sábado, 21 de abril de 2012

As insuspeitadas propriedades da pipoca

Cesar Vanucci *

“As cascas de pipoca merecem mais respeito.”
(Joe Vinson, cientista e pesquisador)

Ora, veja, pois! Quem diria que, algum dia, cientistas de renome se animassem a disparar uma revelação tão desconcertante? A pipoca, garantem doutos personagens, é opção tão ou mais saudável até do que as frutas e os vegetais. A tese encampada por pesquisadores da Universidade de Scranton, Estados Unidos, consubstanciada numa singular pesquisa, que vem dando o que falar, joga por terra, estrepitosamente, a idéia secular de que o delicioso produto derivado do prosaico ato de se rebentar numa panela ao calor do fogo o grão de milho, não passa de um item a mais da vasta relação de alimentos não recomendados nas dietas por serem despojados de teor nutritivo saudável.

O estudo vindo a lume garante serem consistentes as evidências de que a pipoca contém mais substâncias antioxidantes saudáveis, denominadas polifenóis, do que as encontradas nas frutas e legumes. Os polifenóis, como parece ser do desconhecimento geral, são responsáveis pela diminuição da presença no organismo dos chamados radicais livres, causadores do envelhecimento e de doenças como o câncer e o mal de Alzheimer. O bioquímico Joe Vinson, coordenador da pesquisa, assinala maior concentração de polifenóis na pipoca do que em frutos comestíveis e hortaliças.

Enquanto que na pipoca os polifenóis ficam diluídos em 4% de água, nos vegetais alimentícios a diluição se processa em 90% de líquido. A mesma lógica, de acordo com o cientista, pode ser aplicada às frutas secas, como a uva-passa, por exemplo. Como a casca da uva é, também, boa fonte de polifenóis, quanto menos água tiver, maior será a concentração da substância antioxidante benéfica à vida.

A pesquisa chega a outra descoberta inesperada. A casca da pipoca – aquele resíduo incômodo que costuma ficar grudado nos dentes – é a parte do produto que oferece mais densa concentração de polifenóis e fibras. “As cascas merecem maior respeito”, anota, em tom bem humorado, o cientista citado.

Joe Vinson acrescenta que a pipoca é um lanche simplesmente perfeito. Trata-se de alimento composto de 100% de grãos integrais, com qualidade protéicas superiores aos de outros produtos que recebem a mesma denominação (integrais), mas que, na verdade, são compostos de grãos misturados com variados ingredientes.

O pesquisador tem o cuidado de alertar as pessoas quanto à forma de preparar e servir a pipoca, de forma a não colocar em risco seu alcance nutritivo. A pipoca – acentua – para se tornar saudável carece ser feita à moda tradicional, em panela ou pipoqueira onde os grãos estourem sob efeitos do ar quente. Aconselha-se parcimônia no emprego de óleo e sal.

A pipoca “rebentada” em microondas e as de características excessivamente amanteigadas, do tipo vendido nas salas de cinema, não são recomendadas. De outra parte, a pipoca há que ser vista como complemento de uma dieta nos trinques. Não como um sucedâneo de frutas e verduras. Esses produtos contêm vitaminas e outros nutrientes essenciais à saúde, não encontrados na pipoca. Vale também registrar que 100 gramas de pipoca produzem de 380 a 440 calorias. Uma dieta normal comporta 2.000 calorias diárias.

O tema pipoca reacende na memória velha de guerra imagens bastante hilárias de tempos passados, a se levar em conta o que se vê agora nos cinemas. Anos atrás, o ato de consumir pipoca durante exibição de filmes podia gerar punição severa. Policiais e “lanterninhas” traquejados, devidamente investidos dos poderes de sentinelas da moral e dos bons costumes, movimentavam-se com impecável zelo puritano no escurinho do cinema com o nobre intuito de flagrar em delito, de modo todo especial, dois tipos de espectadores “inconvenientes”: namoradinhos que se aventurassem, audaciosamente, a entrelaçar as mãos, e... insolentes comedores de pipoca. O flagrante costumava render para o infrator convite desonroso para retirar-se do sagrado recinto. Sem direito a ressarcimento do valor da entrada. Muitas vezes, sobretudo em cidades do interior, o tititi provocado por incidentes do gênero causava danos duradouros à imagem pessoal dos defenestrados. Se fosse mulher, então...



Acupuntura, especialidade médica?


“Lembro-me bem do tempo, não tão distante assim,
em que a acupuntura era tida como prática de curandeirismo.”
(Antonio Luiz da Costa, professor)

Estive a pique, falar verdade, de soltar estardalhante risada. Contive-me pelas implicações dramáticas do episódio na ação profissional de um bocado de gente. Essa decisão recente do Tribunal Regional Federal de Brasília, acatando postulação do Conselho Federal de Medicina, no sentido do reconhecimento de que a prática da Acupuntura só seja facultada a médicos, faça-me o favor, é de deixar arrepiados e estarrecidos todos os profetas esculpidos por Aleijadinho no ádrio da Matriz de Nosso Senhor Bom Jesus de Matozinhos, lá de Congonhas.

Quem, como este desajeitado memorialista de lances bizarros do comportamento humano, conserva ainda frescos na lembrança velha de guerra elucidativos registros da aurora dessa prática milenar oriental na vida brasileira, está careca de saber que a acupuntura aflorou por aqui rodeada de pesada carga de desconfianças e suspeitas. Sobretudo por conta das severas restrições terapêuticas estabelecidas em redutos médicos. Não poucos viam-na como um extravagante e herético exercício de curandeirismo, abominável ao olhar crítico da hermenêutica científica. Os vanguardeiros aplicadores dessa técnica alternativa eram olhados de esguelha, em não poucos ambientes. Eram acusados de envolverem com aconselhamento subversivo e anticientífico ingênuos pacientes, espetando-lhes agulhas pelo corpo em excêntricos rituais.

E não é que anos depois, bom pedaço de tempo transcorrido, a história começou a ser narrada de modo totalmente diferente! A acupuntura, como era decantado pelos iniciadores da prática, contrariando – repita-se – as alegações dogmáticas de poderosos opositores, “passou” a possuir, sim senhor, propriedades curativas dignas de nota. Já razoavelmente propagada nos hábitos comunitários, atiçou as atenções de setores que faziam questão fechada de menosprezá-la ostensivamente.

Daí, para ser incorporada à atuação profissional rotineira desses segmentos antes refratários à sua disseminação foi um passo rápido. Ocorreu, então, de os domínios dessa saudável atividade terapêutica passarem a ser palmilhados, ao mesmo tempo, com evidentes vantagens para a clientela cada dia mais volumosa, pelos terapeutas holísticos responsáveis pela sua introdução na praça, ou seja os acupunturistas da primeira hora, por médicos e por outros profissionais da área da Saúde, com realce para farmacêuticos e psicólogos. De repente, chega a público inesperada proclamação de um desses respeitáveis segmentos. A acupuntura – está sendo esclarecido doutoralmente – permite a utilização de agulhas de vários tamanhos, em áreas nobres do corpo. O profissional que maneja esses instrumentos, precisa dominar com precisão cientifica o que é feito. Conclusão inapelável: só os médicos, ouviu moçada?, mostram-se aptos a elaborar diagnósticos e a fazer tratamento por esse salutar processo.

A controversa alegação desaguou, obviamente, em contenda jurídica. O desate surpreendente, sujeito ainda naturalmente a chuvas e trovoadas por força dos recursos legais produzidos pelo compreensível inconformismo dos setores que vêm sendo descerimoniosamente alijados dessa área de atuação profissional, foi a decisão, hilária a mais não poder a considerar os antecedentes históricos narrados, tomada pelos magistrados brasilienses. O ex-presidente do Colégio Brasileiro de Acupuntura, médico Dirceu Sales, tomou da palavra, após a sentença, para explicar que “vamos agora conversar para ver como será a aplicação da decisão judicial”. Adicionou, magnânima e condescendentemente, que “não queremos fazer caça às bruxas ou que consultórios de outras especialidades sejam da noite para o dia fechados”. O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Lima, deixou explícito que a decisão judicial representa “um ganho para a saúde, para a segurança do paciente.” Mas não é bem assim que a coisa é vista noutras paragens.

Os Conselhos representativos das demais categorias profissionais prometem brigar, com todas as forças, pelo direito de seus membros continuarem compartilhando a “ex-técnica maldita”, segundo o “veredicto” implacável do passado, com os colegas médicos. Taí um tipo de luta que encontra – é fácil comprovar – respaldo pra valer na simpatia popular.

Acupuntura, uma especialidade médica? Há sérias controvérsias a esse respeito.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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