Museu está aberto ao público e, além do seu acervo, os amantes da arte podem ver as várias exposições de artistas brasileiros que ali mostram suas obras.
Inimá pintou até o seu último ano de vida, falecendo no dia 13 de agosto de 1999 em Belo Horizonte. Fonte: Mercado Arte




Amostras da criativa obra de Inimá


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