segunda-feira, 23 de junho de 2014


A Copa vai bem, obrigado

Cesar Vanucci*


“Os profetas do apocalipse falharam. Como de costume”
(Antônio Luiz da Costa, professor, a respeito da Copa)

Ninguém põe mais em duvida a esta altura do campeonato os benéficos resultados auferidos pelo Brasil com a realização da Copa. Não há como contabiliza-los de pronto, em todo o extraordinário peso e dimensão, à vista das infinitas situações e circunstâncias suscetíveis de avaliação.
As profecias que acenavam com cenários apocalípticos, nas quais os plantonistas do desalento “sustentavam por a + b” que nós, brasileiros, “ao contrário de outros povos”, não dispomos de condições para botar em funcionamento empreendimento dessa magnitude, deixaram evidenciado, outra vez, o analfabetismo atordoante de alguns com referencia às coisas de seu próprio País.  Chega a ser patético o desconhecimento que conservam das potencialidades e virtualidades de sua Nação. Esses segmentos minoritários, intoxicados de baixa estima, com seu “complexo de vira-lata” detectado por Nelson Rodrigues, mantêm-se constantemente aferrados a concepções esmagadas pela história, no lado oposto ao verdadeiro sentimento nacional. Tendo acesso, de certa forma desembaraçada, à comunicação midiática, esses grupos especializaram-se em propagar o derrotismo, o pessimismo em doses mastodônticas. No caso da Copa, vislumbraram o caos. Quebraram a cara. A catástrofe, a nos basear em seus critérios destrambelhados de apreciação dos acontecimentos, estava inapelavelmente programada. Iria acontecer antes e durante os jogos.
Herdeiros das mesmas ideias retrógadas daquelas outras despreparadas falanges que preconizavam também, anos atrás, “inevitáveis hecatombes” como consequência da construção de Brasília, propagaram intensamente que a Copa representaria maleficio sem remédio. Nosso País não disporia de condições minimamente razoáveis para leva-la a cabo. A realidade contrapôs desmentido estrondoso à baboseira irresponsavelmente alardeada. Constatando, sem preocupação de dar ênfase demasiada ao colosso de obras físicas implantadas - herança social e econômica, diga-se de passagem, que permanecerá para sempre -, deparamo-nos com a radiosa possibilidade de poder assinalar, já agora, muitos frutos compensadores do certame esportivo.
Fixamo-nos, sobretudo, na descomunal projeção que o País adquiriu no olhar mundial para mostrar-se por inteiro como realmente é. Um País bastante rico, de cultura exuberante, com atrações naturais incomparáveis, estuante de vida, carregado de oportunidades. E, por isso mesmo, capacitado a oferecer à sociedade moderna contribuição humanística valiosa na composição de um modelo social econômico de vida que aprimore o processo civilizatório. Contribuição, bom lembrar, não é de hoje pressentida nos estudos de uma gama numerosa de pensadores altamente representativos da inteligência universal. De Darcy Ribeiro e Stefan Zweig a Domenico de Biasi.
A disseminação dos atributos dos brasileiros, mundo afora de maneira mais intensa por força deste instante afortunado da Copa, já está trazendo ganhos. E promete trazer mais resultados positivos para este nosso País abençoado por Deus e bonito pela própria Natureza. Um País, para orgulho nosso, pluralista no campo das ideias, democrático, com idioma único apesar da vasta extensão territorial, onde o relacionamento cotidiano revela-se, em termos gerais, infenso a posturas belicosas incuráveis, nascidas de intransigências e dogmatismos diante das diversidades étnicas e religiosas, ao contrario do que rola pelo mundo lá fora.

E por ultimo. “Vips do Itaquerão”, a expressão utilizada pela médica Fátima de Oliveira, num artigo em “O Tempo”. Achei bastante apropriada essa referencia aos radicais aloprados que compuseram aquele enfezado coral da abertura da Copa, que num evento politico posterior foram imitados, em sua estupidez e babaquice, por um líder sindical e parlamentar oposicionista sem modos. Essa gente nada tem a ver com o autentico sentimento popular. As camadas majoritárias da população, que acompanharam a festa de abertura pela tevê e em telões por não poderem pagar os elevados preços de ingressos estipulados pela FIFA, jamais expressariam divergências e descontentamentos apelando para tão rematada boçalidade.  



O gol que não foi mostrado


Cesar Vanucci*

“A responsabilidade é toda dela, FIFA.” (Miguel Nicolelis,
neurocientista, coordenador do projeto “Andar de Novo”)


Dona FIFA – ora, veja, pois! – menoscabou a importância do feito cientifico do respeitado neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. Reservou fração de tempo infinitesimal na insossa festa de abertura da Copa para apresentação do projeto “Andar de Novo”. A pretensão dos autores do projeto era mostrar ao mundo as imagens de um tetraplégico, no caso especifico Juliano Pinto, brasileiro, 29 anos, amparado numa estrutura robótica, dando o pontapé inicial da brazuca no centro do gramado do Itaquerão, na cerimonia inaugural dos jogos.

As coisas, infelizmente, não funcionaram de acordo com o roteiro traçado. Faltou engenho por parte dos técnicos incumbidos das filmagens e empenho por parte da cartolagem. As câmeras espalhadas pela majestosa arena esportiva não projetaram nada daquilo que estava anunciado. O telespectador não conseguiu captar com nitidez a cena programada. Ou seja, uma pessoa desprovida de movimentos nas pernas, apoiada por uma estrutura metálica de sustentação do corpo que reage a comandos cerebrais, erguer-se da cadeira de rodas, a movimentar-se em direção da bola para o chute.

“A FIFA deveria responder pela edição das imagens que impediu fosse a demonstração transmitida na integra. A responsabilidade é toda dela”, sublinhou Nicolelis, confessando-se, nada obstante, satisfeito com o experimento científico propriamente dito. Os apenas 15 segundos disponibilizados na transmissão para registro do histórico acontecimento foram inseridos no meio do desenxabido espetáculo artístico montado e vistos de relance por parcela mais atenta do publico. A narração do fato ocorreu tardiamente, passando a sensação de que os próprios locutores não estavam devidamente informados do que estava rolando. De outra parte, o lance aconteceu fora e não no centro do campo, ao contrário do que era esperado, sob a alegação fajuta de que a movimentação do jovem tetraplégico com o aparelho denominado exoesqueleto pressionaria o terreno. O mesmo terreno, por sinal, que suportou sem danos as estruturas do show. Tudo isso impossibilitou que o publico se inteirasse, em nível de detalhe, da proeza cientifica. Em resumo, o que se acabou vendo, em descrições insuficientes dos narradores, foi um lance solto da bola em movimento com nada em especial que pudesse empolgar a assistência.  

O resultado positivo da experimentação cientifica ficou, todavia, bem configurado na manifestação de Glauco Arbix, presidente da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Suas as palavras que se seguem: “A FINEP se orgulha de ter investido 33milhoes de reais no projeto “Andar de Novo”, que vem sendo desenvolvido há dez anos. Foi um verdadeiro gol da ciência brasileira. Nossos cientistas mostraram para o mundo do que são capazes. Acompanhamos os testes do exoesqueleto e sempre tivemos a melhor expectativa possível. Isso foi confirmado agora.” Miguel Nicolelis partilhou do mesmo sentimento: “Foi um grande gol da nossa ciência e dos oito pacientes que se dedicaram à experiência”. Segundo o pesquisador os testes foram concluídos com êxito no final de maio. O exoesqueleto, respondendo a comando da atividade cerebral do operador, no caso o jovem tetraplégico, favorece movimentos naturais e fluidos que produzem a sensação de que o paciente esteja a caminhar com as próprias pernas. A interface cérebro-maquina é estabelecida por uma touca com eletrodos que captam os sinais elétricos do cérebro, na base de um eletroencefalograma, de forma não invasiva. O procedimento, explica o neurocientista, é suficiente para impulsionar movimentos dos membros inferiores. Os sinais cerebrais do paciente são processados em tempo real, decodificados e utilizados para acionar condutores hidráulicos. O objetivo do projeto é aplicar uma tecnologia inovadora que permita pessoas com mobilidade restringida recomeçarem a andar, usando a mente para controlar um equipamento que substitui os membros inferiores.


Esse gol de placa, que exalta a cultura cientifica deste país desconhecido pelos plantonistas do desalento e do pessimismo, não pôde, desafortunadamente, ser mostrado ao distinto público da festa inaugural da Copa. Que pena, que pena!



Regra disciplinar, não dogma.

Cesar Vanucci*


“...não conseguimos desfazer um vinculo tão sólido e bonito”.
 (Trecho de manifesto endereçado por um grupode mulheres italianas ao Papa Francisco)



Um grupo de católicas italianas resolveu botar o dedo na ferida de uma controversa questão eclesiástica, varias vezes secular, de natureza disciplinar, mas em esferas ultraconservadoras equivocadamente encarada como preceito dogmático. Num comovente manifesto endereçado ao Papa Francisco pediu seja revogado o celibato sacerdotal compulsório.
As signatárias não estão sós no posicionamento assumido. Em todas as partes do mundo, seguidores da Igreja, incluídos na lista religiosos de ambos os sexos, alimentam a expectativa de que esse dispositivo, instituído no longínquo século XI, possa vir a ser algum dia revisto. O quanto antes melhor. O entendimento majoritário nesses setores é de que se trata de uma determinação inteiramente fora de propósito diante da realidade do mundo contemporâneo.
Saliente-se, uma vez mais, que o celibato obrigatório na vida religiosa não é de inspiração teológica. É assunto disciplinar, não de fé. Em tempos idos da cronologia cristã, o casamento não era vedado a representantes da Igreja. Pedro, para ficar num único exemplo, era casado, constituiu prole. Pessoa conhecida, que manifesta, tanto quanto eu, simpatia pela tese da quebra do celibato sacerdotal, evoca o testemunho do próprio Cristo, com base em palavra de um evangelista, para sublinhar a condição de homem casado do apóstolo Pedro, primeiro Papa da historia: “E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre. E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou; e levantou-se e serviu-os” (Mateus, 8:14-15).
  Seja ressaltado em seguida que a própria Igreja Católica Apostólica Romana, nestes tempos modernos, da mesma maneira que se comportam outras correntes cristãs (ortodoxas, protestantes, anglicanos, por ai vai), chega a admitir o matrimonio sacerdotal em alguns territórios do Oriente. O que não pode deixar de ser interpretado como baita contrassenso.  
As autoras do manifesto, confessando-se afetivamente ligadas a eclesiásticos, argumentam de forma bem enfática. Como se pode defluir de certos trechos da mensagem: “Nós amamos esses homens e eles nos amam também. E, apesar de tentarmos de todas as maneiras renunciar a esse sentimento, não conseguimos desfazer um vinculo tão solido e bonito!” (...) “Sabe-se muito pouco do devastador sentimento ao qual está submetida uma mulher que vive junto a um sacerdote. A forte experiência do amor queremos, com humildade, depositar a seus pés nosso sofrimento, com o objetivo de que algo possa mudar não só para nós, mas para o bem de toda a Igreja”.(...) “ As únicas alternativas são o abandono do sacerdócio ou a manutenção da relação em segredo”.
A proibição levou ao longo dos tempos multidão considerável, em todos os cantos do planeta, a abandonar as funções sacerdotais. Defensores da tese de que o regime do celibato deva ser abolido argumentam, com carradas de razão, que uma alteração nesse preceito, sustentado apenas na tradição, teria o mérito de devolver aos quadros paroquiais cidadãos com alto grau de qualificação para tocar ações pastorais e preencher vazios nesse trabalho, ocasionados pela notória escassez de vocações.
A obrigação celibatária escancara outra tremenda incoerência, consignada neste depoimento dado a “IstoÉ” pela doutora em sociologia da religião Regina Jurkewicz, membro de um grupo denominado “Católicos pelo direito de decidir”: “ A Igreja pune de forma mais severa o padre que decide se casar,  expulsando-o do sacerdócio, do que o padre que comete uma violência sexual ou pedofilia. Nesse caso, esse padre é afastado do cargo temporariamente e vai para reclusão pensar no que fez”.
A questão remete, também, de certo modo, à lembrança de outra regra disciplinar, de raízes igualmente seculares, que a Igreja houve por bem eliminar em passado relativamente próximo. Na segunda metade do século 20, o uso obrigatório da batina ainda imperava entre nós. Configurava amostra típica de outro “falso dogma”.
Falo disso na sequência.







Nos tempos da Batina

Cesar Vanucci*

                                
“O habito não faz o monge”.
 (Ditado popular)

Como antecipado no artigo passado, ocupo hoje este “minifúndio de papel” (lembrando o saudoso Roberto Drummond) para tratar de outro falso dogma de fé. Falarei da batina que, por séculos adentro, constituiu vestimenta obrigatória no mundo eclesiástico.
Ái do sacerdote que, até bem pouco tempo atrás, por mais piedosa se revelasse sua postura pastoral, que cometesse a extrema ousadia de sair por aí sem aquele desajeitado saião, via de regra de cor escura! A vítima expunha-se inapelavelmente a risco de apedrejamento moral capaz de enodoar para todo sempre seu edificante currículo. Puxo das ladeiras da memoria cenas em que, surpreendidos em mera atividade recreativa sem os uniformes tradicionais, clérigos se viram alvo de uma saraivada de maledicências, produzida obviamente por tocaieiros medievais da “moral e costumes”. A alardeada “quebra” dos “códigos sagrados” forçou-os, por largo espaço de tempo, “a comer o pão que o diabo amassou”... Na visão de alguns católicos, que se acreditavam mais católicos que Bispos e padres, uso de batina não era simples regra disciplinar, suscetível de modificação. Mas dogma “imexível”, para todo sempre, amém!
Nos anos 50, subscrito pela quase totalidade dos sacerdotes da então Diocese de Uberaba, chegou ao conhecimento publico magistral documento. Nele, pedia-se ao Bispo autorização para substituição da batina por traje mais adequado às conveniências da ação operacional dos padres. A repercussão, como era de se esperar face às circunstancias culturais vigentes, foi enorme. Deixou em polvorosa elementos refratários às mudanças de regras que condicionam o jogo da vida ao imobilismo social.  Pela vez primeira no Brasil, a questão da batina era trazida, graças aos padres de Uberaba, a debate publico.  O manifesto saiu estampado na primeira pagina do diário “Correio Católico” (12 mil assinantes, recorde naqueles tempos), sem o conhecimento prévio do titular da Diocese, Alexandre Gonçalves Amaral.  Este grande Bispo, mais tarde elevado a Arcebispo, era considerado o maior orador sacro do Episcopado. Ganhou fama também pelo incentivo dado à implantação e expansão da Ação Católica.
O documento foi recebido como vibrante abaixo-assinado endereçado também à opinião publica. Que, diga-se de passagem, mesmo tomada pelo espanto, deixou transparecer nas reações gerais razoável simpatia pela causa dos padres. A resposta do Bispo, um primor de polidez, em tom igualmente vibrante, saiu no mesmo jornal.  Embora reconhecendo legitimidade na formulação do pleito, louvando a forma respeitosa da manifestação e lamentando não ter sido dela previamente informado, Alexandre contrariou, entretanto, as aspirações dos sacerdotes. Fechou questão com base nas regras disciplinares.
Os argumentos expendidos naquele momento são, inegavelmente, de relevante valia documental para a compreensão das dificuldades que permearam os caminhos da Igreja no período dos avanços e aberturas promovidos pelo agora Santo João XXIII.
Não resisto à tentação de juntar a essas informações uma historieta divertidíssima ligada, de certo modo, ao uso da batina. Ocorreu no âmbito familiar. Meus filhos mais velhos, Claudio Cesar e Sérvio Tulio, garotinhos de 7 e 6 anos, encontravam-se próximos das irmãs, mais novas, Maria Claudia e Maria Paula, na hora do banho. Um deles havia encrencado, pouco antes com uma das garotas, sendo por isso repreendido. Fixando-as mais detidamente, deparou-se, espantado, com uma diferença anatômica da qual nunca se dera conta, apontando para a circunstância de as meninas possuírem aparelho genital diferente. Partiu aos gritos para se defender de alguma possível admoestação por conta do que supunha serem mutilações sofridas pelas irmãs: “Não fui eu, não, mãe!” O alarido deixou as crianças transtornadas, até que se pudesse, pedagogicamente, transmitir-lhes explicações sobre as diferenças dos caracteres sexuais de homem e mulher.    Das explicações brotou lição singela e básica, de fácil assimilação (considerada a época) na mente infantil. Homem veste calça, mulher veste saia (era assim naquele tempo). Passados alguns dias, recebemos a visita de um padre muito querido. Às tantas, depois de rodear enigmaticamente o visitante, Maria Claudia deixou cair: -“Padre o senhor tem pinto?” A surpreendente pergunta só pôde ser devidamente entendida quando nos recordamos da ocorrência na banheira. Como atravessávamos os dias em que a polemica da batina dominava as atenções, o sacerdote, rindo a bandeiras despregadas, extraiu do episodio a conclusão de que a garotinha havia acabado de adicionar magistral argumento a favor da abolição da batina.  






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